
Dados antigos do telescópio Chandra expuseram objetos compactos cuja natureza ainda não foi determinada.
Durante quase duas décadas, sinais muito fracos registrados pelo telescópio espacial Chandra foram tratados como ruído. Uma nova análise dos dados, divulgada em 9 de setembro de 2026, transformou esse material esquecido em evidência de uma possível classe de fontes celestes, chamadas pelos pesquisadores de fontes hipersuaves de raios X. Elas podem ajudar a explicar como o gás das galáxias é ionizado e como diferentes remanescentes de estrelas continuam interagindo com o ambiente ao redor.
O que estava escondido nos dados do Chandra
A descoberta nasceu de uma revisão de observações antigas, e não de uma nova missão espacial. Os astrônomos Jimmy Irwin, da Universidade do Alabama, Mustafa Muhibullah e Rosanne Di Stefano, do Center for Astrophysics, ligado a Harvard e ao Smithsonian, examinaram registros obtidos pelo Chandra entre 1999 e 2017.
Leia também
Duas espaçonaves chegam mais perto de Mercúrio após quase uma década de viagem pelo Sistema Solar
Setembro reúne nove encontros no céu, leva Venus ao brilho máximo e encerra a melhor temporada da Via Láctea
Colisões de oxigênio e neônio no CERN recriam matéria do início do Universo e revelam núcleos em forma de pinoO trabalho exigiu separar artefatos, interferências e outros sinais sem interesse científico. Depois dessa filtragem, restaram emissões de raios X com energia muito baixa em comparação com a radiação normalmente procurada em estrelas e sistemas compactos.
Segundo os pesquisadores, as fontes hipersuaves de raios X foram identificadas em dados do observatório Chandra coletados entre 1999 e 2017, mas sua composição física ainda não foi determinada.
O motivo de os sinais terem passado despercebidos está justamente na faixa de energia. Como eram fracos e apareciam nos canais menos energéticos do instrumento, acabaram considerados pouco relevantes em análises anteriores. “Eles nem sabiam que os objetos estavam lá”, afirmou Irwin, segundo o relato publicado pela Scientific American.
Uma assinatura, não necessariamente um novo astro
O nome dado pelos cientistas exige cautela. Fonte hipersuave não significa, necessariamente, uma espécie única de objeto, como uma estrela ou um planeta. A expressão descreve principalmente o padrão de energia observado.
Os autores avaliam que essas fontes devem estar associadas a objetos compactos, remanescentes de estrelas que já passaram por etapas violentas de evolução. Entre as possibilidades estão buracos negros, estrelas de nêutrons e anãs brancas.
Nesses sistemas, um objeto compacto pode retirar matéria de uma estrela companheira. À medida que o material se aproxima do corpo mais denso, ele esquenta e libera radiação em raios X. A mesma aparência hipersuave pode, portanto, surgir em sistemas com naturezas diferentes.
“Eles provavelmente são uma mistura heterogênea de diferentes tipos de objetos”, explicou Irwin. Para o pesquisador, a fonte hipersuave representa mais o tipo de energia que chega ao telescópio do que uma identidade única para todos os objetos.
Por que a maior parte desses objetos pode continuar invisível
A dificuldade não termina na detecção dos raios X. Os pesquisadores acreditam que as fontes também emitam radiação ultravioleta extrema, conhecida pela sigla EUV. Essa faixa é absorvida pelo hidrogênio e por outros materiais presentes entre os sistemas estelares.
Na prática, a própria galáxia que abriga a fonte pode bloquear parte da radiação antes que ela alcance a Terra. O espaço entre as estrelas funciona como uma espécie de filtro, impedindo que os instrumentos registrem muitos desses objetos.
Por isso, cada fonte observável pode representar uma população muito maior escondida no interior da mesma galáxia. Rosanne Di Stefano comparou os registros conhecidos à ponta de um iceberg: o que aparece nos dados seria apenas uma fração do conjunto real.
Um telescópio sensível à radiação EUV poderia tornar essas fontes muito mais evidentes. O problema é que, mesmo com um instrumento adequado, a absorção causada pelo gás interestelar continuaria limitando a observação a partir da Terra.
O elo com o nascimento de estrelas
A importância da descoberta está além da catalogação de objetos raros. A radiação produzida por fontes compactas pode alterar o gás ao redor, influenciando processos que acontecem em escala galáctica.
Os núcleos ativos de galáxias, alimentados por buracos negros supermassivos, são frequentemente apontados como fontes de radiação capazes de ionizar o gás. Esse gás pode participar posteriormente da formação de estrelas. No entanto, há galáxias que não apresentam esses núcleos ativos e, ainda assim, contêm gás ionizado.
As fontes hipersuaves podem ajudar a preencher parte dessa lacuna. Se forem numerosas, sua emissão combinada poderá contribuir para explicar a ionização observada em galáxias onde não há um buraco negro supermassivo ativo comandando o processo.
Ainda não há confirmação de que todos os sinais tenham a mesma origem. A própria equipe admite que os objetos podem reunir diferentes tipos de remanescentes estelares. A interpretação atual é uma hipótese apoiada pela luminosidade, pela temperatura estimada e pelo comportamento da emissão, não uma classificação definitiva.
O que isso significa para a astronomia na Amazônia
As fontes estão em galáxias distantes, portanto a descoberta não representa uma mudança imediata no céu observado sobre Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins ou Maranhão. Também não se trata de um fenômeno que possa ser visto a olho nu ou acompanhado por telescópios comuns instalados em território brasileiro.
A conexão regional está na forma como a ciência é feita. Dados de missões espaciais como o Chandra são analisados por equipes espalhadas pelo mundo, inclusive em universidades e centros de pesquisa que trabalham com astrofísica, computação e análise de grandes bases de dados. Para estudantes e pesquisadores da Amazônia, o caso mostra que observações antigas podem produzir descobertas quando são revisitadas com novos filtros e perguntas.
Esse aspecto também interessa a áreas em expansão no Brasil, como ciência de dados e processamento de imagens astronômicas. O resultado não veio de uma fotografia inédita, mas da identificação de um padrão que havia sido descartado em arquivos acumulados ao longo dos anos.
A próxima etapa é descobrir quem são os objetos
O estudo publicado na revista Nature Astronomy abre uma investigação, mas não encerra o problema. Os cientistas ainda precisam determinar se as fontes hipersuaves são predominantemente anãs brancas, estrelas de nêutrons, buracos negros ou uma combinação desses remanescentes.
As respostas dependerão de novas observações e de comparações com outros comprimentos de onda. A radiação EUV seria especialmente útil, embora sua detecção a partir da Terra enfrente as barreiras impostas pelo gás entre as estrelas.
O artigo científico que detalha a análise está disponível na publicação da Nature Astronomy sobre as fontes hipersuaves. A investigação agora deve avançar na tentativa de ligar a assinatura energética a sistemas estelares específicos.
Com informações de Scientific American.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














