×
Próxima ▸
Fóssil encontrado na Espanha pertence a nova espécie de 6,5…

Lagos suecos retêm carbono por até 29 anos e elevam em 1,8 vez a liberação de CO₂

Lagos suecos retêm carbono por até 29 anos e elevam em 1,8 vez a liberação de CO₂
Foto: Alriksson et al, 2026

Estudo mostra que a configuração de redes com lagos pode ser tão decisiva quanto o volume de água no destino do carbono.

O destino do carbono carregado pela água pode mudar radicalmente conforme o caminho percorrido. Em redes de córregos e lagos no norte da Suécia, sistemas com dez vezes mais superfície de lagos apresentaram emissões de carbono cerca de 1,8 vez maiores em relação à quantidade exportada para jusante. A conclusão, publicada em 2026 na revista Geophysical Research Letters, desloca o foco de uma pergunta simples, quanto carbono um rio transporta, para outra mais ampla: por quanto tempo esse carbono permanece circulando dentro da paisagem?

A resposta interessa diretamente à ciência do clima porque rios, lagos, áreas alagadas e planícies de inundação não funcionam apenas como canais de passagem. Eles podem transformar, armazenar ou devolver à atmosfera o carbono que recebem do solo e da vegetação. O estudo liderado por Fredrik Alriksson, da Universidade de Umeå, examinou 32 redes conectadas de córregos e lagos em uma região de florestas de coníferas no norte sueco.

A água que demora mais tempo muda de destino

Em um córrego de fluxo rápido, parte do carbono dissolvido pode seguir rapidamente para rios maiores e, depois, para o oceano. Quando a água entra em um lago, a circulação desacelera. Esse intervalo adicional amplia a oportunidade para microrganismos degradarem compostos orgânicos dissolvidos, processo que pode produzir dióxido de carbono e facilitar sua saída da água para a atmosfera.

Os pesquisadores chamam de tempo de residência da rede o período em que a água permanece dentro do conjunto formado por córregos e lagos. Nos sistemas analisados, esse intervalo foi de apenas 42 minutos em alguns casos e chegou a 29 anos em outros. Os lagos responderam por quase todo esse tempo de permanência, o que ajuda a explicar por que a área aquática disponível alterou o balanço entre carbono exportado e carbono liberado.

Segundo pesquisadores da Universidade de Umeå, redes de córregos e lagos no norte da Suécia apresentaram tempos de residência de 42 minutos a 29 anos e maior liberação atmosférica de carbono quando havia mais área de lagos, em estudo publicado em 2026.

O que foi medido em quatro períodos do ano

Para evitar que a conclusão dependesse de uma única condição climática, a equipe repetiu as coletas durante quatro momentos: o derretimento da neve na primavera, o início do verão, o período de baixa vazão no fim do verão e a elevação do fluxo no outono. Ao todo, foram avaliadas emissões de dióxido de carbono em mais de 360 trechos de córregos e em 42 lagos, além do carbono dissolvido que continuava descendo pela rede.

A comparação revelou uma diferença de escala. As redes que tinham dez vezes mais superfície aquática apresentaram tempos de residência aproximadamente 35 vezes maiores. Nessas mesmas redes, a emissão de carbono em relação à exportação para jusante foi 1,8 vez mais alta. O resultado não significa que os lagos tenham produzido sozinhos todo o carbono observado.

Na soma das emissões, os córregos liberaram mais carbono do que os lagos. A mudança principal ocorreu na proporção: em redes com muitos lagos, uma parcela maior do carbono deixou o sistema pela atmosfera, em vez de continuar sendo transportada pela água.

O verão ampliou a diferença

A estação mais quente e seca produziu o contraste mais acentuado entre emissão atmosférica e exportação rio abaixo. Com menor vazão, a água se desloca mais lentamente. Ao mesmo tempo, temperaturas mais altas podem acelerar as reações biológicas que transformam o carbono orgânico dissolvido. A combinação prolonga a permanência do material e favorece sua conversão em dióxido de carbono.

O padrão associado às redes com maior presença de lagos permaneceu mesmo sob diferentes condições ambientais, inclusive durante um verão considerado excepcionalmente seco. Ainda assim, os autores adotam cautela. O trabalho não mediu diretamente a contribuição de todos os processos envolvidos e não permite separar com precisão quanto do efeito veio da decomposição do carbono orgânico ou de outras diferenças entre redes com muitos e poucos lagos.

Por que a descoberta importa para a Amazônia

A região amazônica reúne uma das maiores redes de águas interiores do planeta, com rios, lagos, igarapés, áreas alagáveis e ambientes conectados ao pulso anual de cheias. O estudo sueco não mediu a Amazônia e não permite transferir seus números diretamente para os rios dos estados amazônicos. A contribuição está em oferecer uma lente para interpretar sistemas em que a água não percorre um trajeto linear nem permanece sempre em movimento rápido.

Na Amazônia, a duração da inundação, a conexão entre canais e lagos e a alternância entre cheia e seca podem ser relevantes para o destino do carbono. Essa é uma implicação de pesquisa, não uma medição apresentada pelo estudo. Para estimar o balanço regional, seria necessário observar as particularidades climáticas, biológicas e hidrológicas de cada bacia, além da influência de sedimentos, vegetação e áreas de várzea.

O ponto central vale para todo o debate climático: contabilizar apenas o carbono que chega a um rio maior pode subestimar o que ocorre antes. Parte pode ser liberada durante o trajeto, parte pode ficar retida em sedimentos e outra parte pode continuar dissolvida até alcançar ambientes costeiros. Lagos também podem armazenar carbono no fundo, criando um destino adicional que não aparece quando a análise considera somente emissão ou transporte.

Uma rede, não compartimentos isolados

Os autores defendem que lagos e córregos sejam analisados como uma rede conectada. A mesma recomendação pode ser estendida a reservatórios, pântanos, planícies de inundação e outros ambientes de água doce. A forma da rede, a área ocupada pelos lagos e o tempo de retenção podem ser tão importantes quanto o volume total de água.

Essa abordagem ganha peso diante do aquecimento do Ártico e das mudanças no regime hidrológico. Alterações na quantidade de água, na duração das secas e na velocidade dos fluxos podem modificar o tempo disponível para que o carbono seja transformado, armazenado ou liberado. O próximo passo indicado pela pesquisa é ampliar medições em diferentes tipos de redes e condições climáticas, incluindo sistemas tropicais que funcionam de maneira distinta dos ambientes suecos.

O estudo foi publicado em 2026 com o título Lakes Amplify Carbon Emissions Relative to Downstream Export in Aquatic Networks, assinado por F. Alriksson e colaboradores. Consulte o artigo científico completo e seus dados metodológicos.

Com informações de Umeå University.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA