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Unesp testa diesel verde feito de óleos e resíduos em 4 etapas para abastecer caminhões sem adaptação

Unesp testa diesel verde feito de óleos e resíduos em 4 etapas para abastecer caminhões sem adaptação
Ilustração: IA

Projeto de R$ 5 milhões pesquisa matérias-primas brasileiras e catalisadores mais baratos para produzir HVO em escala piloto.

Imagine abastecer um caminhão com um combustível produzido a partir de óleo de cozinha usado, sem trocar o motor e sem misturá-lo ao diesel fóssil. É essa possibilidade que pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) investigam em Araraquara, no interior de São Paulo, em um projeto de cinco anos apoiado pela Fapesp e financiado com R$ 5 milhões.

Liderada pela professora Sandra Pulcinelli, do Instituto de Química da Unesp, a pesquisa busca desenvolver uma rota técnica e economicamente viável para produzir o chamado diesel verde, também conhecido como HVO, sigla em inglês para Hydrotreated Vegetable Oil, ou óleo vegetal hidrotratado. O combustível poderá ser testado em caminhões e ônibus por não exigir alterações nos motores convencionais.

Quatro etapas levam o óleo da biomassa ao motor

O projeto foi organizado em quatro frentes. A primeira é a prospecção de biomassas adequadas ao contexto tropical brasileiro. Os cientistas pretendem avaliar óleos de origem vegetal, como os extraídos da soja e da carnaúba, além de resíduos, como o óleo de cozinha usado, e matérias-primas de origem animal, como a gordura bovina.

A escolha não depende apenas da quantidade disponível. Também é preciso considerar preço, logística, rendimento e impacto sobre a produção de alimentos. “Existe um desafio que é escolher uma fonte de matéria-prima que seja tecnicamente praticável e que não vá competir com a produção de alimentos no país”, explica Sandra Pulcinelli.

Essa questão também interessa diretamente à Amazônia. Estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins possuem cadeias produtivas, longas distâncias rodoviárias e desafios próprios de abastecimento. Qualquer alternativa ao diesel fóssil, no entanto, precisará comprovar que a matéria-prima pode ser obtida de forma sustentável e sem estimular desmatamento ou pressionar áreas destinadas à produção de alimentos.

Metais mais baratos podem reduzir o custo da produção

A segunda frente da pesquisa envolve os catalisadores, materiais que ajudam a orientar e acelerar as reações químicas usadas na transformação dos óleos em combustível. Hoje, a indústria costuma recorrer a metais empregados no setor petrolífero, como paládio e platina, que apresentam custo elevado.

Com apoio do Grupo de Pesquisa em Catálise, coordenado pelo professor Leandro Martins, a equipe procura alternativas baseadas em metais mais acessíveis. “Queremos desenvolver alternativas baseadas em metais mais baratos, como o níquel ou o cobalto, de forma que sejam eficientes e também acessíveis”, afirma o pesquisador.

Segundo a Unesp, o projeto de diesel verde começou há menos de dois anos e está estruturado para selecionar biomassas, desenvolver catalisadores, produzir o HVO em laboratório e avaliar o combustível em um motor real no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos.

Da bancada de 750 mililitros ao reator de 50 litros

Na fase inicial, os experimentos são realizados em reatores de bancada capazes de trabalhar com volumes de até 750 mililitros. Esses testes permitem identificar quais combinações de matéria-prima, catalisador, temperatura e pressão apresentam melhor desempenho.

Os resultados deverão orientar a etapa piloto, que contará com um reator de 50 litros adquirido com recursos da Fapesp. A mudança de escala é importante porque uma reação que funciona em pequena quantidade nem sempre mantém o mesmo rendimento, estabilidade ou custo quando passa a utilizar volumes maiores.

Depois da produção piloto, amostras do combustível serão encaminhadas ao Laboratório de Combustão, Propulsão e Energia do ITA. Em um motor construído para pesquisas, os cientistas poderão comparar o desempenho do HVO com o diesel fóssil e o biodiesel, além de medir emissões de gases.

O que torna o HVO diferente do biodiesel

A principal diferença apontada pelos pesquisadores está na forma de utilização. O diesel verde é planejado como um combustível “drop-in”, expressão usada para indicar que ele pode ser colocado diretamente no tanque de veículos compatíveis com o diesel, sem necessidade de mudanças no motor e sem depender de mistura com o combustível fóssil.

O biodiesel, por sua vez, é normalmente utilizado em proporções definidas na mistura comercial com o diesel mineral. Já o HVO passa por um processo de tratamento com hidrogênio que transforma os óleos em hidrocarbonetos com características próximas às dos combustíveis derivados do petróleo.

Isso não significa que o combustível já esteja pronto para substituir o diesel em larga escala. Ainda será necessário confirmar o rendimento industrial, a estabilidade, as emissões, a durabilidade dos motores, a disponibilidade das matérias-primas e o custo final. A origem da biomassa também será decisiva para determinar o benefício ambiental real.

Uma alternativa voltada ao transporte pesado

A pesquisa mira um dos setores mais dependentes de combustíveis líquidos no Brasil. Conforme os dados apresentados pela Unesp, caminhões e ônibus representam cerca de 5% da frota em circulação, mas respondem por quase metade da demanda de combustível líquido, porque utilizam motores de maior potência e percorrem longas distâncias.

Essa dependência é especialmente relevante em uma região como a Amazônia, onde o transporte rodoviário convive com grandes distâncias entre centros urbanos, áreas de produção e portos. Em parte da região, a logística também combina estradas, rios e terminais de transbordo, o que torna a regularidade e a densidade energética do combustível fatores importantes.

O projeto ainda envolve docentes da Unesp e do ITA, pelo menos quatro pós-doutores, cinco doutorandos, mestrandos e estudantes de iniciação científica. A expectativa da equipe é formar profissionais e ampliar as parcerias durante o desenvolvimento dos experimentos.

Os primeiros artigos científicos produzidos por alunos são esperados para 2027, enquanto as próximas fases dependerão dos resultados obtidos na seleção de biomassas, no desenvolvimento dos catalisadores e nos testes do reator piloto de 50 litros.

Com informações de Unesp.

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