×
Próxima ▸
Desmatamento no Brasil cai 20,6% e fica abaixo de 1…

Mineração ilegal avança na Amazônia Equatoriana e cerca guardaparques

Mineração ilegal avança na Amazônia Equatoriana e cerca guardaparques
Ilustração: IA

Áreas protegidas na Amazônia equatoriana enfrentam mineração ilegal de ouro, ameaçando a segurança de guardaparques e a biodiversidade.

A Amazônia equatoriana, antes santuário de biodiversidade e palco para o trabalho de conservação, transformou-se em um foco de conflito e disputa. A mineração ilegal de ouro, impulsionada por grupos criminosos organizados, avança sobre áreas protegidas, colocando em risco a vida de guardaparques e a integridade de ecossistemas preciosos. Ao menos sete das nove áreas protegidas com focos de mineração ilegal identificadas pelo Ministério da Defesa do Equador estão na região amazônica, revelando a magnitude do problema.

Carlos, um guardaparques do Parque Nacional Sumaco Napo-Galeras, no norte da Amazônia equatoriana, que prefere manter sua identidade em sigilo por segurança, relata experiências alarmantes. Seus colegas foram abordados por homens armados que se identificaram como membros de um grupo guerrilheiro e alegaram estar “prestando segurança aos mineradores locais”. Tais encontros resultaram na confiscação de celulares, GPS e câmeras, aprofundando a sensação de vulnerabilidade entre os profissionais da conservação. Segundo o Ministério da Defesa do Equador, os grupos criminosos Los Lobos, Los Choneros, Los Galarza e Los Sao Box estão por trás dessas atividades, capitalizando a extração ilegal de ouro como uma fonte lucrativa.

A escalada da mineração e os impactos na vigilância

A situação piorou significativamente entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, de acordo com Carlos, que atua na região há 15 anos. Ele observa um crescimento “rotundo” nas zonas de amortecimento das áreas protegidas, prevendo a rápida invasão de outras reservas. Para Glenda Ortega, ex-subsecretária de Patrimônio Natural, os crimes ambientais evoluíram de tráfico de fauna e flora para atividades diretamente ligadas a economias criminosas, como a mineração ilegal. A impotência dos guardaparques diante dessa nova realidade é evidente: eles não possuem competência para apreender máquinas pesadas ou enfrentar grupos armados.

No Parque Nacional Podocarpus, lar de mais de 4.000 espécies de plantas e 600 de aves, o avanço da mineração ilegal é alarmante. Um monitoramento da Fundação Ecociencia revelou um crescimento de 125% nas atividades ilegais entre 2023 e 2024, expandindo-se de 22 para 50 hectares. Apesar das intervenções militares, como a destruição de 67 acampamentos clandestinos, os resultados não são duradouros, e a presença de mineradores tornou-se uma constante no interior do parque.

Entenda o caso

A mineração ilegal na Amazônia equatoriana é um problema crônico que se intensificou durante a pandemia de COVID-19, quando a população buscou novas fontes de renda. Grupos criminosos, que antes focavam no narcotráfico, diversificaram suas operações para a exploração de ouro, aproveitando a remota localização das áreas protegidas. Esse cenário gera conflitos diretos com guardaparques, que estão desarmados e sem respaldo suficiente para enfrentar a criminalidade organizada.

Amazonia sob cerco: ameaças e desamparo

O Parque Nacional Sumaco Napo-Galeras, vital para a biodiversidade andina e amazônica, é um dos mais impactados. Em maio de 2024, a mineração ilegal alcançou os limites do parque, com maquinário pesado operando nos rios Punino e Sardinhas. Um ataque a militares em Alto Punino, zona limítrofe, em maio do ano anterior, expôs a presença de Comandos de la Frontera, uma dissidência das FARC, evidenciando a ligação entre a mineração ilegal e grupos armados organizados.

O Parque Nacional Yasuní, reconhecido globalmente por sua megadiversidade, também não está imune. Javier, um guardaparques com seis anos de serviço no Yasuní, relata que os primeiros avisos de mineração ilegal surgiram em 2023 e vêm aumentando. Em 2025, seus colegas foram ameaçados e tiveram seus pertences confiscados após encontrar retroescavadeiras e tanques de combustível dentro da reserva. “Eles avisaram para ter cuidado, para cuidar da vida, pois sabem quem somos”, narra Javier, destacando o ambiente de intimidação diária.

Desproteção institucional e o futuro da conservação

Apesar das denúncias contínuas da Associação de Guardaparques do Equador, a atenção governamental tem sido desviada para a segurança nas cidades, deixando as áreas protegidas em segundo plano. O Ministério do Ambiente e Energia não respondeu a pedidos de informação sobre as medidas de proteção aos guardaparques e de combate à mineração, exacerbando a sensação de abandono. A desproteção levou alguns profissionais a solicitar transferências ou até mesmo a renunciar. Aqueles que permanecem são obrigados a repensar seus patrulhamentos, evitando áreas de risco ou optando por não reportar atividades ilegais por medo de retaliações.

Carlos resume o dilema: “As ameaças cortam nosso nível de ação. Não somos mais autoridade, mas informantes”. A ausência de uma resposta institucional robusta e contínua sugere que a situação tende a se agravar, com consequências irreversíveis para a Amazônia equatoriana e para o legado de conservação que a região tenta preservar.

Perguntas Frequentes

Quais áreas protegidas na Amazônia equatoriana são mais afetadas?

As áreas mais afetadas incluem o Parque Nacional Sumaco Napo-Galeras, Parque Nacional Podocarpus e Parque Nacional Yasuní, entre outras sete identificadas pelo Ministério da Defesa.

Que grupos criminosos estão envolvidos na mineração ilegal?

Os grupos criminosos identificados são Los Lobos, Los Choneros, Los Galarza e Los Sao Box, que diversificaram suas atividades para a extração de ouro.

Como a mineração ilegal impacta os guardaparques?

Guardaparques enfrentam ameaças diretas de homens armados, são alvos de intimidação e são impedidos de realizar seu trabalho de fiscalização, causando desamparo e desmoralização.

Com informações de El País.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA