
Pesquisas sobre reprodução de insetos ajudaram a conter a praga e podem orientar novas respostas diante do reaparecimento nos Estados Unidos.
Uma mosca cujas larvas comem a carne de animais vivos já foi controlada com uma estratégia tão incomum quanto precisa: inundar uma área com machos estéreis. O reaparecimento da mosca-da-bicheira do Novo Mundo, espécie Cochliomyia hominivorax, em estados do sul dos Estados Unidos reacendeu, em agosto de 2026, o debate sobre o valor da pesquisa básica em insetos e sobre como evitar que uma praga volte a causar prejuízos à pecuária.
A avaliação é da entomologista May Berenbaum, professora e chefe do Departamento de Entomologia da University of Illinois Urbana-Champaign. Em material divulgado pela universidade, ela explica que décadas de estudos sobre radiação, reprodução e comportamento da espécie foram fundamentais para desenvolver uma forma de controle que interrompe o ciclo reprodutivo sem o uso contínuo de produtos químicos.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
Um simples tapete de musgo escondia centenas de formas de vida que os olhos não conseguiam enxergar
A Amazônia não precisa apenas de áreas protegidas; ela precisa permanecer conectada, diz pesquisa
“Ele sabe quando a mata muda”: a ciência explica por que essa percepção pode ajudar a monitorar a biodiversidadePor que a mosca é tão perigosa
A mosca-da-bicheira não se comporta como as espécies que apenas depositam ovos em matéria orgânica em decomposição. Suas larvas, conhecidas como bicheiras, consomem o tecido de hospedeiros vivos de sangue quente, principalmente mamíferos e, em alguns casos, aves.
As infestações podem começar em feridas pequenas e evoluir rapidamente. Antes de ser eliminada dos Estados Unidos, onde era nativa de áreas dos estados do sul e do sudeste, a praga provocava perdas de centenas de milhões de dólares na criação de animais, segundo a especialista.
O nome popular, “screwworm”, está relacionado ao modo como as larvas parecem se retorcer para penetrar no tecido vivo. A espécie também é conhecida por afetar animais domésticos, rebanhos e a fauna silvestre, o que torna a vigilância importante em regiões de fronteira e em cadeias de transporte de animais.
Como funcionou o controle com machos estéreis
A chamada técnica do inseto estéril começou a ser desenvolvida há cerca de 60 anos. O método consiste em criar grandes quantidades de insetos em laboratório, esterilizar os machos com radiação e soltá-los em áreas onde a população da praga está presente.
No caso da mosca-da-bicheira, a estratégia funciona por duas características biológicas. Os machos esterilizados continuam capazes de acasalar, mas não geram descendentes. Além disso, as fêmeas da espécie acasalam apenas uma vez durante a vida.
Quando uma fêmea se reproduz com um macho estéril, ela não consegue produzir uma nova geração viável. Com a liberação de um número muito alto desses machos, aumenta a chance de que a maioria das fêmeas tenha contato primeiro com um parceiro incapaz de gerar filhotes.
“Sim, definitivamente”, respondeu May Berenbaum ao ser questionada se o método poderia funcionar novamente. A pesquisadora, porém, ponderou que o controle precisa ser planejado para evitar efeitos indesejados.
O risco de usar controle demais
Uma das lições destacadas pela entomologista é que mais controle nem sempre significa melhor controle. O uso contínuo de técnicas que eliminam uma parcela significativa da população de uma praga pode favorecer, ao longo do tempo, indivíduos resistentes.
Esse processo é conhecido como seleção de resistência. Se os indivíduos menos afetados sobrevivem e se reproduzem, a população pode se tornar mais difícil de controlar. Por isso, a estratégia precisa combinar monitoramento, conhecimento sobre a biologia da espécie e aplicação no momento adequado.
Entenda o caso
A mosca-da-bicheira foi eliminada temporariamente de várias regiões por meio da liberação de machos esterilizados. O método é chamado de controle autocida porque usa a própria biologia da praga para interromper sua reprodução.

Segundo a University of Illinois Urbana-Champaign, o reaparecimento do inseto no sul dos Estados Unidos voltou a chamar atenção para os estudos que sustentaram essa solução. O material divulgado pela instituição não informa, porém, quais estados foram afetados nem apresenta uma estimativa atual de animais atingidos.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A experiência também interessa à Amazônia, onde a pecuária, a criação de animais de pequeno porte e a movimentação de rebanhos convivem com clima quente e úmido. Os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins têm realidades diferentes, mas compartilham a necessidade de vigilância sanitária e de respostas adaptadas às condições locais.
Isso não significa que a espécie esteja presente em todos esses estados. Também não há, no material consultado, indicação de ocorrência recente da mosca-da-bicheira na Amazônia brasileira. A conexão regional está na importância de manter pesquisas sobre insetos, saúde animal, transporte e prevenção de doenças em áreas onde o clima pode favorecer a sobrevivência de pragas.
A técnica do inseto estéril não é uma solução automática para qualquer espécie. Ela depende de estudos detalhados sobre reprodução, comportamento, dispersão e capacidade de sobrevivência. No caso da mosca-da-bicheira, descobertas consideradas básicas, como o efeito da radiação sobre os machos e o acasalamento único das fêmeas, acabaram se tornando ferramentas de grande impacto econômico e ambiental.
Por que a pesquisa básica importa
Para Berenbaum, parte da dificuldade de explicar a importância desse tipo de ciência está no fato de que os resultados nem sempre aparecem imediatamente. Pesquisas sobre reprodução de insetos podem parecer distantes de problemas cotidianos até que uma praga provoque perdas em larga escala.
A própria história da mosca-da-bicheira mostra como o conhecimento acumulado pode ser decisivo quando surge uma crise. A pesquisadora também defende uma comunicação mais próxima entre cientistas e jornalistas para que o público compreenda melhor como descobertas de longo prazo ajudam a responder a emergências.
O texto original da universidade pode ser consultado no material sobre as lições do controle da mosca-da-bicheira.
Segundo a University of Illinois Urbana-Champaign, a técnica do inseto estéril conteve a mosca-da-bicheira ao explorar o acasalamento único das fêmeas e a esterilidade dos machos irradiados. A eficácia de novas ações dependerá do monitoramento das áreas afetadas e das decisões das autoridades sanitárias dos Estados Unidos.
Perguntas frequentes
O que é a mosca-da-bicheira?
É uma mosca parasita cujas larvas se alimentam do tecido de animais vivos. A espécie científica é Cochliomyia hominivorax.
Como funciona a técnica do inseto estéril?
Machos criados em laboratório são esterilizados com radiação e liberados na natureza. Como as fêmeas acasalam uma única vez, o cruzamento com esses machos reduz o nascimento de novas larvas.
A mosca-da-bicheira já voltou à Amazônia?
O material consultado não informa ocorrência recente da espécie na Amazônia brasileira. A região, porém, pode se beneficiar de pesquisas e sistemas de vigilância voltados à saúde animal e ao controle de pragas.
Com informações da University of Illinois Urbana-Champaign.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!















Você precisa fazer login para comentar.