
Projeto da Unifap usa armadilhas fotográficas, análises genéticas e relatos de comunidades para investigar uma costa pouco estudada
Em áreas costeiras onde o acesso pode exigir barco, voadeira e caminhadas de mais de 15 quilômetros, pesquisadores instalaram armadilhas fotográficas para procurar onças-pintadas. As câmeras começaram a ser colocadas em setembro em três unidades de conservação do Amapá, entre manguezais, várzeas, igapós, campos inundáveis e zonas de transição. O trabalho pretende registrar quais animais usam esses ambientes e como eles se distribuem em uma parte do estado ainda pouco estudada.
A investigação é conduzida pelo projeto Onças do Amapá, da Universidade Federal do Amapá, e terá duração de três anos. A iniciativa integra o programa Amazônia +10, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. Além das imagens, a equipe pretende reunir dados de biodiversidade, genética e material biológico, criando uma base para orientar medidas de preservação específicas para a costa amapaense.
Três áreas protegidas entram no mapeamento
O levantamento ocorre no Parque Nacional do Cabo Orange, na Estação Ecológica Maracá-Jipioca e na Reserva Biológica do Lago Piratuba. O Cabo Orange foi criado em 1980 e protege manguezais, restingas e ambientes costeiros na região próxima à fronteira com a Guiana Francesa. O acesso costuma partir do município de Oiapoque e pode ser feito por embarcação. Já Maracá-Jipioca é formada por ilhas costeiras e conserva ambientes usados para pesquisas científicas.
A Reserva Biológica do Lago Piratuba tem mais de 350 mil hectares e protege ecossistemas frágeis, além de espécies ameaçadas. Juntas, as três áreas oferecem cenários diferentes para observar a presença da onça-pintada. A escolha não foi feita apenas pela existência de unidades de conservação, mas também pela dificuldade de chegar aos pontos de monitoramento. Para a coordenadora do projeto, a bióloga Fernanda Michalski, estudar esses locais é uma forma de preencher uma lacuna sobre a fauna que ocupa a extensa costa do Amapá.
Câmeras registram os animais sem alterar o habitat
As armadilhas fotográficas são instaladas em árvores e funcionam como observadoras discretas. Em vez de capturar ou conduzir os felinos, o equipamento registra a passagem dos animais no próprio ambiente. As imagens podem ajudar a reconhecer indivíduos, identificar os locais usados pelas onças e acompanhar padrões de atividade ao longo do período de pesquisa. A estratégia permite investigar a espécie em áreas onde a presença humana é limitada pelas marés, pelo clima e pelas distâncias.
O projeto combina as fotografias com análises genéticas e a coleta de material biológico. Também inclui conversas com comunidades ribeirinhas, que mantêm contato cotidiano com os ambientes monitorados e conhecem mudanças nas paisagens e na presença de animais. A proposta é entender a biodiversidade e, ao mesmo tempo, observar como comunidades tradicionais convivem com a onça-pintada. Essa combinação amplia a pesquisa para além do registro visual feito pelas câmeras.
Uma equipe de 17 doutores enfrenta marés e longas caminhadas
Participam do trabalho 17 doutores, dos quais 16 pertencem a instituições brasileiras, incluindo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio. Também integra a equipe um pesquisador da Guiana Francesa. A participação de instituições dos dois lados da fronteira acompanha a posição do Cabo Orange e a continuidade dos ambientes costeiros amazônicos, que não se encerram nas divisões administrativas entre países.
O deslocamento até os locais de monitoramento é uma das etapas mais exigentes. Em alguns pontos, os pesquisadores caminham mais de 15 quilômetros depois de vencer trechos percorridos por barco ou voadeira. Marés, chuvas, clima e terrenos inundáveis interferem na chegada e na instalação dos equipamentos. Essas condições ajudam a explicar por que poucas pessoas estiveram em determinadas áreas e por que ainda existem lacunas sobre a distribuição da onça-pintada nesses ambientes.
Os dados devem orientar a proteção da onça na costa
O resultado esperado é um retrato mais preciso das onças-pintadas que vivem em várzeas, igapós, campos inundáveis, manguezais e áreas de transição do Amapá. A pesquisa também ocorre em uma região que vem sendo analisada diante do potencial de exploração de petróleo. Antes de definir estratégias de preservação, os pesquisadores precisam saber quais animais estão presentes, onde se concentram e que características genéticas existem entre as populações observadas.
Por isso, o banco de material biológico e os registros das câmeras podem se transformar em instrumentos de planejamento para as três unidades de conservação. O estudo não promete apenas uma fotografia da espécie, mas uma base para decisões futuras sobre a fauna costeira. Divulgado em 10 de dezembro de 2025, o projeto mostra que conhecer a floresta amazônica também exige olhar para suas bordas inundáveis, onde a onça-pintada pode circular entre água, mata, campos e manguezais sem deixar sinais fáceis de perceber.
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