
No planalto seco de Cienaguita, no departamento de Sarmiento, o vento da Cordilheira dos Andes varre o pátio onde os fornos Maerz sobem como torres brancas contra o céu sem nuvem. Ali, entre pilhas de calcário e o ruído baixo da calcinação, o sanjuanino Raúl Cabanay caminha ainda como dono de uma fatia da história que ele mesmo ajudou a escrever.
Depois de uma década de obras, de fornos novos e de uma expansão que tirou a calera do patamar provincial para a escala industrial, ele conserva vinte por cento do capital. O restante, a fatia que decide o rumo da companhia, passa às mãos do Grupo Carmeuse, multinacional belga que há gerações vive de transformar pedra em cal para o mundo inteiro.
A confirmação oficial chegou sem alarde de palco, mas com o peso de quem move peças grandes no tabuleiro dos minerais industriais. A Caleras San Juan deixa de ser apenas uma empresa familiar de crescimento acelerado e entra na rede global de um dos maiores produtores de cal do planeta.
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Uma lacraia entrou numa estrutura de madeira no Parque Cristalino, agarrou um morcego pelo pescoço e revelou uma cena raríssima na AmazôniaO empresário local, que entrou na sociedade em 2013 e virou peça central da transformação, permanece no capital e no conhecimento fino do mercado argentino. A planta, agora com o quarto forno Maerz em operação, declara capacidade instalada superior a setecentas e cinquenta mil toneladas anuais.
É o tipo de número que, no silêncio do deserto, significa fornos acesos quase o ano todo e caminhões pesados saindo em direção a siderúrgicas, obras civis, fábricas de papel e estações de tratamento de água.
A calera no deserto e o sócio que ficou
San Juan não é cenário de cartão-postal para quem chega de ônibus depois de cruzar Mendoza. É pedra, sol alto e uma tradição mineira que se confunde com a própria identidade da província. A geologia de carbonatos favorece quem sabe queimar calcário na temperatura certa e vender o óxido de cálcio resultante como insumo básico.
A Caleras San Juan nasceu nesse chão e, nos últimos dez anos, acelerou investimentos até completar a linha de fornos que hoje define sua escala.
O quarto forno Maerz em Cienaguita não é detalhe técnico para engenheiro de plantão; é a prova de que a companhia deixou de ser uma calera regional para se tornar um ativo industrial relevante no Cone Sul. Raúl Cabanay entrou nesse enredo em 2013. Não como visitante de capital de passagem, mas como sócio que acompanhou cada etapa da expansão.
Quando grupos internacionais começaram a olhar para a empresa, o nome dele já estava colado à narrativa de crescimento. A operação agora confirmada deixa vinte por cento sob seu controle e oitenta por cento com a Carmeuse.
O arranjo é clássico no setor de minerais industriais: o gigante estrangeiro traz rede global, disciplina de processo e acesso a clientes em vários continentes; o sócio local mantém licenças, relações com a comunidade, leitura do mercado interno e a memória de como a planta realmente funciona quando o vento muda e o calcário chega com umidade diferente.
Quem visita a região de Cuyo, o bloco histórico que reúne San Juan, Mendoza e San Luis, entende por que a calera faz sentido ali.
A Cordilheira marca a fronteira com o Chile a oeste; a leste, a planície se abre em direção a Córdoba e, mais longe, a Buenos Aires, a cerca de mil e cem quilômetros. O calcário está no chão. A demanda por cal está nas indústrias que precisam de um reagente antigo, barato e versátil. A combinação atraiu cimenteiras e caleras ao longo de décadas.
O que muda agora é a bandeira no capital majoritário e a integração a uma cadeia que já opera em vários continentes.
O que a planta entrega quando os fornos estão a pleno
Capacidade instalada acima de setecentas e cinquenta mil toneladas anuais coloca a Caleras San Juan em patamar de fábrica de médio-grande porte para insumos de siderurgia e construção. A cal que sai dali pode ir para a dessulfuração de aço, para a estabilização de solos em obras, para o branqueamento na indústria de papel ou para o ajuste de pH em estações de água.
O quarto forno Maerz em Cienaguita fecha um ciclo de investimentos que durou cerca de dez anos e prepara a unidade para operar dentro da lógica de suprimento de um grupo global.
O belga que compra pedra e vende cal no mundo
A Carmeuse não chegou a San Juan por acaso de mapa aberto na mesa. O grupo belga é um dos nomes centrais da cal e de minerais industriais no planeta, com origem na Europa e operações espalhadas por vários continentes. Seu ofício é antigo e teimoso: extrair carbonato, calcinar em fornos de alta temperatura e entregar óxido de cálcio e derivados para indústrias que não param.
Siderurgia, construção, química, tratamento ambiental e mineração dependem desse insumo com a mesma regularidade com que dependem de energia e de transporte. Quando uma multinacional desse porte adquire participação majoritária em uma calera argentina, o movimento costuma obedecer a três lógicas ao mesmo tempo. A primeira é reserva e qualidade de calcário; sem pedra boa e acessível, não há forno que se pague.
A segunda é proximidade de clientes industriais na Argentina e, eventualmente, em países vizinhos, onde o frete de um produto a granel pesa no preço final. A terceira é custo competitivo de operação em uma região que já domina a rotina da mineração e da logística pesada.
