
Evento previsto para atingir força sem precedentes coloca em foco a interação entre aquecimento global, secas e extremos climáticos.
Uma faixa do oceano Pacífico pode concentrar calor suficiente para alterar o clima em vários continentes nos próximos meses. O fenômeno é o Super El Niño de 2026, que já registrou recordes diários de temperatura e tem 100% de probabilidade de permanecer em intensidade extrema até dezembro, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA.
A previsão chama atenção não apenas pelo tamanho do El Niño, mas pelo cenário em que ele ocorre. O planeta já atravessa um período de aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. A dúvida dos pesquisadores é como a combinação entre esse aquecimento contínuo e um evento natural de grande escala vai modificar secas, chuvas, ondas de calor e outros riscos.
O calor que começa no oceano e se espalha pelo clima
El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical, especialmente na porção leste do oceano. Essa mudança transfere energia para a atmosfera e desloca padrões de circulação de ventos e umidade. O resultado pode aparecer muito longe da área onde o fenômeno nasceu.
Uma forma simples de entender o processo é imaginar uma fileira de peças de dominó. O aumento da temperatura do mar derruba a primeira peça, alterando a atmosfera sobre o Pacífico. Essa mudança influencia correntes de ar, formação de nuvens e distribuição de chuvas em outras regiões do mundo.
Segundo a NOAA, o El Niño de 2026 tinha 100% de probabilidade de permanecer extremamente forte até dezembro e mais de 80% de chance de manter essa intensidade até fevereiro. O órgão prevê que a temperatura do Pacífico fique 2,7 °C acima da média entre outubro e dezembro. O valor pode superar 3 °C.
Uma marca que pode superar o recorde de 1982 e 1983
Os dados já apontaram um pico de 3,4 °C acima do normal em um dos indicadores usados para acompanhar o fenômeno. Como a NOAA trabalha com médias móveis de três meses, o valor definitivo dependerá da persistência do calor ao longo do período.
Se a previsão se confirmar, a média entre outubro e dezembro ultrapassará o recorde de 2,4 °C registrado durante o El Niño de 1982 e 1983. A comparação precisa ser feita com cuidado: medições, modelos e critérios de acompanhamento evoluíram. Ainda assim, a diferença mostra por que o episódio é tratado como excepcional.
O impacto não depende apenas de o fenômeno superar ou não uma marca histórica. Mesmo que o aquecimento específico do Pacífico tenha origem natural, ele acontece sobre um sistema climático que já acumulou calor. O mesmo empurrão atmosférico pode produzir consequências diferentes em um mundo mais quente.
O aquecimento global está tornando o El Niño mais forte?
A resposta ainda não é definitiva. Modelos climáticos indicam que a intensidade do El Niño tende a aumentar à medida que a temperatura média do planeta sobe. Ao mesmo tempo, muitos modelos têm dificuldade para reproduzir com precisão as tendências de longo prazo no Pacífico tropical leste, justamente uma das áreas mais importantes para o fenômeno.
Pesquisas com registros de corais antigos acrescentam uma perspectiva de mil anos. Um estudo publicado em agosto encontrou aumento na amplitude do El Niño em um período que coincide com o crescimento das emissões humanas de gases de efeito estufa. Os autores, porém, não tentaram atribuir diretamente essa mudança às alterações climáticas provocadas pelo ser humano.
Para Francisco Estrada, coordenador do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas da Universidade Nacional Autônoma do México, não faz sentido tratar o problema como uma escolha entre um El Niño natural e outro causado pelo aquecimento global. Os dois processos podem interagir, modificando a intensidade e a distribuição dos efeitos.
“Você não pode separar o El Niño do aquecimento global, eles estão intrinsecamente ligados”, afirmou Estrada.
Por que a Amazônia entra no centro do risco
Uma das conexões climáticas mais conhecidas do El Niño é o aumento da probabilidade de seca na Amazônia. Isso ocorre porque a alteração na circulação atmosférica pode reduzir a entrada e a distribuição de umidade sobre partes da bacia. O efeito não é idêntico em todos os anos nem se manifesta da mesma maneira em todos os locais.
Para os estados amazônicos, a combinação é especialmente importante. Menos chuva pode afetar rios usados no transporte, abastecimento de comunidades, pesca, agricultura e geração de energia. Em áreas de floresta, períodos secos também podem deixar a vegetação mais vulnerável ao fogo. Esses impactos dependem da duração do evento, da distribuição regional das chuvas e das condições anteriores do solo e dos rios.
O ponto central é que o El Niño não substitui os efeitos do aquecimento global. Ele se soma a eles. Uma seca associada ao fenômeno pode começar em um ambiente cuja temperatura já está mais alta, elevando a evaporação e pressionando ecossistemas e populações que dependem diretamente dos ciclos da água.
O risco vai além da temperatura do Pacífico
As chamadas teleconexões, nome dado às relações entre uma alteração climática em uma região e seus efeitos distantes, também atingem outras áreas. O El Niño costuma aumentar a chance de chuvas no sudoeste dos Estados Unidos e reduzir a probabilidade de furacões no Atlântico. Um episódio extremo pode intensificar parte dessas conexões, mas os padrões históricos não são mais suficientes para prever tudo com a mesma segurança.
“Já não podemos depositar tanta confiança no conhecimento reunido a partir dos dados sobre como o El Niño se manifesta no tempo e no clima em diferentes partes do planeta”, disse Estrada.
O evento também afeta os oceanos. Pescadores do Pacífico leste relatam redes mais vazias porque algumas espécies migram para águas mais profundas. Recifes de coral enfrentam risco de branqueamento em massa, processo causado pelo estresse térmico que leva os corais a expulsar as algas que vivem em seus tecidos.
O que os cientistas querem descobrir agora
A questão mais importante não é apenas saber se o Super El Niño de 2026 será o mais intenso já observado. Pesquisadores querem entender se a presença de um oceano excepcionalmente quente em um planeta aquecido produzirá impactos maiores, mais rápidos ou diferentes dos registrados no passado.
Eventos extremos de El Niño já foram associados a perdas de trilhões de dólares no Produto Interno Bruto global. Por isso, organismos internacionais defendem medidas de adaptação para proteger populações vulneráveis e ecossistemas. A Califórnia, nos Estados Unidos, declarou estado de emergência preventivamente no mês anterior.
O acompanhamento dos próximos meses deverá fornecer uma nova referência para os modelos climáticos e para o planejamento de cidades, comunidades ribeirinhas, produtores rurais e gestores de recursos hídricos na Amazônia. A intensidade prevista será reavaliada nas atualizações sazonais da NOAA durante o verão do Hemisfério Norte.
Com informações de WIRED.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














