
Modelo climático indica que cristais deixados no gelo marinho tropical refletiam mais luz e reforçavam o resfriamento global.
Quando o gelo começou a avançar sobre os oceanos da Terra, há cerca de 700 milhões de anos, o planeta pode ter ganhado uma camada extra de proteção contra a luz solar. Não era neve, mas sal cristalizado sobre o gelo marinho. Um modelo climático desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Tromsø, na Noruega, indica que esses depósitos refletiam até 93% da radiação recebida e ajudavam a empurrar o clima para um congelamento ainda mais intenso durante os episódios conhecidos como Terra bola de neve.
O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Climate of the Past. A proposta não substitui as explicações já existentes para o início da grande glaciação. Ela acrescenta um mecanismo capaz de reforçar o frio depois que extensas áreas de gelo já haviam se formado.
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A água do mar não congela de maneira uniforme. Quando o gelo se forma, boa parte dos sais dissolvidos permanece concentrada na água líquida presa entre os cristais. Com a queda contínua da temperatura, alguns desses sais podem precipitar e formar cristais.
Em áreas muito frias, o gelo marinho também pode passar diretamente do estado sólido para o vapor, em um processo chamado sublimação. A água desaparece, mas o sal permanece na superfície. Ao longo do tempo, essa combinação poderia produzir uma fina cobertura cristalina sobre o gelo exposto.
Esse detalhe altera o balanço de energia do planeta. Experimentos anteriores indicaram que uma crosta de sal sobre gelo marinho muito frio pode refletir aproximadamente 93% da luz solar. A neve fresca, usada como comparação, reflete cerca de 83%. Já o gelo marinho descoberto e em processo de derretimento reflete perto de 67%.
Como a superfície branca ampliava o resfriamento
A capacidade de uma superfície refletir radiação é chamada de albedo. Quanto maior o albedo, menor a quantidade de energia absorvida. Assim, uma camada de sal mais clara poderia reduzir o aquecimento do gelo e favorecer temperaturas ainda menores.
O processo criaria um ciclo de retroalimentação. O frio intensificaria a formação de cristais, os cristais deixariam o gelo mais refletivo e a menor absorção de luz produziria mais resfriamento. Os autores chamaram esse mecanismo de retroalimentação salbedo, uma referência à participação do sal no albedo da superfície congelada.
Segundo Samuelsberg e colaboradores, cristais de diferentes sais poderiam começar a se formar em temperaturas entre aproximadamente menos 8 °C e menos 23 °C. O efeito climático analisado no modelo poderia aparecer antes de a água do mar congelar quase completamente, situação estimada em torno de menos 36 °C.
Dois estados possíveis para o mesmo planeta
Para testar a hipótese, os pesquisadores incluíram depósitos de sal em um modelo climático simplificado. A simulação considerou uma faixa de gelo marinho descoberto nos trópicos, onde a evaporação poderia superar a queda de neve. A circulação atmosférica levaria parte do vapor para outras regiões, deixando o gelo exposto e favorecendo a sublimação.
O resultado foi a existência de dois estados climáticos estáveis. Em um deles, o gelo não tinha depósitos significativos de sal. No outro, a superfície tropical ficava coberta pelos cristais e alcançava temperaturas substancialmente mais baixas.
Na simulação, uma transição iniciada em um clima quente e sem gelo tendia a levar diretamente ao estado mais frio, coberto por sal. O planeta não apenas congelava. Ele passava a ter mais dificuldade para interromper o processo.
Por que o degelo também ficaria mais difícil
O dióxido de carbono teria de se acumular em uma concentração muito maior na atmosfera para iniciar o derretimento do gelo no cenário com sal. Como o gás intensifica o efeito estufa, sua elevação gradual poderia aquecer a superfície, mas a camada cristalina diminuiria a energia solar absorvida e aumentaria a resistência do planeta ao degelo.
Esse resultado ajuda a explicar por que os episódios de Terra bola de neve são tratados como mudanças climáticas de grande escala, e não apenas como períodos comuns de glaciação. A hipótese mais conhecida já atribuía um papel importante ao gelo: ao substituir oceanos escuros por superfícies claras, ele refletiria mais luz e aceleraria o resfriamento. O sal acrescentaria uma segunda etapa a esse ciclo.
O que ainda pode mudar a conclusão
A pesquisa não demonstra que o sal tenha provocado sozinho o congelamento global. A origem do primeiro gatilho que teria levado a Terra ao estado de Snowball Earth continua em aberto. O trabalho também depende de uma representação simplificada do sistema climático.
O modelo não incluiu, por exemplo, o deslocamento do gelo marinho. Grandes blocos formados pela neve poderiam se mover em direção aos trópicos e diluir o gelo marinho mais salino. Nuvens poderiam bloquear a luz que chegaria aos cristais. Poeira e ventos também poderiam cobrir ou redistribuir o sal, reduzindo sua capacidade de refletir radiação.
Por isso, a conclusão atual é proporcional ao alcance da simulação: o sal aparece como um reforço possível para o congelamento, não como uma explicação completa. Os próximos modelos deverão testar se a retroalimentação continua forte quando o movimento do gelo, as nuvens e os ventos entram nos cálculos.
O que essa hipótese significa para a Amazônia
O estudo não descreve uma mudança observada hoje na Amazônia nem prevê o congelamento da região. Seu valor para os estados amazônicos está em outro ponto: mostrar como pequenas alterações na superfície podem modificar o balanço de energia em escala planetária.
O mecanismo analisado envolve gelo marinho e condições que não existem atualmente na floresta amazônica. Ainda assim, a lógica do albedo é usada em pesquisas sobre neve, gelo, nuvens, oceanos e superfícies terrestres. Compreender essas interações é importante para modelos que calculam como o clima global influencia a circulação atmosférica e os regimes de chuva que alcançam Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso.
Segundo a Universidade de Tromsø, o sal acumulado sobre o gelo marinho pode ter intensificado o resfriamento da Terra durante as glaciações globais de aproximadamente 700 milhões de anos atrás.
O artigo completo está disponível na revista Climate of the Past, com acesso ao estudo sobre a retroalimentação entre sal e albedo e ao DOI da pesquisa. A equipe pretende avançar para simulações que incluam os fatores ausentes no modelo atual.
Com informações de Universidade de Tromsø.
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