Natureza tem menos reserva do que se pensava para perder espécies

Recife de coral com peixes no Atol Rose, Samoa Americana

Maior análise já feita sobre biodiversidade e serviços dos ecossistemas, com 423 estudos, mostra que a maioria dos benefícios da natureza continua crescendo com o número de espécies. A captura de carbono no oceano é a mais sensível às perdas.

Perder uma espécie aqui e outra ali custa mais caro do que a ecologia costumava admitir. Uma análise de 423 estudos e 222.829 pontos de dados, publicada em 6 de outubro na revista Nature Ecology & Evolution, concluiu que a maior parte dos benefícios que os ecossistemas oferecem às pessoas, da produção de alimentos ao sequestro de carbono, continua aumentando à medida que cresce a biodiversidade. Para os autores, isso indica que a chamada redundância funcional, a ideia de que uma espécie pode substituir outra sem prejuízo, vem sendo superestimada.

O trabalho foi liderado pela geógrafa Emma Moffett, professora do Departamento de Geografia do King’s College London e pesquisadora do Centro Georgina Mace para o Planeta Vivo, do Imperial College London, ambos no Reino Unido. Assinam o estudo outros nove cientistas, entre eles William Pearse, professor associado de ecologia evolutiva do Imperial College, e Andy Purvis, do Museu de História Natural de Londres.

“Nossos resultados desafiam a suposição confortável de que os ecossistemas têm reserva de sobra, de modo que perder uma espécie aqui e outra ali não muda muito”, afirma Moffett. “Na maioria dos benefícios que analisamos, os dados não sustentam essa ideia. Os benefícios ecológicos continuam subindo à medida que a diversidade aumenta, o que significa que eles caem à medida que perdemos espécies.”

Locais dos estudos reunidos na nova base de dados, por tipo de ecossistema. A maioria é terrestre e fica em países desenvolvidos; a Amazônia e o restante da América do Sul aparecem com poucos pontos.
Locais dos estudos reunidos na nova base de dados, por tipo de ecossistema. A maioria é terrestre e fica em países desenvolvidos; a Amazônia e o restante da América do Sul aparecem com poucos pontos. Imagem: Moffett et al. (2026), Nature Ecology & Evolution

A equipe partiu de uma busca que retornou 312.291 publicações na base Web of Science, selecionou 4.875 artigos para leitura e, depois de filtrar os que de fato relacionavam biodiversidade a funções ou serviços dos ecossistemas, chegou a 1.959 conjuntos de dados extraídos de 423 estudos. Segundo os autores, a base é mais de duas vezes maior que a maior compilação anterior sobre o tema. Ela reúne experimentos e observações de campo em ambientes terrestres, de água doce, marinhos e de estuários, organizados em 23 categorias de serviços e funções, seguindo a classificação da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

Os pesquisadores testaram dois tipos de curva. Se a relação entre espécies e benefício se estabiliza rapidamente, poucas espécies bastam e as demais seriam reserva. Se ela é linear, cada espécie a mais conta. As relações lineares apareceram em quase metade das categorias, como qualidade da água, polinização e proteção contra desastres. Nas curvas que tendem à estabilização, o ponto de saturação raramente foi alcançado dentro das faixas de diversidade observadas nos estudos. Nas relações que de fato se estabilizam, o platô ficou, em mediana, em torno de quatro espécies em água doce, 14 em terra e 23 no mar.

Para comparar categorias com formas diferentes, a equipe calculou um tamanho de efeito padronizado para cada conjunto de dados. O resultado foi positivo para a maioria dos serviços, mas com intensidades muito distintas. No topo ficou o sequestro de carbono no oceano, com efeito de 1,48, classificado pelos autores como muito forte. Na outra ponta, a regulação da qualidade do ar ficou praticamente em zero.

Resposta média de 23 serviços e funções dos ecossistemas ao aumento da biodiversidade. A captura de carbono no oceano tem o maior efeito, mas se apoia em apenas sete conjuntos de dados. A proteção contra enchentes e eventos extremos quase não varia com o número de espécies, porque depende de poucas espécies-chave.
Resposta média de 23 serviços e funções dos ecossistemas ao aumento da biodiversidade. A captura de carbono no oceano tem o maior efeito, mas se apoia em apenas sete conjuntos de dados. A proteção contra enchentes e eventos extremos quase não varia com o número de espécies, porque depende de poucas espécies-chave. Imagem: Moffett et al. (2026), Nature Ecology & Evolution

A sensibilidade do carbono marinho, segundo o artigo, pode refletir o controle biológico do ciclo do carbono no mar: a produtividade do fitoplâncton, a teia de micro-organismos e a chamada bomba biológica, que transporta carbono da superfície para águas profundas, dependem da composição e da estrutura das comunidades. Os autores alertam, porém, que o dado se apoia em apenas sete conjuntos de dados, contra 154 para o carbono em ambientes terrestres, e apontam a lacuna como urgente.

