Leucismo em primatas da Mata Atlântica cresce 50% em 16 anos

Leucismo em primatas da Mata Atlântica cresce 50% em 16 anos
Foto: share.google

Estudo identifica 23 casos de alteração genética rara em oito espécies, com 12 registros inéditos para a ciência.

Um estudo divulgado neste mês pela revista internacional Studies on Neotropical Fauna and Environment revela crescimento no número de registros de primatas com leucismo nas florestas sul-americanas. Ao todo, 23 indivíduos de oito espécies distintas foram identificados com a alteração genética entre 2008 e 2024, sendo 12 registros inéditos para a ciência. A Mata Atlântica concentra a maior parte dos casos.

“O leucismo é uma característica genética hereditária que é caracterizada pela ausência total ou parcial de pigmentação corporal, uma condição raramente observada em mamíferos. Como resultado, os indivíduos apresentam coloração total ou parcialmente branca, pálida ou amarelada”, explica o pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), Lucas Gonçalves, coordenador do estudo.

Registros inéditos incluem saguis e macacos-aranha

Entre os registros inéditos, destaca-se um sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata), espécie introduzida na Mata Atlântica, observado em Petrópolis (RJ) vivendo em um grupo composto por outros indivíduos de coloração normal. Outro indivíduo da mesma espécie, encontrado em Minas Gerais, foi fotografado carregando filhotes, indicando sucesso reprodutivo apesar da alteração de coloração.

Outro caso inédito é de um macaco-aranha (Ateles hybridus) da Amazônia. A característica genética é controlada por genes recessivos de baixa frequência na natureza e pode indicar endogamia em populações pequenas ou isoladas.

Ciência cidadã acelera descobertas

Os casos foram reunidos a partir de artigos científicos, estudos de campo e registros de ciência cidadã, em que o público em geral faz e compartilha os registros em redes sociais e plataformas abertas como Instagram e iNaturalist.

“O uso disseminado e crescente de telefones móveis que possibilitam efetuar e compartilhar os registros, com data e coordenadas geográficas exatas, tem contribuído para o maior conhecimento de casos de leucismo em primatas e na fauna em geral. Esse esforço colaborativo entre comunidade científica e público em geral é essencial para que possamos compreender os processos que influenciam essa condição em populações silvestres”, ressalta Gonçalves.

Mais da metade dos casos em áreas urbanas

Segundo o estudo, desenvolvido em colaboração com pesquisadores de várias instituições do Brasil e parcerias internacionais com instituições da Colômbia e Estados Unidos, mais da metade dos indivíduos com leucismo foi encontrada em ambientes urbanos ou periurbanos. O dado pode sugerir possíveis relações entre a frequência dessa condição genética nas populações de áreas com maior influência humana.

Os fatores ambientais associados a essas alterações ainda são pouco compreendidos. A fragmentação de habitats, a poluição ambiental, a alimentação dos animais e os eventos de hibridação entre espécies são algumas hipóteses levantadas pelos pesquisadores.

Entenda o caso

O leucismo difere do albinismo porque afeta apenas a pigmentação da pele e pelos, sem comprometer os olhos, que mantêm a coloração normal. A condição é causada por genes recessivos raros, o que torna os registros incomuns na natureza. O aumento de casos documentados pode estar relacionado tanto à maior facilidade de registro por celulares quanto a possíveis alterações nas populações de primatas em áreas fragmentadas.

Perguntas frequentes

O que é leucismo?
É uma alteração genética hereditária que causa ausência total ou parcial de pigmentação corporal, resultando em coloração branca, pálida ou amarelada nos animais.

Qual a diferença entre leucismo e albinismo?
No leucismo, apenas a pele e pelos perdem pigmentação, enquanto os olhos mantêm a cor normal. No albinismo, há ausência total de melanina, incluindo nos olhos.

Animais com leucismo conseguem sobreviver na natureza?
Sim, como demonstrado pelo estudo. Um dos saguis registrados em Minas Gerais foi fotografado carregando filhotes, comprovando sucesso reprodutivo.

Os pesquisadores pretendem ampliar o monitoramento dos primatas identificados para compreender melhor os fatores que influenciam a expressão do leucismo em populações silvestres, especialmente em áreas de maior interferência humana.

Com informações do Instituto Nacional da Mata Atlântica.

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