Microscópio registra elétrons em materiais atômicos e pode acelerar células solares e chips quânticos

Microscópio registra elétrons em materiais atômicos e pode acelerar células solares e chips quânticos
Foto: Divulgação

Técnica desenvolvida na Itália acompanha reações em escala de femtossegundos e revela por que elétrons deixam de circular livremente.

Antes de melhorar uma célula solar ou um componente quântico, é preciso descobrir o que acontece dentro do material quando ele recebe energia. Um microscópio desenvolvido por pesquisadores da Università Cattolica del Sacro Cuore, em Brescia, na Itália, foi criado justamente para acompanhar essa resposta em intervalos de tempo próximos de um milionésimo de bilionésimo de segundo. O resultado, publicado em 5 de outubro de 2026 na revista científica Optica, abre uma possibilidade para localizar imperfeições que reduzem a eficiência de dispositivos tecnológicos.

A novidade não é apenas ampliar uma imagem. O equipamento registra, em sequência, como as propriedades de um material mudam depois que ele é atingido por pulsos ultracurtos de luz. Com isso, os cientistas conseguem observar a evolução dos elétrons em diferentes regiões de uma estrutura microscópica, em vez de analisar somente uma fotografia estática do objeto.

Uma câmera para acompanhar mudanças quase instantâneas

A técnica recebeu o nome de microscopia coerente multidimensional de campo amplo. Em linguagem simples, o sistema envia uma série cuidadosamente planejada de pulsos de laser com características semelhantes para iluminar uma amostra. Cada pulso funciona como parte de uma sequência de observação, permitindo reconstruir o comportamento do material ao longo do tempo.

O desafio está em controlar essa iluminação com precisão suficiente para que a resposta medida não seja confundida com ruído ou com efeitos provocados pelo próprio instrumento. Essa etapa foi desenvolvida em colaboração com a NIREOS, empresa derivada do Politecnico di Milano especializada em soluções de fotônica.

Segundo a Università Cattolica, o microscópio multidimensional foi desenvolvido em 2026 nos laboratórios do ILAMP, em Brescia, para observar como materiais de alta tecnologia respondem à luz em escalas de tempo extremamente curtas.

O teste com uma folha de poucas camadas atômicas

Para verificar o funcionamento do método, a equipe analisou um dispositivo que continha uma fina camada de disseleneto de tungstênio. O material tem apenas algumas camadas atômicas e pertence ao grupo de estruturas bidimensionais que despertam interesse por suas propriedades ópticas e eletrônicas.

A comparação entre diferentes pontos do mesmo microdispositivo mostrou que o comportamento do material não é necessariamente uniforme. Dependendo da posição, as propriedades observadas variavam. Essa diferença ajuda a investigar por que os elétrons, em determinadas regiões, não se deslocam livremente como seria desejável em um componente eletrônico.

O estudo não apresenta uma nova célula solar pronta nem um computador quântico construído com o microscópio. A contribuição está em oferecer uma forma mais detalhada de examinar os mecanismos que limitam o desempenho de materiais usados nesses equipamentos.

Onde a tecnologia pode ser aplicada

Uma das aplicações possíveis é identificar defeitos capazes de atrapalhar o transporte de eletricidade ou a troca de energia dentro de um dispositivo. Esse diagnóstico pode orientar o desenho de células solares mais eficientes, LEDs mais rápidos, sensores e outros componentes eletrônicos.

Microscópio registra elétrons em materiais atômicos e pode acelerar células solares e chips quânticos
Foto: acervo

Em uma célula solar, por exemplo, a energia da luz precisa ser convertida e conduzida sem perdas excessivas. Se uma imperfeição prende elétrons ou dificulta sua movimentação, parte do potencial do dispositivo é desperdiçada. O novo microscópio pode ajudar a localizar o ponto em que esse processo começa a falhar, embora ainda sejam necessários outros estudos para transformar a observação em uma solução industrial.

A mesma abordagem também pode ser combinada a pesquisas sobre sistemas biológicos, incluindo o metabolismo de células cancerígenas. Essa possibilidade aparece em conexão com outras linhas de investigação do centro, como o projeto Q-META, voltado ao estudo de materiais e fenômenos em escala quântica. Mais informações sobre o centro estão disponíveis na página do ILAMP e seus laboratórios de física de materiais avançados.

Da observação ao computador quântico

O trabalho reúne a Università Cattolica, o Politecnico di Milano, a KU Leuven, a University of British Columbia e o CNR. A equipe é coordenada por Claudio Giannetti, professor e diretor do ILAMP, além de reitor da Faculdade de Ciências, Matemática, Física e Ciências Naturais da Università Cattolica.

Uma das metas de longo prazo é entender melhor como observar e controlar propriedades quânticas dos materiais. Os autores consideram que esse conhecimento pode contribuir para sistemas capazes de formar qubits, as unidades básicas de informação dos computadores quânticos.

A hipótese apresentada pelos pesquisadores é que novos materiais e arquiteturas possam, no futuro, operar em temperaturas muito mais altas do que as exigidas pela tecnologia quântica atual e alcançar velocidades até mil vezes superiores. Essa projeção ainda pertence ao campo das possibilidades: o microscópio fornece informação sobre o comportamento dos materiais, mas não comprova sozinho que esses computadores serão desenvolvidos.

Por que isso interessa à Amazônia

Para a Amazônia, a importância potencial está principalmente na cadeia de energia e tecnologia. Células solares mais eficientes podem ser relevantes em locais onde a geração distribuída e sistemas autônomos ajudam a levar eletricidade a áreas distantes das redes convencionais. A região reúne desafios logísticos específicos, e equipamentos que produzam mais energia com a mesma área de captação poderiam, se essa aplicação for confirmada, reduzir exigências de instalação e manutenção.

O vínculo ainda é indireto. A pesquisa foi realizada na Itália e testada em um material de laboratório, sem apresentar um equipamento comercial ou uma aplicação em comunidades amazônicas. Mesmo assim, métodos capazes de revelar perdas microscópicas podem influenciar a próxima geração de painéis, sensores e dispositivos eletrônicos usados em diferentes partes do Brasil, inclusive nos estados da Amazônia.

O que ainda precisa ser demonstrado

O próximo passo científico é verificar se a técnica pode ser aplicada a outros materiais, geometrias e dispositivos, mantendo a precisão necessária para comparar resultados. Também será preciso saber como transformar as imagens e medições em decisões práticas de fabricação, como corrigir defeitos ou selecionar estruturas mais eficientes.

Por enquanto, o resultado representa uma nova ferramenta para estudar materiais ultrafinos e processos eletrônicos muito rápidos. As etapas seguintes devem indicar se ela ficará restrita aos laboratórios de pesquisa ou se poderá chegar ao desenvolvimento de células solares, LEDs, sensores e componentes quânticos mais eficientes.

Com informações de Università Cattolica del Sacro Cuore.

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