
Construído por cerca de 60 brigadistas, pesquisadores e servidores públicos, o volume sobre florestas ombrófilas densas é o primeiro de uma série de quatro e chega de graça às brigadas às vésperas de um verão amazônico sob alerta de El Niño forte.
Reprodução do livreto Combate aos Incêndios Florestais na Amazônia · Florestas Ombrófilas Densas (Rede Amazônia Sustentável e Ipam)

Faltando poucos meses para o auge da estiagem na Amazônia, quatro instituições federais de meteorologia colocaram número no que os brigadistas já pressentiam em campo. Em nota técnica conjunta divulgada em junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) estimaram em mais de 95% a probabilidade de um El Niño no segundo semestre de 2026, fenômeno de aquecimento do Pacífico com potencial de intensidade forte a muito forte. Para a floresta, a conta é direta: menos chuva, mais calor e maior risco de incêndio no período mais seco do ano.
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Em 1928, Fordlândia combina água encanada e saneamento com três equipamentos públicos antes de Belém e Santarém oferecerem os mesmos serviçosÉ nesse cenário que chega às mãos das brigadas o livreto Combate aos Incêndios Florestais na Amazônia · Florestas Ombrófilas Densas, uma publicação de utilidade pública lançada para fortalecer quem atua na linha de frente da proteção da maior floresta tropical do planeta. Distribuído gratuitamente, o material transforma anos de experiência de campo em orientação técnica, num momento em que a floresta amazônica, antes praticamente imune ao fogo, arde a cada nova seca extrema.
Um manual escrito por quem enfrenta o fogo

Organizado pela pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e da Rede Amazônia Sustentável (RAS), e por João Victor P. Romano e Waira S. Machida, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o livreto é descrito pelos organizadores como a primeira obra dedicada ao combate a incêndios nas florestas amazônicas. A publicação nasceu de dois workshops participativos, realizados em Brasília e no Baixo Tapajós, em março e abril de 2026, que reuniram cerca de 60 autores entre brigadistas institucionais e voluntários, servidores públicos, pesquisadores e especialistas em Manejo Integrado do Fogo.
A lógica da obra é dar voz a quem enfrenta as chamas. Como afirma a apresentação do livreto, “a cada nova seca extrema, aumenta a área de florestas queimadas na Amazônia; com isso, o papel do brigadista tem se tornado cada vez mais importante”. O volume reúne essa experiência acumulada em anos de combate de nível 1, sempre com o cuidado de frisar que não substitui o Curso de Formação de Brigadista Florestal.
Este é apenas o começo. O livreto sobre florestas ombrófilas densas, as matas fechadas mais comuns da região, é o primeiro de uma série de quatro. Os próximos tratarão das florestas ombrófilas abertas, das florestas degradadas e das florestas alagadas, cada uma com dinâmica de fogo e soluções próprias. Pensada também para uso em treinamentos e no dia a dia das brigadas, a publicação pode ser ouvida em áudio por meio de QR codes espalhados pelas páginas e organiza o conteúdo em blocos de atenção, definição de termos técnicos e orientações práticas para situações de emergência.
A floresta que aprendeu a queimar
Nem sempre foi assim. As florestas ombrófilas densas são matas de copas fechadas, com árvores que alcançam, em média, 30 metros de altura. Nelas, pouca luz solar chega ao chão, a circulação de vento é baixa e a serrapilheira, a camada de folhas, galhos e cascas que cobre o solo, permanece úmida o ano todo. Por décadas, essa umidade tornou os incêndios raros, mesmo em anos de seca extrema.
O que mudou foi o clima. As temperaturas subiram em toda a Amazônia e o ar mais quente passou a puxar mais umidade das plantas e da serrapilheira. As chuvas também recuaram: nos meses de agosto, setembro e outubro, a precipitação no Baixo Tapajós caiu cerca de 34% em relação a 1979, enquanto no norte do Mato Grosso a redução chega a 24%, segundo dados reunidos na publicação. Floresta mais quente e mais seca virou floresta inflamável.
O resultado apareceu com força em 2024. A combinação das mudanças climáticas com uma seca extrema puxada por um El Niño fez com que 6,9 milhões de hectares de floresta queimassem na Amazônia brasileira, de acordo com o MapBiomas Fogo, citado no livreto. É quase quatro vezes a média histórica, de 1,7 milhão de hectares por ano, e a maior área de floresta já queimada na região. O alerta para 2026, com novo El Niño a caminho, é justamente o de evitar a repetição desse quadro.