San Juan oferece as três, e a Caleras San Juan chegou à mesa de negociação depois de provar, com fornos novos e capacidade instalada robusta, que não era apenas uma promessa no deserto.
O anúncio oficial da Carmeuse destaca exatamente esse ponto: a companhia sanjuanina e suas afiliadas somam capacidade de produção instalada superior a setecentas e cinquenta mil toneladas por ano, além de reservas que sustentam a operação no longo prazo. Em linguagem de balanço, isso significa ativo pronto para integrar a malha global de suprimento.
Em linguagem de chão de fábrica, significa que os fornos de Cienaguita passam a responder também a uma estratégia desenhada em escritórios distantes, sem abandonar o sócio que conhece cada curva da estrada até a planta. Parcerias em que o empresário local permanece com fatia minoritária são comuns nesse setor precisamente porque a cal não se vende só com planilha.
Há licenças ambientais, relações com sindicatos, calendário de manutenção em altitude e clima seco, e a confiança de clientes que preferem falar com quem já entregou carga no prazo durante uma década de oscilações econômicas argentinas. Cabanay encarna essa ponte. A Carmeuse encarna a escala.
O casamento, se funcionar como o desenho sugere, mantém a planta acesa e o calcário de San Juan circulando em circuitos mais largos.
San Juan no mapa que o brasileiro reconhece
A província fica no oeste argentino, na região de Cuyo, ao pé da Cordilheira dos Andes e na fronteira com o Chile. Para quem parte de Buenos Aires, são cerca de mil e cem quilômetros a oeste; para quem pensa a partir do Brasil, é o bloco andino além de Mendoza, terra de vinho, mineração e desertos de altitude. A capital leva o mesmo nome da província.
O departamento de Sarmiento, onde está a planta de Cienaguita, concentra parte da vocação industrial ligada a carbonatos e fornos de cal.
Por que a cal ainda move fábricas e fronteiras
A cal é um dos minerais industriais mais antigos que a humanidade ainda trata como essencial. Obtida pela calcinação do calcário em temperaturas elevadas, o óxido de cálcio entra em processos que vão da purificação de metais à correção de solos ácidos, da fabricação de argamassas ao tratamento de efluentes. Não há glamour de lítio nem discurso de terra rara; há utilidade bruta e demanda estável.
Por isso grupos europeus de minerais industriais olham para a América Latina com a paciência de quem busca reservas, energia e clientes em um mesmo raio logístico. Na Argentina, a tradição mineira de San Juan e a geologia favorável a carbonatos criaram um ambiente natural para caleras e cimenteiras.
O ciclo recente de investimentos da Caleras San Juan, coronado pelo quarto forno Maerz, encaixa-se nesse quadro: modernizar a base instalada, ganhar escala e tornar-se alvo atrativo para um comprador global.
A reportagem de tiempodesanjuan.com registrou a confirmação da operação depois de ter adiantado, dias antes, que a empresa avaliava ofertas internacionais pela fatia majoritária. O desfecho alinha o capital belga ao chão sanjuanino e preserva o empresário local no desenho societário.
Para o leitor que nunca pisou em uma calera, o espetáculo é menos de fumaça cinematográfica e mais de rotina pesada. Caminhões despejam calcário. Fornos consomem energia e tempo. A pedra perde gás carbônico e vira cal viva. Depois vêm a hidratação, a classificação, a expedição.
Cada tonelada que sai de Cienaguita carrega consigo a geografia do deserto andino e, a partir de agora, a lógica de um grupo que já vende o mesmo produto em outros fusos.
A capacidade acima de setecentas e cinquenta mil toneladas anuais não é metáfora; é o teto teórico se a planta operar a pleno, o tipo de escala que interessa tanto a uma siderúrgica argentina quanto a um planejador de suprimentos em Bruxelas ou em outra base da Carmeuse. O oeste argentino vive ciclos de atenção internacional sempre que mineração e energia ganham manchete.
A cal costuma ficar fora dos holofotes porque não brilha em vitrine de transição energética da mesma forma que o cobre ou o lítio. Ainda assim, sem cal muitos desses processos simplesmente não fecham a conta química. Estabilizar rejeitos, tratar água, ajustar escória, preparar base de estrada: a lista é longa e prosaica.
Por isso a entrada de um gigante belga em uma calera de San Juan importa menos como drama de bandeira e mais como sinal de que o insumo básico continua a atrair capital paciente e de longo prazo. Raúl Cabanay, fotografado ao lado dos filhos em registros da própria trajetória empresarial, personifica a continuidade local. Ele não some do quadro; reduz a fatia e amplia o horizonte da companhia que ajudou a expandir.
A Carmeuse, ao declarar a aquisição da participação majoritária, sinaliza que a planta de Cienaguita entra no mapa global de cal com reservas e capacidade já dimensionadas.
Entre o vento seco de Sarmiento e as planilhas de um grupo europeu, a pedra de San Juan ganha um novo dono majoritário sem perder o sócio que conhece o cheiro do forno ao amanhecer. No fim, a história que sobra é simples e densa como o próprio mineral. Um empresário do deserto andino manteve a parte que o amarra à terra e ao ofício. Um grupo belga levou o comando de uma fábrica que já prova escala.
A Cordilheira continua no horizonte, os fornos Maerz continuam a queimar calcário, e a cal que sai dali segue o caminho antigo de todo insumo essencial: discreta, pesada e indispensável para quem constrói, funde, trata e fabrica do outro lado da estrada.
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