Não haverá um novo normal no clima, e adaptar-se é urgente

Nuvem de tempestade formada pelo calor de incêndios florestais sobre Victoria, na Austrália

Pesquisadores australianos argumentam que o aquecimento global não vai se acomodar em um patamar previsível e que o passado deixou de servir de guia para os extremos. Na Amazônia, as secas recordes de 2023 e 2024 mostram o tamanho da tarefa.

O mundo emitiu em 2025 um recorde de 38,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) com a queima de combustíveis fósseis, alta de 1,1% sobre o ano anterior, segundo o Orçamento Global de Carbono, levantamento anual de uma rede internacional de cientistas divulgado em novembro. O que resta de margem para segurar o aquecimento em 1,5 °C, 170 bilhões de toneladas, equivale a cerca de quatro anos de emissões no ritmo atual. “Com as emissões de CO2 ainda em alta, manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C não é mais plausível”, afirma Pierre Friedlingstein, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que coordena o estudo.

Para três pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, esse quadro exige abandonar uma ideia confortável. Em artigo publicado em 8 de outubro, o engenheiro ambiental James Hopeward e a geógrafa Melissa Nursey-Bray, ambos professores associados, e o diretor do Instituto de Meio Ambiente da universidade, Andrew Lowe, sustentam que é inútil esperar que o clima se acomode em um “novo normal”, expressão que se tornou comum para descrever enchentes, ondas de calor e incêndios cada vez mais severos.

“Ultrapassar o limite de 1,5 °C não é como passar de um estado para outro”, escrevem. Como as emissões ainda não atingiram o pico, haverá mais calor, mais mudança e mais incerteza. Os autores lembram que a Avaliação Nacional de Risco Climático da Austrália, publicada em 2025, descreve futuros muito diferentes a 1,5 °C, 2 °C e 3 °C de aquecimento. “Pensar em qualquer um desses futuros como um novo normal leva a um perigoso mal-entendido sobre o risco futuro”, afirmam.

Na meteorologia, normal tem definição precisa. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) calcula as normais climatológicas como médias de 30 anos, e o período de referência em vigor vai de 1991 a 2020. O clima, explicam os pesquisadores, é a impressão digital estatística do tempo ao longo dessas três décadas, do dia típico aos extremos raros. Para muitos fenômenos, porém, não há séries longas e confiáveis. Por isso, eventos chamados de inéditos às vezes estão dentro da variação natural de antes da era industrial, apenas fora do alcance dos registros. Na avaliação do grupo, a humanidade está deixando o velho normal sem dados suficientes para entender o que fica para trás.

Também não se deve esperar uma mudança gradual e previsível, com dias um pouco mais quentes e secas um pouco mais longas. Segundo os autores, surgirão extremos novos e combinações novas, como a passagem brusca da seca para a enchente e as nuvens de tempestade formadas pelo calor de grandes incêndios florestais, os pirocumulonimbos, fenômenos que eram praticamente desconhecidos poucas décadas atrás.

O sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2021, dá a medida. Um pico de calor que, entre 1850 e 1900, acontecia uma vez a cada 10 anos já ocorre 2,8 vezes mais, com o aquecimento de cerca de 1 °C registrado até agora. A 1,5 °C, passa a ocorrer 4,1 vezes mais; a 2 °C, 5,6 vezes; a 4 °C, 9,4 vezes. Para o calor extremo que vinha uma vez a cada 50 anos, o aumento a 4 °C chega a 39 vezes. As chuvas mais intensas de um dia ficam cerca de 7% mais fortes a cada grau de aquecimento. Em 2024, ano mais quente já registrado, a temperatura média global ficou cerca de 1,55 °C acima do nível pré-industrial, segundo a OMM.

Quantas vezes mais frequentes ficam os eventos extremos que, entre 1850 e 1900, ocorriam uma vez a cada 10 ou 50 anos, conforme o nível de aquecimento global. Os números são as medianas das projeções do sexto relatório de avaliação do IPCC.
Quantas vezes mais frequentes ficam os eventos extremos que, entre 1850 e 1900, ocorriam uma vez a cada 10 ou 50 anos, conforme o nível de aquecimento global. Os números são as medianas das projeções do sexto relatório de avaliação do IPCC.

