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Hubble revela fusão de galáxia anã há 11,8 bilhões de anos que mudou a juventude da Via Láctea

Hubble revela fusão de galáxia anã há 11,8 bilhões de anos que mudou a juventude da Via Láctea
Foto: newswise.com

A descoberta recua em 1,8 bilhão de anos o registro da mais antiga grande fusão conhecida da nossa galáxia.

Concepção artística da fusão entre a galáxia anã LKH e a jovem Via Láctea
Concepção artística da colisão entre a galáxia anã LKH e a jovem Via Láctea. Crédito: NASA, ESA, Joseph Olmsted, STScI.

Há cerca de 11,8 bilhões de anos, quando a Via Láctea ainda estava em uma fase inicial e turbulenta, uma galáxia anã chamada LKH colidiu com ela e foi absorvida. A conclusão vem de observações do telescópio espacial Hubble sobre antigos aglomerados globulares e recua em 1,8 bilhão de anos o registro da mais antiga grande fusão significativa já identificada na história da nossa galáxia.

O estudo foi publicado em 17 de agosto de 2026 na revista Nature Astronomy. A pesquisa, conduzida por astrônomos ligados ao Observatório de Astrofísica e Ciência Espacial de Bolonha, na Itália, usou a alta resolução do Hubble combinada com dados da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia, para separar grupos de estrelas formados em diferentes momentos da evolução galáctica.

Vestígios de uma galáxia devorada

A Via Láctea abriga hoje centenas de bilhões de estrelas e tem a forma de uma grande galáxia espiral. Mas ela cresceu gradualmente, formando novas estrelas a partir de nuvens de gás e incorporando estrelas, gás e matéria escura de galáxias menores.

Os sinais dessas incorporações podem desaparecer com o passar do tempo. Por isso, os pesquisadores procuraram evidências em aglomerados globulares, estruturas aproximadamente esféricas que reúnem de dezenas de milhares a alguns milhões de estrelas. Como contêm alguns dos astros mais antigos da galáxia, esses aglomerados funcionam como verdadeiros sítios arqueológicos cósmicos.

Segundo o Space Telescope Science Institute, os aglomerados globulares associados à galáxia LKH preservaram informações sobre a idade, a composição química e a origem de uma antiga população estelar incorporada pela Via Láctea há 11,8 bilhões de anos.

Entenda o caso

Os astrônomos analisaram 39 aglomerados globulares localizados nos 20 mil anos-luz mais internos da Via Láctea. A região foi escolhida porque os vestígios das fusões mais antigas tendem a permanecer concentrados nas áreas internas da galáxia.

A análise revelou três grupos principais. Um deles nasceu dentro da própria Via Láctea. Outro foi incorporado durante a fusão com a galáxia anã Gaia-Sausage-Enceladus, há cerca de 10 bilhões de anos. O terceiro grupo é mais antigo que o segundo, mas mais jovem que os aglomerados formados originalmente na Via Láctea.

O que os aglomerados revelaram

Para distinguir os grupos, a equipe mediu com precisão inédita a idade e a metalicidade dos aglomerados. Em astronomia, metalicidade é a quantidade de elementos mais pesados que o hélio presentes nas estrelas. Essa composição ajuda a indicar onde e quando os astros se formaram.

Os aglomerados ligados à LKH tinham características diferentes das populações já conhecidas. A idade intermediária e a composição química indicaram que eles nasceram em outra galáxia antes de serem capturados pela Via Láctea.

A galáxia anã absorvida tinha aproximadamente 500 milhões de vezes a massa do Sol em estrelas. Para a Via Láctea daquela época, ainda muito menor do que é hoje, a incorporação representou uma parcela significativa de sua massa e alterou o caminho de sua evolução.

“Neste trabalho, descobrimos de onde veio o primeiro conjunto significativo de blocos de construção: uma galáxia anã que chamamos de LKH”, afirmou Davide Massari, autor principal do estudo e pesquisador do Observatório de Astrofísica e Ciência Espacial de Bolonha.

Uma cronologia mais antiga da Via Láctea

Antes desse resultado, os astrônomos já conheciam outras fusões importantes. A mais recente grande incorporação começou há mais de 6 bilhões de anos e ainda envolve a galáxia anã de Sagitário. Outra colisão, com a Gaia-Sausage-Enceladus, ocorreu há cerca de 10 bilhões de anos e teve forte impacto sobre o disco de estrelas da Via Láctea.

A nova evidência mostra que uma fusão ainda mais antiga aconteceu aproximadamente 2 bilhões de anos depois do Big Bang. Ela estende a cronologia conhecida e indica que galáxias externas contribuíram para a formação da Via Láctea desde os primeiros capítulos de sua história.

“Alguns estudos anteriores defendiam que as fases iniciais da evolução da nossa galáxia eram definidas apenas por estrelas nascidas nela. Aqui, mostramos que também é necessário considerar estrelas formadas em galáxias externas”, disse Massari.

Por que a descoberta importa

O achado ajuda a explicar como a Via Láctea passou de uma estrutura menor e caótica para a grande galáxia espiral observada atualmente. A colisão com a LKH não foi apenas um encontro entre dois conjuntos de estrelas. Ela acrescentou matéria, alterou a distribuição dos astros e forneceu pistas sobre a formação do ambiente galáctico que, bilhões de anos depois, abrigaria o Sistema Solar.

Embora a pesquisa trate de uma escala muito distante da realidade terrestre, ela também amplia o entendimento sobre a origem dos elementos químicos presentes em estrelas, planetas e nuvens de gás. Esse conhecimento é relevante para a astronomia brasileira, incluindo pesquisas desenvolvidas em universidades e observatórios da Amazônia, região que reúne áreas de baixa poluição luminosa e iniciativas de observação do céu em estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A interpretação é sustentada pelo conjunto de idades, metalicidades e movimentos dos aglomerados, mas a reconstrução da história galáctica continua em andamento. Os cientistas pretendem observar outros aglomerados globulares, inclusive aqueles que ainda não foram estudados em detalhe, para identificar todas as grandes fusões sofridas pela Via Láctea.

O artigo completo está disponível na Nature Astronomy. Informações sobre a missão que ajudou a mapear os movimentos das estrelas podem ser consultadas na página oficial da missão Gaia.

Perguntas frequentes

O que é a galáxia LKH?

LKH é o nome dado a uma antiga galáxia anã absorvida pela Via Láctea. A sigla significa Low-energy-Kraken-Heracles e homenageia pesquisas anteriores que sugeriram uma grande fusão nos primeiros períodos da evolução galáctica.

Como o Hubble identificou a fusão?

O telescópio observou aglomerados globulares antigos no interior da Via Láctea. A idade e a composição química dessas estruturas, combinadas com dados da missão Gaia, revelaram uma população originada fora da nossa galáxia.

Essa foi a única fusão da Via Láctea?

Não. A galáxia também incorporou a Gaia-Sausage-Enceladus há cerca de 10 bilhões de anos e continua interagindo com a galáxia anã de Sagitário. Novas observações devem revelar outros eventos.

O próximo passo da equipe é estudar mais aglomerados globulares para reconstruir, com maior precisão, a sequência de fusões que formou a Via Láctea.

Com informações de Space Telescope Science Institute.

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