
Inventário une conhecimento indígena e tecnologia para mapear a biodiversidade ameaçada entre Pará e Mato Grosso.
Uma árvore conhecida há gerações pelo povo Panará pode se tornar uma espécie reconhecida pela ciência após um inventário que já registrou quase 15 mil animais, plantas e insetos em 500 mil hectares da Terra Indígena Panará, na divisa entre Pará e Mato Grosso. O levantamento identificou 602 espécies, incluindo 27 classificadas como criticamente ameaçadas de extinção, e ainda depende de novas expedições para ser concluído.
O trabalho combina o conhecimento dos indígenas sobre a floresta com técnicas científicas de catalogação. Pesquisadores Panará participam das caminhadas, da coleta de amostras e da interpretação dos dados ao lado de equipes ligadas a universidades públicas e organizações de conservação.
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As equipes percorrem trilhas para localizar rastros, observar animais, registrar plantas e coletar amostras. Também são retiradas amostras de água do Rio Rriri, afluente do Rio Xingu que atravessa o território indígena.
“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, afirma Renata Pinheiro, diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da Conservação Internacional no Brasil.
Segundo a Conservação Internacional no Brasil, o inventário realizado em 500 mil hectares da Terra Indígena Panará, entre Pará e Mato Grosso, registrou 602 espécies até 18 de agosto de 2026.
Entenda o caso
O projeto é promovido pela Conservação Internacional no Brasil, conhecida como CI-Brasil, em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações sociais.
A iniciativa ocorre em uma região pressionada pelo garimpo ilegal e por outras atividades irregulares. A produção de informações sobre a fauna, a flora e os recursos hídricos pretende apoiar ações de conservação e fortalecer a gestão do território pelos próprios Panará.
Câmeras ampliam o que os pesquisadores conseguem encontrar
Parte do inventário depende de equipamentos digitais. Os pesquisadores indígenas receberam treinamento para operar GPS, aplicativos de catalogação e câmeras instaladas na mata, conhecidas como câmeras trap. Esses equipamentos são acionados pelo movimento ou pelo calor corporal dos animais.
A tecnologia permitiu registrar espécies que dificilmente seriam vistas durante as caminhadas. As imagens passaram a integrar o material usado na identificação da fauna, principalmente de animais de hábitos noturnos ou que evitam a presença humana.
“Quando as câmeras capturaram os bichos de pelo, a gente conseguiu identificar mais bichos do que a gente conhece. Depois disso, eu também fiquei muito feliz em conhecer essa parte da pesquisa com a tecnologia”, afirma Pentê Panará, pesquisadora escolhida pelos moradores da aldeia Panará Sõnkârãsãn para participar do trabalho.
A participação de Pentê também despertou o interesse de outras mulheres da comunidade. “Toda vez que eu voltava do trabalho de pesquisa, as outras mulheres me perguntavam sobre o que estávamos fazendo e como era trabalhar com essa parte de tecnologia. Acho que outras mulheres Panará também gostariam de participar”, relata.
Árvore Já pode ser espécie ainda não descrita
Entre as descobertas está uma árvore chamada Já pelos Panará. A espécie foi marcada, fotografada e teve amostras recolhidas durante uma das incursões pela floresta. Para a comunidade, trata-se de uma planta conhecida há muitas gerações. Para a ciência, porém, ainda é necessário confirmar se ela não foi descrita anteriormente.
A análise depende de material adicional, especialmente de uma nova coleta durante a estação de floração. “A gente ainda precisa conseguir coletar esse indivíduo novamente durante a estação da floração para conseguir fazer essa análise”, explica Renata Pinheiro.
Por isso, a árvore não pode ser apresentada neste momento como uma nova espécie. A confirmação dependerá da avaliação de botânicos e da comparação com registros científicos existentes.
Inventário ainda não foi concluído
A coleta de dados foi interrompida por falta de recursos para financiar uma nova rodada de expedições. A expectativa da CI-Brasil é retomar as atividades e ampliar o número de espécies catalogadas.
Os próprios pesquisadores Panará afirmam que ainda há muitos animais fora do levantamento. “Durante essa pesquisa, toda vez que a gente andava na mata, a gente encontrava rastro de outros bichos. Dá até pra saber o caminho onde eles andam. Para mim, ainda tem muitos mais”, diz Pentê.
Quando o inventário for finalizado, os pesquisadores indígenas participarão da análise dos resultados antes que os dados sejam disponibilizados no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, o SiBBr. A plataforma reúne registros de ocorrência de espécies, coleções biológicas e bases de informações científicas.
Panará terão autoria e controle sobre os dados
O projeto prevê que os pesquisadores Panará apareçam como autores e detentores do conhecimento associado às informações coletadas dentro do território. Instituições interessadas em utilizar o conteúdo deverão identificar a origem dos dados e os responsáveis pelo conhecimento.
“Tem todo um procedimento que precisa ser feito para os pesquisadores indígenas estarem nessa plataforma como detentores e autores desse conhecimento, e isso ficar registrado na plataforma. Assim, cada vez que uma outra instituição de pesquisa, por exemplo, precisar acessar essas informações, eles são procurados”, afirma Renata.
A mesma regra vale para trabalhos acadêmicos produzidos a partir do projeto. Publicações elaboradas por pesquisadores não indígenas são apresentadas previamente à comunidade, com vídeos e áudios que explicam quais informações serão usadas, qual é a finalidade do estudo e em que contexto os dados serão divulgados.
Os pesquisadores Panará e os demais moradores podem acrescentar informações antes da liberação do material. O procedimento aproxima a pesquisa científica da tradição oral do povo e busca evitar que o conhecimento seja retirado do território sem participação ou autorização comunitária.
Perguntas frequentes
Onde fica a Terra Indígena Panará?
A Terra Indígena Panará fica na divisa entre os estados do Pará e Mato Grosso, na região amazônica, e é atravessada pelo Rio Rriri, afluente do Rio Xingu.
Quantas espécies foram identificadas?
O inventário registrou 602 espécies entre animais, plantas e insetos. O levantamento também contabilizou quase 15 mil indivíduos.
A árvore Já já foi confirmada como nova espécie?
Não. A possibilidade ainda está em análise e depende de novas amostras coletadas durante o período de floração e da avaliação de botânicos.
A retomada das expedições e a conclusão das análises serão os próximos passos para ampliar o inventário e definir quais registros poderão ser incorporados ao SiBBr.
Com informações de Conservação Internacional no Brasil.
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