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Irerê pousa em galhos, algo incomum entre marrecas, e assobia no escuro para manter o bando unido em voo

Irerê pousa em galhos, algo incomum entre marrecas, e assobia no escuro para manter o bando unido em voo
Ilustração: IA

O irerê reúne pés adaptados ao poleiro, ninho em oco de árvore e vocalização que reforça a coesão durante deslocamentos noturnos.

Uma marreca que deixa a água para pousar no galho

Quando o dia perde luz, o irerê pode ser percebido antes pelo som do que pela silhueta. O bando se desloca em voo e os indivíduos emitem assobios que ajudam a conservar o contato entre eles. Em outro momento, a mesma ave pode abandonar a imagem associada às marrecas que nadam ou caminham junto às margens e pousar sobre um galho. Esse comportamento é incomum entre os anatídeos, grupo que reúne patos, gansos, cisnes e marrecas. No irerê, porém, o corpo inclui adaptações nos tarsos e nos dedos que favorecem a permanência sobre o poleiro. A cena une dois ambientes que costumam ser separados na observação comum da espécie, a lâmina d’água e a copa das árvores.

O irerê é uma ave conhecida também pelo nome de marreca-irerê e pertence ao gênero Dendrocygna. Seu nome popular está associado ao chamado agudo que atravessa áreas alagadas, campos e margens arborizadas. A espécie utiliza ambientes onde encontra água e vegetação, mas a presença de árvores acrescenta uma possibilidade importante à sua rotina. Em vez de depender apenas do solo, da água ou de estruturas baixas para descansar, ela pode se apoiar em ramos. Essa capacidade não transforma o irerê em uma ave arborícola, nem significa que todos os indivíduos passem longos períodos nas árvores. O ponto está na combinação entre anatomia e comportamento, que amplia os locais disponíveis para repouso e abrigo.

Tarso e dedos ajudam a segurar o poleiro

O poleiro exige uma resposta diferente daquela usada para nadar. Na água, os pés impulsionam o corpo e ajudam a conduzir a ave; sobre um galho, precisam sustentar o peso e manter o equilíbrio quando há vento, inclinação ou movimento do próprio animal. No irerê, o tarso e os dedos apresentam características compatíveis com essa tarefa. Eles permitem que a marreca se acomode no ramo e permaneça apoiada, algo pouco usual quando se compara sua anatomia à de muitos outros anatídeos. A adaptação não deve ser confundida com a de aves que possuem dedos especializados para escalar troncos. O irerê simplesmente dispõe de uma estrutura de apoio que combina com o uso ocasional de galhos.

Essa diferença aparece melhor quando se observa a sequência do comportamento. A ave chega ao ramo, ajusta o corpo, distribui o peso sobre os pés e interrompe o movimento das asas. Depois, pode permanecer ali como parte do descanso ou da proteção do grupo. O galho não é apenas um cenário fotográfico, mas uma superfície que a anatomia consegue utilizar. A presença de árvores também tem relação com outro aspecto da vida do irerê: o ninho pode ser construído em oco de árvore. Assim, o mesmo tipo de ambiente que oferece pontos de pouso pode participar da reprodução, embora o uso de cavidades dependa da disponibilidade de árvores adequadas e das condições locais.

O assobio funciona como contato durante o voo

No deslocamento noturno, a escuridão reduz a importância da visão para manter os integrantes do bando próximos. O irerê utiliza vocalizações em assobio como sinal de coesão. O chamado pode ser emitido durante o voo e ouvido por outras aves enquanto o grupo atravessa o espaço entre áreas de alimentação, descanso ou abrigo. A função descrita para esse som não é anunciar uma direção exata nem formar uma comunicação com conteúdo humano. Trata-se de um mecanismo de contato entre indivíduos. Ao assobiar, a ave contribui para que o bando não perca a unidade quando a luz é insuficiente, especialmente durante deslocamentos em que a formação visual fica menos evidente.

O som também ajuda a explicar por que o irerê pode ser localizado sem ser visto com facilidade. Um observador escuta a sequência de assobios, identifica a passagem do grupo e só depois procura as silhuetas contra o céu escuro. A vocalização não elimina os riscos de separação nem prova que cada chamado seja respondido imediatamente por outra ave. Ela participa de uma rede de contatos que reforça a proximidade do bando. Em espécies sociais, sinais acústicos são especialmente úteis quando há distância entre os indivíduos. No irerê, o assobio ganha relevância justamente porque acompanha o voo noturno, quando a comunicação sonora pode compensar a redução do contato visual.

O mesmo conjunto de adaptações aparece no ninho

A cronologia desse comportamento começa com o deslocamento do grupo, passa pelo pouso e inclui a escolha de locais onde a ave possa descansar ou reproduzir-se. Durante a noite, o irerê pode voar enquanto mantém o contato acústico com os demais. Ao chegar a uma área de repouso, encontra na vegetação arbórea uma alternativa ao solo e à água. Em períodos reprodutivos, a espécie pode utilizar oco de árvore para instalar o ninho. A cavidade oferece uma estrutura fechada em comparação com um ninho exposto sobre o chão, mas não torna a reprodução independente das condições ambientais. A árvore precisa apresentar uma cavidade acessível, e a disponibilidade desse recurso varia de acordo com a paisagem.

O conjunto revela uma marreca com mais possibilidades do que o estereótipo de ave exclusivamente aquática sugere. Ela nada, voa, vocaliza durante deslocamentos noturnos e pode pousar em galhos graças às características do tarso e dos dedos. Ainda assim, é preciso preservar os limites do que se sabe. O irerê não usa o assobio para demonstrar uma intenção humana, não pousa em qualquer árvore e não deve ser descrito como especialista em escalada. A pauta tem origem no conhecimento zoológico consolidado sobre a espécie e descreve comportamentos que não correspondem a um evento isolado com data específica. No Brasil, onde o irerê ocorre em diferentes paisagens úmidas, observar seus chamados no escuro é uma forma de perceber como uma ave pode manter a vida social mesmo quando quase nada é visível.

O irerê mostra que uma adaptação discreta pode mudar a leitura de toda a espécie. Seus pés permitem que a marreca use o galho, enquanto o assobio mantém uma ponte sonora entre indivíduos que voam no escuro. A cena não depende de um comportamento extravagante, mas de duas soluções precisas para problemas concretos, encontrar apoio e não perder o grupo. Em ambientes onde a noite encobre a paisagem, ouvir também passa a ser uma maneira de acompanhar a vida selvagem.

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