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Nuvem de poeira cobre o oeste da África e segue para o Atlântico, mas pode não cruzar o oceano

Nuvem de poeira cobre o oeste da África e segue para o Atlântico, mas pode não cruzar o oceano
Foto: acervo

Imagem do satélite Terra mostra um haboob tardio e reacende a atenção para o elo entre Saara, clima e Amazônia.

Uma faixa extensa de poeira encobriu parte do oeste da África e começou a avançar sobre o Atlântico na primeira semana de setembro de 2026. O fenômeno foi registrado pelo instrumento MODIS, instalado no satélite Terra, da NASA, sobre áreas do Mali e países próximos. Embora a nuvem tenha alcançado grande escala, a agência considera pouco provável que esse episódio específico chegue à costa americana.

Como a poeira conseguiu cobrir uma área tão grande?

A origem está nos chamados haboobs, tempestades de poeira associadas a sistemas de convecção e tempestades elétricas. Quando correntes de ar descendentes atingem o solo seco, levantam sedimentos e os espalham horizontalmente por centenas de quilômetros em poucas horas.

O registro chamou atenção porque ocorreu no fim do verão no Hemisfério Norte, período em que a frequência dessas tempestades no Saara e no Sahel costuma começar a diminuir. Ainda assim, as condições atmosféricas observadas no início de setembro concentraram partículas em quantidade suficiente para esconder temporariamente o relevo e a superfície na imagem orbital.

Segundo a NASA, o instrumento MODIS do satélite Terra registrou em 11 de setembro de 2026 uma grande nuvem de poeira sobre o oeste da África, com deslocamento inicial em direção ao Atlântico.

Por que a nuvem provavelmente não fará a travessia até a América?

Depois de subir para camadas mais altas da atmosfera, o material passa a ser transportado pelos ventos dominantes. No verão do Hemisfério Norte, esse mecanismo costuma favorecer o deslocamento de poeira pela chamada Capa de Ar do Saara, uma massa de ar quente e muito seca que pode cruzar o Atlântico e alcançar o Caribe e partes do continente americano.

Neste caso, porém, a época do ano pesa contra uma viagem tão longa. Os ventos alísios responsáveis por empurrar essas massas de ar para oeste começam a perder força à medida que a temporada avança. Por isso, os cientistas consideram que a nuvem observada pelo Terra pode se dissipar ou perder concentração antes de chegar à costa.

A avaliação não significa que a poeira ficará restrita ao continente africano. Parte das partículas já avançou sobre o oceano, mas a distância percorrida, a altitude alcançada e a força dos ventos determinarão quanto material continuará suspenso e onde ele poderá se depositar.

Qual é a relação entre El Niño e as tempestades de poeira?

Os pesquisadores também acompanham a possível influência do fenômeno El Niño sobre a dinâmica atmosférica do Sahel nos meses seguintes. A relação não produz um efeito único. Um ambiente mais seco pode deixar mais sedimentos soltos no solo, aumentando a quantidade de material disponível para ser levantado.

Ao mesmo tempo, a redução da convecção pode diminuir a ocorrência de tempestades elétricas capazes de gerar haboobs. Assim, o solo pode ficar mais vulnerável à erosão pelo vento, mas haver menos sistemas convectivos fortes para levar a poeira a grandes altitudes.

Essa combinação torna a previsão do comportamento das nuvens mais complexa. Não basta saber se o terreno está seco. Também é necessário observar a formação de tempestades, a direção dos ventos e a altura atingida pelas partículas.

O que a poeira do Saara tem a ver com a Amazônia?

A conexão com a Amazônia ocorre principalmente por meio dos minerais transportados pelo ar. Entre eles está o fósforo, elemento importante para a fertilidade dos solos e que pode ser levado para a floresta e para o oceano quando as partículas saharianas se depositam.

Esse transporte cria uma ligação natural entre uma das regiões mais áridas do planeta e a maior floresta tropical. Para os estados amazônicos brasileiros, a imagem não indica que uma nuvem específica esteja prestes a alcançar as cidades ou áreas rurais da região. O ponto central é outro: parte da produtividade dos ecossistemas amazônicos depende de nutrientes que circulam em escala continental e até intercontinental.

A poeira também interfere na atmosfera sobre o Atlântico. A camada de ar quente e seca em que essas partículas viajam pode dificultar temporariamente a formação e o fortalecimento de furacões, ao limitar a umidade disponível e alterar o ambiente em que as tempestades se organizam.

O fenômeno representa risco imediato para o Brasil?

Com os dados apresentados pela NASA, não há indicação de que a nuvem registrada em setembro vá atingir diretamente o Brasil. A própria avaliação científica aponta baixa probabilidade de uma travessia transatlântica completa neste episódio.

Isso não elimina a importância de acompanhar o fenômeno. Grandes concentrações de poeira podem reduzir a visibilidade, afetar a qualidade do ar e modificar a quantidade de radiação que chega à superfície nas áreas sob sua passagem. Esses efeitos dependem da concentração de partículas, da duração do evento e da distância em relação ao núcleo da nuvem.

Para quem vive na Amazônia, o episódio ajuda a visualizar um processo que normalmente não aparece no cotidiano: os ecossistemas regionais estão conectados a sistemas atmosféricos que começam a milhares de quilômetros, no deserto e no Sahel. A influência, contudo, não deve ser confundida com uma previsão de chuva, fumaça ou chegada de poeira a um estado específico.

O que acontece depois do registro feito pelo satélite?

A imagem do Terra permite identificar a extensão e o deslocamento da nuvem, mas o comportamento do material continuará dependente das condições atmosféricas. Meteorologistas precisam comparar novas imagens, velocidade dos ventos e evolução dos sistemas de tempestade para saber se a massa perde força ou permanece sobre o oceano.

O episódio também serve como referência para estudar como a transição entre as estações altera as tempestades de poeira no Saara e no Sahel. A combinação entre solo seco, convecção e circulação dos ventos será decisiva para os próximos eventos monitorados pelos satélites da NASA.

Com informações de NASA.

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