Pegadas de 23 mil anos em lago que secava no Novo México mostram humanos da Era do Gelo em meio a secas e mudanças bruscas de clima

Pegadas de 23 mil anos em lago que secava no Novo México mostram humanos da Era do Gelo em meio a secas e mudanças bruscas de clima
Foto: Matthew Robert Bennett

Nova análise de 20 camadas de sedimento em White Sands revela o ambiente que os primeiros americanos enfrentaram e alerta contra leituras simples das pegadas.

Um lago que encolhia, florestas de coníferas cedendo espaço a carvalhos e arbustos e uma seca severa e curta: foi nesse cenário instável que pessoas caminharam pela lama às margens de um antigo lago, onde hoje fica o Parque Nacional White Sands, no Novo México, Estados Unidos. Há cerca de 23 mil anos, no auge da última era glacial, deixaram pegadas que agora ajudam a reconstruir o clima que enfrentaram, segundo pesquisadores das universidades de Bournemouth e de Reading, no Reino Unido.

O trabalho é assinado por Matthew Robert Bennett e Sally Christine Reynolds, ambos da Bournemouth University, e foi publicado como artigo de análise no The Conversation. Eles já haviam divulgado, em 2021, as primeiras datações das pegadas, que na época geraram controvérsia por colocar pessoas na América do Norte milhares de anos antes de outros sítios amplamente aceitos.

Vinte camadas, quase dois mil anos

As escavações ampliadas identificaram 20 horizontes, ou pacotes de sedimento, com pegadas humanas. Juntos, cobrem cerca de 23.500 a 21.700 anos atrás, dentro do chamado último máximo glacial, o ponto mais intenso da última era do gelo.

Trabalhos posteriores, com várias técnicas de datação independentes, reforçaram essa cronologia. A pesquisa mais recente, publicada na Science Advances, dá um passo adiante: em vez de perguntar apenas quando houve gente ali, pergunta em que tipo de mundo essas pessoas viviam.

Pegadas de 23 mil anos em lago que secava no Novo México mostram humanos da Era do Gelo em meio a secas e mudanças bruscas de clima
Foto: Matthew Robert Bennett

Como o clima foi reconstruído

O método combina pegadas e arquivos ambientais. O pólen preservado indica a vegetação que crescia ao redor da bacia. Moléculas orgânicas guardadas no sedimento, entre elas ceras produzidas por folhas de plantas, informam sobre temperatura e chuva.

No início do registro, um grande corpo d’água, o Lago Otero, ocupava boa parte da bacia. As montanhas vizinhas tinham florestas de coníferas, e a temperatura média anual era cerca de 4 °C mais baixa que a atual.

Esse quadro mudou. A partir de cerca de 23.600 anos atrás, o lago começou a encolher, as temperaturas subiram, a floresta de coníferas recuou e deu lugar a carvalhos e artemísia. Com mais evaporação, a bacia ficou cada vez mais seca.

Uma seca curta e severa, com gente por perto

Sobre essa tendência de longo prazo havia oscilações mais bruscas. Segundo os pesquisadores, por volta de 23.200 anos atrás White Sands passou por uma seca breve e intensa: a chuva diminuiu, o lago ficou mais salgado e a vegetação resistente à secura se expandiu. O episódio coincide com uma mudança climática rápida registrada em testemunhos de gelo da Groenlândia, a milhares de quilômetros dali.

Pegadas de 23 mil anos em lago que secava no Novo México mostram humanos da Era do Gelo em meio a secas e mudanças bruscas de clima
Foto: Matthew Robert Bennett

E havia pessoas. A camada de pegadas mais antiga da sequência ampliada ocorre justamente perto dessa transição, e outras aparecem em intervalos enquanto o lago recuava. Para os autores, isso mostra que as pessoas visitaram a paisagem repetidamente em meio a mudanças ambientais substanciais, em escalas de tempo que podiam ser percebidas por quem vivia ali.

O que as pegadas não provam

É tentador concluir que os grupos eram atraídos pelo local nos momentos difíceis, quando a redução do lago talvez concentrasse animais, plantas e outros recursos. Os autores admitem que talvez seja o caso, mas lembram que a preservação de pegadas não retrata tudo o que aconteceu.

Em outro estudo recente, a equipe usou um modelo computacional baseado em agentes para testar o que um registro como o de White Sands realmente representa. Nesse tipo de modelo, não se tenta prever algo como o tempo de amanhã. Cria-se um mundo simplificado com “agentes” individuais que seguem regras básicas, e padrões complexos surgem do comportamento coletivo.

No mundo virtual, pessoas circulavam em torno de um lago de nível variável e deixavam pegadas ao cruzar a lama. As marcas sumiam, a menos que a mudança no nível da água criasse condições para enterrá-las e conservá-las.

Pegadas de 23 mil anos em lago que secava no Novo México mostram humanos da Era do Gelo em meio a secas e mudanças bruscas de clima
Foto: Matthew Robert Bennett

Presença e preservação são coisas diferentes

O resultado mostrou que pessoas podiam estar ativas junto ao lago sem deixar praticamente nenhum registro fóssil. Em outros momentos, poucas pessoas podiam produzir muitas pegadas preservadas. O que contava era se a presença coincidia com as circunstâncias geológicas certas.

A preservação era especialmente provável em transições ambientais: um período seco expõe grandes áreas de lama, e uma fase posterior de umidade e sedimentação enterra as marcas. Ao comparar o modelo com o registro real, os pesquisadores viram que as superfícies com pegadas aparecem em pulsos irregulares, agrupados em torno de mudanças climáticas e hidrológicas, o padrão previsto pelo modelo.

Por isso, dizem, as lacunas entre camadas não provam ausência humana, e uma superfície repleta de marcas não indica necessariamente aumento populacional. Um punhado de pessoas atravessando repetidamente solo mole pode deixar centenas de pegadas. Nas palavras dos autores, as pegadas são “snapshots, not a movie”, ou seja, instantâneos, não um filme.

O que isso significa para quem estuda a Amazônia

O estudo não trata da Amazônia, mas a discussão metodológica dialoga com a região. Sítios arqueológicos amazônicos também dependem de condições de preservação, e a ausência de vestígios em determinada época nem sempre indica ausência de gente. A lição de White Sands, de que o registro material é filtrado por processos naturais, vale para qualquer debate sobre o povoamento das Américas.

Segundo Bennett e Reynolds, em artigo divulgado em outubro de 2026, as pegadas de White Sands mostram que pessoas estiveram presentes em momentos específicos, ao longo de quase dois milênios, enquanto o clima regional oscilava entre condições mais úmidas e excepcionalmente secas. Há duas histórias entrelaçadas: a humana e a geológica, que decide quais fragmentos dessas vidas chegaram até nós. O próximo desafio, indicado pelo projeto sobre o povoamento da Bacia de Tularosa, é separar uma da outra com novas escavações e datações.

Com informações de Bournemouth University e University of Reading.

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