
Dados do James Webb sugerem que as duas estruturas podem ter evoluído de maneiras opostas desde 2013.
Imagine observar o mesmo par de anéis durante alguns anos e perceber que um parece ter ficado mais opaco enquanto o outro se tornou mais transparente. Foi essa diferença que apareceu quando astrônomos compararam novas observações de Chariklo, um corpo celeste com cerca de 250 quilômetros de diâmetro que viaja entre as órbitas de Saturno e Urano. Os dados foram obtidos pelo Telescópio Espacial James Webb em 2022 e podem indicar que os anéis não são estruturas completamente estáticas.
Chariklo pertence ao grupo dos chamados centauros, objetos que circulam pelas regiões externas do Sistema Solar e combinam características associadas a asteroides e cometas. Apesar de ser muito menor que os planetas conhecidos, ele possui duas estruturas de material ao seu redor, uma configuração rara que tornou o objeto especialmente importante para o estudo de anéis fora dos gigantes gasosos.
O detalhe que apareceu na comparação
Os anéis de Chariklo foram identificados pela primeira vez em 2013. Depois da descoberta, observatórios terrestres acompanharam o objeto em diferentes oportunidades, incluindo campanhas realizadas em 2014 e 2017. A observação feita pelo James Webb, anos depois, ofereceu uma nova forma de comparar a aparência das estruturas.
Segundo o estudo publicado na revista Science Advances, as observações de Chariklo feitas pelo James Webb em 2022 indicaram mudanças diferentes nos dois anéis. O anel interno apresentou opacidade significativamente maior, enquanto o anel externo mostrou opacidade menor. Em termos simples, a quantidade de luz que atravessa, é refletida ou se espalha em cada estrutura parece ter mudado de maneira desigual.
O principal autor da pesquisa, Pablo Santos-Sanz, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, resumiu a diferença ao afirmar: “enquanto o anel interno apresenta opacidade significativamente maior, o anel externo apresenta menor opacidade.” A comparação foi publicada em 9 de setembro na pesquisa publicada na Science Advances.
Por que a aparência pode ter mudado
Os pesquisadores ainda não apontaram uma única explicação para o resultado. Uma possibilidade é que a capacidade de observação do James Webb tenha revelado diferenças internas que os telescópios terrestres não conseguiam separar. Nesse cenário, os anéis poderiam ser mais irregulares e apresentar áreas com diferentes níveis de densidade.
Outra hipótese envolve o próprio material que forma as estruturas. Os grãos podem ter sofrido alterações capazes de modificar a maneira como refletem ou espalham a luz. Uma mudança desse tipo não significaria necessariamente que grandes quantidades de matéria desapareceram ou foram acrescentadas aos anéis. A aparência observada poderia variar por causa das propriedades físicas das partículas.
Também existe a possibilidade de que os grãos respondam de formas diferentes aos comprimentos de onda da luz. Tamanho, composição e características ópticas das partículas podem fazer com que um instrumento registre uma estrutura de maneira distinta de outro. Essa explicação é especialmente relevante porque o James Webb observa o Universo em faixas de luz que complementam as usadas em observações anteriores.
Uma descoberta pequena com impacto amplo
O caso de Chariklo ajuda a ampliar a ideia de onde podem existir anéis no Sistema Solar. Durante muito tempo, essas estruturas ficaram associadas principalmente a planetas gigantes, como Saturno. A presença de anéis em um centauro mostra que corpos muito menores também podem manter material organizado ao seu redor.
A questão agora é entender como essas estruturas surgiram e como conseguem permanecer estáveis. Chariklo está longe dos grandes planetas, em uma região na qual a influência gravitacional direta de Saturno e Urano não explica sozinha todas as características observadas. Por isso, qualquer mudança real nos anéis pode oferecer pistas sobre colisões, fragmentação de objetos ou redistribuição de partículas no Sistema Solar exterior.
É importante destacar que os dados não comprovam, por si só, que os anéis tenham mudado fisicamente ao longo do tempo. A diferença pode estar relacionada à resolução dos instrumentos, ao ângulo da observação ou à forma como partículas com propriedades distintas interagem com a luz. A própria pesquisa trabalha com hipóteses e não apresenta um processo definitivo para explicar o fenômeno.
O que a descoberta significa para quem observa o céu na Amazônia
Para os leitores da Amazônia, o estudo mostra como a astronomia contemporânea depende da combinação entre observatórios terrestres e instrumentos espaciais. Estados como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins e Maranhão acompanham fenômenos celestes dentro da mesma vizinhança cósmica, mas a distância de Chariklo faz com que sua investigação exija telescópios capazes de identificar variações muito sutis.
A pesquisa também ajuda a traduzir uma escala difícil de imaginar. Mesmo com centenas de quilômetros de diâmetro, Chariklo é pequeno diante dos planetas e está a uma distância que impede observações diretas de sua superfície. O que os cientistas analisam são sinais de luz e alterações no modo como essa luz é filtrada ou espalhada pelos anéis.
As próximas perguntas sobre Chariklo
O próximo passo é comparar novas observações com os registros anteriores e verificar se a diferença se mantém. Se os anéis realmente estiverem evoluindo, campanhas futuras poderão indicar a velocidade e o sentido dessas mudanças. Se o efeito vier principalmente das propriedades ópticas ou das limitações dos instrumentos, novas medições também ajudarão a separar aparência e transformação física.
Dúvidas comuns sobre o objeto
O que é um centauro? É um pequeno corpo do Sistema Solar que percorre uma região entre os planetas gigantes e pode apresentar características associadas tanto a asteroides quanto a cometas.
Chariklo é um planeta? Não. Trata-se de um corpo celeste com aproximadamente 250 quilômetros de diâmetro, muito menor que os planetas, mas que possui dois anéis conhecidos.
Os anéis já foram vistos mudando diretamente? Ainda não há uma explicação definitiva. A pesquisa publicada em setembro de 2026 encontrou diferenças entre observações feitas em períodos e instrumentos distintos, e novos acompanhamentos serão necessários para confirmar a origem do efeito.
Com informações de Science Advances.
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