
Relatório reúne dados de 50 especialistas e alerta para barragens, garimpo, pesca excessiva e mudanças climáticas.
Quando um peixe amazônico desaparece, o efeito não fica restrito ao rio. A perda pode atingir a floresta alagada, a alimentação de comunidades, a renda de pescadores e até animais como botos, ariranhas e aves. É por isso que a presença de mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na Bacia Amazônica representa, ao mesmo tempo, uma reserva de biodiversidade e um alerta sobre a pressão crescente nos rios.
O número equivale a aproximadamente 15% de todas as espécies de peixes conhecidas no mundo. Cerca de dois terços são encontrados exclusivamente na região. Os dados estão na quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, coordenado pela The Nature Conservancy, com participação de mais de 50 especialistas ligados a 30 organizações.
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O levantamento descreve os peixes como indicadores do estado de conservação dos rios e peças importantes no funcionamento da floresta. Tambaquis, pacus e matrinxãs entram em áreas alagadas para se alimentar de frutos. Ao se deslocarem, podem levar sementes por longas distâncias e contribuir para a regeneração da vegetação.
Outras espécies transportam nutrientes e energia entre a água e a terra. Essa circulação sustenta diferentes elos da cadeia alimentar. Quando os estoques diminuem, os impactos podem alcançar a vegetação e os animais que dependem do pescado.
Segundo a The Nature Conservancy, a Bacia Amazônica tinha mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce identificadas no relatório publicado em 8 de setembro de 2026. A informação ajuda a dimensionar por que a conservação dos rios interessa não apenas à fauna, mas também às populações que vivem em suas margens.
Uma viagem de 11 mil quilômetros depende de rios conectados
Entre os exemplos apresentados está a dourada, peixe conhecido por realizar a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada. Durante o ciclo de vida, um único indivíduo pode percorrer mais de 11 mil quilômetros, entre áreas próximas aos Andes e o estuário do Amazonas.
Essa trajetória exige que os rios permaneçam conectados. Barragens no rio Madeira bloquearam antigas rotas migratórias da espécie e contribuíram para a redução dos estoques de peixes. Na região da Cachoeira do Teotônio, a consequência foi o desaparecimento, na prática, de uma atividade pesqueira histórica.
O caso mostra como uma obra instalada em determinado trecho pode produzir efeitos muito além do reservatório. Para espécies migradoras, o rio não funciona como uma sequência de partes isoladas. A circulação entre cabeceiras, áreas de alimentação, locais de reprodução e estuários faz parte do ciclo natural.
Pressões se acumulam sobre a biodiversidade
A lista de riscos inclui hidrelétricas, desmatamento, poluição, pesca excessiva e alterações no regime de vazão. O relatório também aponta que as mudanças climáticas podem agravar todos esses fatores, com secas prolongadas, menor oxigenação da água e concentração de contaminantes.
Projeções reunidas no estudo indicam que a descarga anual dos rios pode cair mais de 40% em algumas áreas importantes, como as cabeceiras do Madeira. Nos Andes, o aumento das temperaturas ameaça espécies endêmicas adaptadas a águas frias.

O garimpo amplia o problema por meio do mercúrio. Dados citados no relatório apontam que a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões provocadas por atividades humanas do metal na América do Sul. Como o contaminante se acumula na cadeia alimentar, o consumo de pescado é considerado a principal via de exposição humana ao mercúrio na Amazônia.
Também há incerteza sobre o tamanho real da crise. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza reúne 144 espécies ameaçadas na região, enquanto outras 334 aparecem como “Dados Insuficientes”. A falta de monitoramento contínuo e de cooperação entre os países da bacia pode esconder ameaças ainda não dimensionadas.
O peixe no prato e na economia regional
A conservação dos rios tem impacto direto na segurança alimentar. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado supera 600 gramas por pessoa por dia. Para famílias de baixa renda, o peixe está entre as fontes mais acessíveis de proteína animal e fornece nutrientes importantes para o desenvolvimento e a saúde.
A atividade também movimenta a economia. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, enquanto a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano e sustenta milhares de famílias. Uma parcela relevante dessa produção, especialmente a artesanal, de pequena escala ou voltada à subsistência, não aparece nas estatísticas oficiais.
O relatório destaca ainda o trabalho das mulheres em várias etapas da cadeia e em associações comunitárias. Esse aspecto é importante para a realidade amazônica, onde renda, alimentação e organização social frequentemente dependem do acesso regular aos rios.
Comunidades já testam formas de proteger os rios
O estudo combina pesquisas científicas com conhecimento ecológico tradicional e dá destaque à atuação de povos indígenas e comunidades tradicionais. Para Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica, o peixe integra a identidade, os sistemas alimentares, as histórias e a relação dos povos com os rios.
“Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos”, afirmou Fany Kuiru Castro.
O relatório identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. Em conjunto, elas cobrem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores. Segundo os autores, essas experiências estão relacionadas ao aumento da abundância de peixes, da riqueza de espécies e dos benefícios econômicos e sociais.
Entre as ações recomendadas estão a proteção de rios de fluxo livre, a recuperação de vazões naturais, a restauração de habitats, a melhoria da qualidade da água e a prevenção da expansão de espécies não nativas. Como peixes, sedimentos e nutrientes atravessam fronteiras, a proposta é coordenar medidas em toda a bacia, com participação formal de povos indígenas e comunidades locais.
O que o relatório propõe para a Amazônia
A principal conclusão é que ainda existe a possibilidade de conservar grandes sistemas de rios antes que a recuperação dos danos se torne mais complexa e cara. A cientista da The Nature Conservancy e autora principal do relatório, Fernanda Silva, defende que a região seja protegida enquanto seus sistemas de água doce ainda funcionam.
“A Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”, disse Fernanda Silva.
Para os estados amazônicos brasileiros e para os demais países da bacia, a discussão envolve decisões sobre energia, transporte, mineração, pesca, segurança alimentar e direitos territoriais. Os próximos passos indicados pelo estudo são ampliar o monitoramento, preservar a conectividade dos rios e fortalecer o manejo comunitário antes que novas perdas exijam projetos de restauração em escala maior.
Com informações da The Nature Conservancy.
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