Chamas baixas, estragos profundos
Nas florestas densas, o fogo tem comportamento próprio. Como há pouca luz e pouco vento sob o dossel, as chamas são baixas, entre 10 e 50 centímetros, e avançam devagar, cerca de 350 metros por dia, queimando a serrapilheira. Muitas vezes o incêndio fica inativo durante a noite e reinicia nas horas mais quentes do dia, a partir de brasas escondidas em troncos e galhos caídos. É um fogo silencioso, difícil de enxergar e ainda mais difícil de apagar por completo.
Apesar de discreto, esse fogo tem impacto enorme. Um incêndio em floresta ombrófila densa mata cerca de metade das árvores de grande porte e até 90% das menores. Com menos árvores, há menos frutos, o que afasta aves e mamíferos que deixam de frequentar a mata; muitos animais morrem diretamente pelas chamas. Alguns estudos citados na obra mostram que, mesmo décadas depois de um incêndio, a floresta queimada não recupera nem sua biodiversidade nem várias de suas funções ecológicas.
As cinco fases do combate
É contra esse inimigo silencioso que atua o brigadista, figura central do livreto. “Os brigadistas são fundamentais para reduzir os danos causados pelos incêndios florestais”, afirma a publicação, lembrando que, em cada operação, eles evitam que uma área ainda maior de floresta seja consumida. O combate é dividido em cinco fases, todas consideradas essenciais: reconhecimento, ataque, controle, extinção e vigilância. Se uma etapa falha, todo o esforço pode ser perdido.
No reconhecimento, a equipe avalia a velocidade e a direção do fogo, a intensidade do vento, o tipo de vegetação e o relevo, muitas vezes com apoio de drones e da experiência de moradores locais, que conhecem trilhas, rios e riscos do território. No ataque, o esquadrão de seis brigadistas abre a chamada linha de defesa, uma faixa de terreno limpo que funciona como barreira ao avanço das chamas.
Como nas florestas densas o fogo é baixo e lento, essa linha pode ser aberta bem perto do incêndio, a cerca de 60 centímetros dos flancos, técnica batizada de Dois Pés, que reduz a área queimada. Cada brigadista tem uma função: dois abrem a linha com facão ou foice, um opera o soprador, um a motosserra, outro a bomba costal e outro registra no aplicativo os pontos de maior risco de reignição.
Depois vêm o controle, quando todo o perímetro está cercado por uma linha de controle, e a extinção, fase em que se apaga o fogo que ainda resta dentro da área. É aqui que aparecem os maiores riscos de o incêndio voltar: troncos e tocos que podem queimar por semanas, focos satélites lançados pelo vento para longe da linha e o fogo subterrâneo, que corre por raízes e turfa sob a superfície, sem chamas visíveis. Por fim, a vigilância. Recomenda-se acompanhar a área de perto por 10 a 15 dias e, em seguida, de forma remota, por imagens de satélite, por cerca de 30 dias. Como resume o livreto, “incêndio controlado não significa incêndio extinto”.

Os riscos que não são o fogo
O combate na Amazônia, porém, vai muito além de enfrentar as chamas. Segundo os brigadistas ouvidos nas oficinas, os maiores riscos muitas vezes não são o fogo em si, mas a fumaça, o encontro com animais peçonhentos, a queda de árvores mortas e o contato com troncos e raízes em brasa. A esses perigos somam-se o isolamento, a falta de internet e de rádio sob as copas, a escassez de equipamentos e de recursos financeiros e a ausência de seguro de vida, plano de saúde e socorrista em campo, além da falta de apoio à saúde mental em combates longos.

Para cada desafio, o livreto reúne soluções propostas pelos próprios brigadistas. Contra a dificuldade de detectar o fogo escondido sob as copas, torres de observação, algumas equipadas com câmeras e inteligência artificial capazes de identificar a fumaça e alertar automaticamente a brigada. Contra a fumaça que cega o reconhecimento, drones com câmeras convencionais e termais, que ajudam a localizar o incêndio e a distinguir a cabeça, os flancos e a retaguarda do fogo.

Para encontrar brasas dentro de troncos ou no subsolo, entram as câmeras termais portáteis, que revelam focos de calor mesmo sem chamas visíveis e já existem em versões mais baratas, acopláveis ao celular. Contra o risco de brigadistas se perderem onde o rádio não funciona, rastreadores por GPS presos às mochilas permitem acompanhar as equipes em tempo real. E, para aliviar o peso nas longas caminhadas, surgiu a ideia de um cabo único que sirva a diferentes cabeças de ferramenta, como enxada, pá e rastelo.
Conhecimento de quem está na linha de frente

O livreto não pretende encerrar o assunto. “Há 40 anos, os incêndios florestais na Amazônia eram extremamente raros”, lembra a conclusão da obra; de lá para cá, o clima mudou e o fogo também. Para os autores, o conhecimento sobre como enfrentá-lo é dinâmico e nasce, sobretudo, da troca entre brigadistas, pesquisadores e instituições. Cada incêndio combatido deixa novos aprendizados, e é dessa soma que surgem as próximas soluções.
Para o leitor da Amazônia, o recado é prático. Com um verão amazônico de seca acentuada no horizonte, a publicação funciona como ferramenta de utilidade pública: quanto mais preparadas as brigadas, menor a área de floresta perdida, menos fumaça sobre as cidades da região e mais chance de manter de pé a maior floresta tropical do planeta, que ajuda a regular o clima e as chuvas de boa parte do continente.

Serviço
Onde baixar. O livreto Combate aos Incêndios Florestais na Amazônia · Florestas Ombrófilas Densas pode ser baixado de graça, em PDF, na página de livretos da Rede Amazônia Sustentável (RAS): ras-network.org/livretos.
O conteúdo também pode ser ouvido em áudio, pelos QR codes distribuídos ao longo das páginas. A RAS mantém ainda o chatbot Curupira, uma inteligência artificial que difunde práticas de prevenção e combate a incêndios pelo WhatsApp.
Matéria publicada originalmente na edição 156 da Revista Amazônia.
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