
Na comunidade de Igarapé do Costa, na região de Santarém, o atendimento de saúde já começou muitas vezes com uma mulher dentro de uma canoa. Marlene, moradora da várzea e profissional formada em enfermagem, passou cerca de duas décadas remando para alcançar pessoas que adoeciam ou mulheres que precisavam de acompanhamento durante a gestação. A lógica era simples e exigente: para quem estava debilitado, atravessar a água seria mais difícil; por isso, era ela quem fazia o caminho.
O deslocamento resume um desafio que não cabe num mapa de distâncias. Na cheia, água e correnteza mudam acessos, transformam quintais em canais e fazem da embarcação parte da rotina. Na vazante, o trajeto volta a combinar trechos de terra, lama e água. Um atendimento que na cidade começa na porta de uma unidade, ali pode depender do nível do rio, do tempo, da canoa disponível e do conhecimento de quem sabe localizar cada família.
O remo era parte do cuidado
Marlene cresceu trabalhando na agricultura e depois estudou enfermagem. Na comunidade, passou a reunir diferentes funções: acompanhou pré-natal, prestou cuidados depois do parto, participou de ações preventivas e ajudou mulheres no nascimento dos filhos. A experiência como parteira não substituía toda a estrutura de saúde, mas preenchia uma distância concreta entre as casas e o atendimento possível naquele momento.
Durante os primeiros anos, a pequena canoa a remo era seu principal meio de chegar a quem precisava. Ela calculava que o esforço deveria ficar com a pessoa saudável. Em vez de esperar que um doente encontrasse forças e transporte, separava o material, entrava na embarcação e seguia até a casa. Foram aproximadamente 20 anos assim, segundo sua própria memória, antes de conseguir uma embarcação motorizada.
Esse trabalho se apoiava também em uma vantagem que nenhum equipamento oferece sozinho: conhecer as famílias. A profissional sabia onde estavam gestantes, puérperas, crianças e idosos, reconhecia mudanças na rotina e conseguia manter uma relação de confiança. Na atenção básica, esse vínculo ajuda a perceber riscos mais cedo e aumenta a chance de uma orientação ser realmente seguida.
Uma criança de poucos dias mostrava que o trabalho continuava
Em um dos atendimentos lembrados na comunidade, o bebê mais recente que ela ajudara a receber tinha pouco mais de duas semanas. O dado aproxima a história do presente: não se tratava apenas de uma lembrança distante, mas de uma função ainda procurada pelas famílias. O nascimento terminara, porém o cuidado seguia no período em que mãe e criança precisam de observação.
O Ministério da Saúde inclui pré-natal, parto, puerpério e atenção à criança em uma linha contínua de cuidado. Também reconhece a importância das parteiras tradicionais e da articulação delas com equipes de saúde. Em locais onde rios determinam o acesso, essa integração precisa considerar transporte, comunicação, combustível, materiais e a possibilidade de remoção quando surge uma emergência.
O conhecimento local, portanto, não deve ser romantizado como substituto para políticas públicas. A coragem de remar não elimina a necessidade de ambulanchas, equipes preparadas, vacinação, exames, medicamentos e referência hospitalar. Ao contrário: a trajetória de Marlene evidencia por que a rede precisa chegar até as comunidades sem ignorar quem já sustenta parte do cuidado cotidiano.
A chegada do motor mudou o tempo da viagem
Quando a embarcação motorizada entrou na rotina, o trabalho ganhou velocidade e alcance. Uma travessia que antes exigia esforço físico contínuo passou a depender menos do braço da profissional. Isso pode parecer uma troca simples de equipamento, mas, num atendimento, minutos economizados influenciam desde o conforto de uma paciente até a possibilidade de buscar apoio fora da comunidade.
O motor também trouxe novas dependências: combustível, manutenção e dinheiro para reparos. Na Amazônia ribeirinha, tecnologia raramente apaga por completo o problema anterior; ela reorganiza o problema. A canoa a remo era lenta, porém podia seguir sem gasolina. A embarcação motorizada encurta distâncias, mas precisa estar abastecida e funcionando no dia certo.
Por isso, a experiência acumulada permanece decisiva. Ler o rio, escolher uma rota, proteger instrumentos da chuva e saber em qual casa desembarcar são habilidades construídas ao longo do tempo. O barco melhora o deslocamento; a confiança e a leitura do território continuam humanas.
Uma história local que aponta uma obrigação pública
Igarapé do Costa vive o movimento anual das águas. Casas, passarelas, criação de animais e transporte se reorganizam com a cheia e a seca. O serviço de saúde também precisa ser sazonal. Uma rota possível num mês pode se tornar longa ou inviável em outro. Planejar atendimento ali significa acompanhar o calendário do rio, não apenas o calendário administrativo.
A história de Marlene chama atenção porque transforma uma expressão abstrata, “acesso à saúde”, em uma cena mensurável: durante cerca de 20 anos, uma profissional pegou o remo para diminuir a distância entre uma pessoa doente e o cuidado. O gesto resolve uma necessidade imediata, mas também revela o custo invisível imposto a quem mantém serviços essenciais funcionando.
O legado não está somente no número de viagens ou partos. Está na ideia de que a atenção começa antes da consulta, quando alguém garante que o caminho exista. Na várzea, esse caminho pode não ser uma rua. Pode ser a lâmina d’água entre duas casas e uma mulher que decidiu atravessá-la.
Para as gerações mais novas, a trajetória também guarda uma lição profissional. Marlene saiu do trabalho agrícola, estudou e devolveu a formação ao território onde cresceu. Essa permanência cria uma referência próxima para meninas que enxergam a enfermagem não como profissão distante, mas como trabalho possível dentro da própria comunidade. Valorizar essa experiência significa oferecer formação continuada, equipamentos e remuneração, para que o compromisso pessoal não seja usado como desculpa para a ausência do Estado.
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