
Se a datação for confirmada, o barco de Kekova passa a ser o naufrágio mais antigo já identificado, e pode mudar o que se sabe sobre o comércio na Idade do Bronze.
Uma pilha de jarros de cerâmica no fundo do Mediterrâneo, a cerca de 30 metros de profundidade, pode ser o que resta do naufrágio mais antigo já identificado. Arqueólogos turcos estudam o sítio perto da ilha de Kekova, na província de Antalya, onde há mais de 30 jarros de armazenamento e três âncoras de pedra. A cerâmica indica que o barco afundou entre 4.400 e 4.700 anos atrás, na Idade do Bronze Antiga.
Do navio em si, não sobrou madeira. A datação, portanto, vem de comparações e não de laboratório.
Uma data que vem do formato dos jarros
Sem casco ou tábuas preservados, a datação por radiocarbono não é possível. Os pesquisadores compararam a forma e a decoração dos jarros com peças de outros sítios arqueológicos, método comum quando a madeira desapareceu.
É uma estimativa por semelhança estilística, e isso explica por que o achado é descrito como o que “pode” ser o mais antigo, e não como recorde encerrado.
O barco teria cerca de 10 metros de comprimento e servia para transportar mercadorias pelo Mediterrâneo.

Do mapeamento de 2024 à escavação deste ano
O sítio foi documentado pela primeira vez em 2024, durante um levantamento subaquático da Universidade Akdeniz. Um jarro foi retirado para exame naquele ano e outro em 2025. As escavações ampliadas começaram em 2026, sob a Direção do Museu de Antalya.
Segundo o Ministério da Cultura e Turismo da Turquia, em anúncio feito pelo ministro Mehmet Nuri Ersoy numa quarta-feira de outubro de 2026, o trabalho continua e o material está em conservação e análise científica.
Um estudo preliminar publicado em julho no Journal of Maritime Archaeology, de Hakan Oniz e Ceyda Oztosun, sugere que a embarcação seguia de leste para oeste quando afundou. O mesmo texto ressalva que as três âncoras encontradas na área ainda não foram ligadas de forma conclusiva ao navio.
O recorde anterior fica em outra ilha grega
O naufrágio mais antigo conhecido até agora foi descoberto em 1975 perto da ilha grega de Dokos. O Instituto Helênico de Arqueologia Marinha data a carga de cerâmica de cerca de 2200 a.C., posterior às datas propostas para Kekova.
A costa turca já havia entregado outro marco da navegação antiga: o naufrágio de Uluburun, de cerca de 1300 a.C., que levava cobre, estanho, vidro e outras mercadorias. Kekova seria, se confirmado, mais antigo por mais de um milênio.

Jarros do Vale do Jordão, destino possível em Troia ou Creta
Para Ersoy, análises de argila indicam que as ânforas foram provavelmente produzidas em oficinas do Vale do Jordão. Vasos semelhantes aparecem perto das pirâmides de Gizé, Sacara e Abusir, no Egito, além de Troia e da ilha de Creta.
Os arqueólogos acreditam que o navio tenha saído de um porto da costa do Levante e rumasse para Troia ou Creta. Segundo o ministro, o achado pode servir de evidência das ligações comerciais entre Levante, Egito e Anatólia no período.
O que havia dentro dos jarros
Alguns jarros trazem resíduos que podem indicar a carga. Karin Sowada, arqueóloga da Universidade Macquarie, na Austrália, que examinou o material, disse à BBC ter se surpreendido com a quantidade preservada. Parte das peças estava intacta e continha um resíduo brilhante e viscoso.
As análises tentam descobrir se os recipientes carregavam azeite, vinho, resinas de árvores ou outros produtos. Sowada observa que os jarros podem ter sido esvaziados e reutilizados, de modo que o material pode vir de mais de um uso.
Outro jarro, marcado com nove símbolos e com dois furos no corpo, pode ter tido função diferente. Ersoy sugeriu que serviria de batedeira para fazer queijo ou manteiga, o que indicaria que os tripulantes produziam parte do próprio alimento em viagens longas.
O que isso diz a quem vive na Amazônia
A história da navegação não se resume ao Mediterrâneo. Rios como o Amazonas, o Tapajós e o Madeira também foram rotas de troca muito antes da chegada dos europeus, e a cerâmica é, também aqui, a principal pista dos arqueólogos para reconstruir contatos entre povos. O caso de Kekova mostra como fragmentos de barro, mesmo sem madeira ou texto, podem revelar rotas e relações.
As peças recuperadas passam por conservação e novos exames. Ersoy afirmou que serão exibidas no planejado Museu de Arqueologia Subaquática do Mediterrâneo, em Antalya, e as análises dos resíduos devem dizer o que o barco levava.
Com informações de Ministério da Cultura e Turismo da Turquia.
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