
Ermanno Stradelli nasceu em um castelo na Itália.
Era conde, tinha recursos financeiros e poderia ter construído uma vida confortável na Europa.
Em 1879, aos 26 anos, viajou para o Amazonas.
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Durante esse período, percorreu rios e igarapés, aprendeu nheengatu, registrou narrativas indígenas e produziu uma obra que parecia ser apenas um dicionário.
Na prática, ela se tornou uma pequena enciclopédia da Amazônia.
A língua geral que atravessava a região
O nheengatu desenvolveu-se historicamente a partir do tupi e alcançou ampla circulação na Amazônia.
Foi utilizado em relações entre povos indígenas, missionários, comerciantes e populações ribeirinhas.
Quando Stradelli chegou à região, a língua continuava presente em diferentes áreas, especialmente no Rio Negro.
Ele decidiu aprendê-la.
O interesse não se limitou à comunicação cotidiana. Stradelli passou a registrar palavras, expressões, narrativas e explicações relacionadas à vida amazônica.
Seu Vocabulário Português-Nheengatu e Nheengatu-Português seria publicado apenas em 1929, três anos depois de sua morte.
Um dicionário que não cabia dentro dos verbetes
Em um dicionário comum, espera-se encontrar uma palavra e sua tradução.
Stradelli frequentemente fazia muito mais.
Ao explicar determinados termos, descrevia métodos de pesca, espécies de peixes, práticas agrícolas, instrumentos, constelações, músicas, cerimônias e narrativas.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo observaram que a obra pode ser lida como uma enciclopédia da cultura amazônica.
Os verbetes revelam que uma língua não organiza apenas palavras. Ela organiza relações entre pessoas, ambientes e acontecimentos.
O nome de um peixe podia incluir informações sobre seu comportamento. Um termo astronômico podia estar relacionado a épocas de chuva, reprodução de animais ou atividades agrícolas.
A tradução precisava atravessar mundos, não apenas vocabulários.
Jurupari e o desafio da autoria
Stradelli também ficou conhecido pelos registros relacionados a Jurupari.
A chamada Lenda do Jurupari possui uma história complexa de transmissão, tradução e publicação.
O material estava relacionado a narrativas indígenas do noroeste amazônico e passou por diferentes mediadores antes de circular em línguas europeias.
Durante muito tempo, obras desse tipo foram apresentadas principalmente sob o nome dos pesquisadores responsáveis pela edição.
Hoje, a discussão exige reconhecer os narradores indígenas e as sociedades que preservaram essas histórias.
Stradelli não inventou Jurupari. Seu papel foi registrar, traduzir e divulgar determinados materiais.
Esse trabalho possui valor histórico, mas também precisa ser analisado como parte de um processo no qual conhecimentos indígenas eram frequentemente transferidos para arquivos e publicações sem formas modernas de reconhecimento autoral.
O observador também entrou no dicionário
Os estudos sobre Stradelli destacam que seus comentários podiam ser pessoais.
Isso lembra que um dicionário não é inteiramente neutro.
A escolha dos verbetes, o tamanho das explicações e as comparações revelam o olhar de quem escreve.
Stradelli viveu durante décadas na Amazônia e conhecia profundamente determinados aspectos da região. Ainda assim, continuava sendo um homem europeu interpretando sociedades diferentes da sua.
Sua obra registra culturas amazônicas e, ao mesmo tempo, registra a maneira como ele próprio tentou compreendê-las.
Da riqueza europeia ao isolamento em Manaus
O final da vida de Stradelli contrasta fortemente com seu nascimento aristocrático.
Ele contraiu hanseníase, doença cercada por enorme estigma social naquele período.
Foi afastado de hotéis, pensões e hospitais. Morreu pobre e isolado, em 1926, em uma área utilizada como leprosário na periferia de Manaus.
Tinha vivido 43 anos no Brasil.
Sua principal obra linguística ainda não havia sido publicada em sua forma definitiva.
A floresta preservada nas palavras
O vocabulário de Stradelli continua valioso porque registra mais do que equivalências linguísticas.
Ele preserva fragmentos de uma Amazônia observada no final do século XIX e começo do século XX.
Há peixes, estrelas, ferramentas, plantas, cerimônias e comentários sobre a vida na floresta.
Entretanto, o maior ensinamento da obra talvez esteja fora de qualquer verbete específico.
Quando uma língua desaparece, não se perde apenas uma maneira diferente de dizer a mesma coisa.
Podem desaparecer classificações, relações ecológicas, memórias e formas de interpretar o céu e os rios.
Stradelli entrou na Amazônia como um conde interessado em viagens.
Terminou produzindo um livro que mostrou como um idioma pode carregar uma floresta inteira.
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