Florescimento de fitoplâncton no Atlântico, a oeste da Irlanda, registrado por satélite da NASA em 2 de junho de 2006. Essas algas microscópicas estão na base da bomba biológica que leva carbono da superfície para o fundo do mar.
Florescimento de fitoplâncton no Atlântico, a oeste da Irlanda, registrado por satélite da NASA em 2 de junho de 2006. Essas algas microscópicas estão na base da bomba biológica que leva carbono da superfície para o fundo do mar. Imagem: NASA/Jeff Schmaltz

“O resultado do oceano nos fez parar”, diz Moffett. “A captura de carbono no mar respondeu à biodiversidade com mais força do que qualquer outra coisa que medimos, e mesmo assim é uma das áreas menos estudadas que encontramos. Se o mundo conta com o carbono azul para ajudar a enfrentar a mudança climática, a vida marinha não pode ficar em segundo plano.” Carbono azul é o nome dado ao carbono capturado e estocado por oceanos e ecossistemas costeiros, como recifes, marismas e manguezais. Para o grupo, estratégias baseadas nesses estoques precisam ir além da preservação de hábitats e incluir a diversidade de espécies como componente central.

O tema tem peso no litoral paraense. Um estudo liderado pelo pesquisador J. Boone Kauffman, publicado em 2018 na revista Biology Letters, mediu o carbono de nove manguezais a leste da foz do Amazonas, perto de Bragança, Salinópolis e São Caetano de Odivelas. Os estoques variaram de 361 a 746 toneladas de carbono por hectare, mais que o dobro das florestas de terra firme da Amazônia e quase dez vezes o das florestas tropicais secas. O Brasil tem cerca de 1,07 milhão de hectares de mangue, e aproximadamente 85% deles estão na costa norte, segundo o mesmo trabalho.

Nem todo serviço segue a regra. A proteção contra enchentes, erosão e outros eventos extremos mostrou pouca sensibilidade ao número total de espécies. A explicação dos autores é que esse serviço costuma depender de uma ou duas espécies fundadoras, como os arbustos que fixam dunas de areia e formam barreira natural contra o avanço do mar. Mesmo nesses casos, o artigo ressalta que a biodiversidade ao redor ajuda a manter as condições para que essas espécies sobrevivam. A conclusão é que a conservação precisa equilibrar a diversidade geral com a proteção de espécies insubstituíveis.

A base de dados também revela um desequilíbrio geográfico. A maior parte dos estudos foi feita em ecossistemas terrestres e em países desenvolvidos, com destaque para a Europa, em especial a Alemanha, sede de grandes experimentos de campo. Regiões decisivas para a produção mundial de alimentos, como a América do Sul e a África, estão sub-representadas, reconhecem os autores.

Projeção da razão entre inimigos naturais e pragas agrícolas em dois cenários do IPCC. Tons escuros indicam menos controle natural de pragas. No cenário de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis (abaixo), a perda se intensifica em partes da América do Sul, da América do Norte e da Ásia.
Projeção da razão entre inimigos naturais e pragas agrícolas em dois cenários do IPCC. Tons escuros indicam menos controle natural de pragas. No cenário de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis (abaixo), a perda se intensifica em partes da América do Sul, da América do Norte e da Ásia. Imagem: Moffett et al. (2026), Nature Ecology & Evolution

Para contornar essa lacuna, a equipe cruzou os dados com projeções do Índice de Integridade da Biodiversidade sob os cenários socioeconômicos usados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O teste foi feito com o controle biológico de pragas agrícolas, medido pela razão entre os inimigos naturais das pragas e as próprias pragas das lavouras.

O modelo compara um cenário intermediário, que mantém as tendências atuais, com outro de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis e exploração intensiva de recursos. No segundo, o controle natural de pragas diminui na América do Norte, na América do Sul e na Ásia, enquanto Australásia e África mostram diferenças menores. As perdas mais fortes se concentram em países com crescimento populacional rápido e baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), justamente os que mais dependem dos serviços da natureza ao redor. Os autores reconhecem um limite: as projeções não indicam quais espécies desaparecem, e se as mais vulneráveis forem também as mais importantes, o impacto pode ser diferente.

“Sabemos que a biodiversidade sustenta a humanidade ao nos fornecer comida, água limpa, ar limpo e tantos outros serviços ecossistêmicos”, afirma Pearse. “Mas o que este modelo nos dá é um retrato preciso e global: agora podemos prever os benefícios que a biodiversidade oferece em qualquer lugar, o que torna ainda mais fácil reconhecer esses benefícios e aproveitá-los.” A base completa e as projeções para os 23 serviços e funções estão disponíveis publicamente, para apoiar políticas e planejamento.

Joaninha sobre um cardo coberto de pulgões, na Normandia (França). Inimigos naturais como este fazem de graça o controle de pragas nas lavouras, serviço que o estudo projeta em queda num futuro movido a combustíveis fósseis.
Joaninha sobre um cardo coberto de pulgões, na Normandia (França). Inimigos naturais como este fazem de graça o controle de pragas nas lavouras, serviço que o estudo projeta em queda num futuro movido a combustíveis fósseis.

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