Diante disso, dizem os pesquisadores de Adelaide, não é mais possível tirar a média de 30 anos de extremos passados e projetá-la para o futuro. O risco, acrescentam, já vinha crescendo mesmo sem a mudança do clima, por causa da expansão de cidades, estradas e lavouras. Uma ressaca costeira dentro da faixa histórica atinge hoje mais pessoas, casas e negócios do que há 50 anos, porque há mais gente morando no litoral. Uma onda de calor, uma seca ou um incêndio florestal encontram habitats mais fragmentados e degradados, o que dificulta a fuga dos animais. Nesse cenário, a mudança climática funciona como multiplicadora de riscos.

Porto flutuante no bairro do Tarumã, em Manaus, durante a seca de 2023. Ao fundo, um banco de areia ocupa o lugar onde antes havia rio.
Porto flutuante no bairro do Tarumã, em Manaus, durante a seca de 2023. Ao fundo, um banco de areia ocupa o lugar onde antes havia rio. Foto: Tiago da Mota e Silva

A Amazônia viveu esse salto em dois anos seguidos. Em outubro de 2023, o rio Negro desceu a 12,70 metros no porto de Manaus, o nível mais baixo da série histórica, segundo boletim do Serviço Geológico do Brasil (SGB). A marca anterior, de 13,63 metros, era de 2010. O recorde durou um ano. Em outubro de 2024, o rio ficou ainda mais baixo, pouco acima dos 12 metros, o menor nível em mais de 120 anos de medições.

No ranking das 10 menores cotas do rio Negro em Manaus publicado pelo SGB em novembro de 2024, quatro são deste século: 2024, 2023, 2010 e 2005.

Imagem do satélite Sentinel-2 de 11 de outubro de 2024 mostra os bancos de areia expostos no rio Negro, na região de Novo Airão e do arquipélago de Anavilhanas, no Amazonas, durante a seca que levou o rio ao menor nível já medido em Manaus.
Imagem do satélite Sentinel-2 de 11 de outubro de 2024 mostra os bancos de areia expostos no rio Negro, na região de Novo Airão e do arquipélago de Anavilhanas, no Amazonas, durante a seca que levou o rio ao menor nível já medido em Manaus. Imagem: União Europeia/Copernicus Sentinel-2

O Brasil tenta responder com planejamento. Em dezembro de 2025, o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) aprovou o Plano Clima, que orienta a política climática do país até 2035. A parte de adaptação reúne a Estratégia Nacional de Adaptação e 16 planos setoriais, entre eles os de cidades, saúde, recursos hídricos, agricultura e pecuária, povos indígenas, oceano e zona costeira e redução e gestão de riscos e desastres, com 312 metas e mais de 800 ações.

Nas cidades, onde vive 80% da população da Amazônia brasileira segundo o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), o trabalho é local. Belém fez em 2024, com apoio do UNDRR, um diagnóstico de resiliência a desastres que deu início ao Plano Municipal de Redução de Riscos de Desastres. Em julho deste ano, representantes de 35 órgãos municipais, estaduais e federais começaram a montar o Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño 2026-2027 e um protocolo de alerta para calor extremo. O plano tem três eixos: mitigação e adaptação, resiliência urbana e infraestrutura, e comunicação e governança. Prevê melhorias na drenagem, monitoramento permanente do tempo e cuidado prioritário com idosos, crianças, gestantes, doentes crônicos, trabalhadores ao ar livre, ribeirinhos e pessoas em situação de rua.

Os pesquisadores australianos rejeitam a escolha entre cortar emissões e se adaptar. “É um erro focar apenas em reduzir emissões ou apenas em se adaptar a um mundo mais quente: precisamos das duas coisas”, escrevem. “A adaptação será mais fácil se limitarmos o aquecimento futuro.” Eles reconhecem o medo, o luto e a raiva que a crise provoca, mas lembram que o Homo sapiens se adapta a ameaças há milênios. A condição, concluem, é largar a ideia de normalidade. “Não podemos mais olhar para o passado para prever o clima futuro. Não sabemos o que está por vir.”

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