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Pescadores artesanais do Rio Tapajós estruturam turismo de base comunitária com foco na pescaria esportiva do tucunaré e culinária de raiz

Os pescadores artesanais que habitam as margens e as reservas extrativistas do Rio Tapajós, no oeste do estado do Pará, transformaram o seu profundo conhecimento ecológico tradicional em um dos modelos de Turismo de Base Comunitária (TBC) mais sustentáveis e imersivos da Amazônia, acolhendo viajantes para a pescaria esportiva do tucunaré e preservando rituais gastronômicos ancestrais de preparação do peixe fresco na hora.

Nas dinâmicas de transição econômica que afetam as comunidades tradicionais da Amazônia, a busca por alternativas de renda que não agridam a integridade física da floresta e dos rios encontrou na valorização dos saberes locais a sua maior força de mercado. Historicamente dependentes da pesca de subsistência e da agricultura familiar de roçado, os ribeirinhos do Tapajós — com destaque para os moradores de vilas e comunidades do entorno de Alter do Chão, Santarém e da Floresta Nacional (FLONA) do Tapajós — redesenharam sua relação com o turismo. Em vez de atuarem como meros figurantes de agências externas, os próprios pescadores organizaram-se em cooperativas autônomas para receber entusiastas da pesca esportiva mundial, operando como guias especializados que decifram os segredos das águas claras e das estruturas submersas onde os grandes tucunarés emboscam suas presas.

A acolhida turística inicia-se logo ao amanhecer nas praias de areia branca e fina que rendem ao Tapajós o título de “Caribe Amazônico”. Os turistas embarcam nas tradicionais “bajolas” ou canoas de madeira rústicas motorizadas (motores “rabeta”), embarcações leves de calado raso perfeitamente adaptadas para navegar de forma silenciosa por entre os igapós, lagos de várzea e áreas de ressacas. O pescador artesanal atua como um cientista prático do rio: através da observação do vento, do nível das marés diárias e do movimento de pequenos peixes forrageiros (como os lambaris), o guia ribeirinho conduz o visitante com precisão milimétrica até as “estruturas” — troncos de árvores submersos, pedrais e densas vegetações marginais onde os tucunarés mantêm seus territórios de caça ativos.

O alvo principal dessa jornada é o tucunaré (Cichla), com especial destaque para o tucunaré-açu e o tucunaré-fogo, peixes caracídeos celebrados mundialmente por sua agressividade visual, força mecânica e botes explosivos na superfície da água. Durante a pescaria, o pescador tradicional ensina ao turista técnicas refinadas de leitura de ambiente e arremesso de iscas artificiais de superfície e meia-água.

A Ética do Rio: O turismo de base comunitária no Tapajós apoia-se de forma estrita no princípio do “pesque e solte” para o turismo esportivo. Os exemplares de grande porte capturados são fotografados, medidos e devolvidos imediatamente e com segurança à água, garantindo a manutenção dos estoques reprodutivos e a preservação genética da espécie no rio.

Contudo, a experiência atinge o seu ápice sensorial e cultural no meio do dia, quando o pescador artesanal seleciona um ou dois tucunarés de porte médio capturados especificamente para o consumo alimentar da jornada (respeitando as cotas de subsistência permitidas pelas leis ambientais locais) e ancora a canoa em uma praia deserta ou sob a sombra de uma mangueira frondosa na margem do rio para iniciar a preparação do peixe na hora, um ritual gastronômico que preserva técnicas culinárias herdadas dos povos indígenas ancestrais.

A preparação do tucunaré à beira-rio é uma obra de arte baseada no minimalismo e no frescor absoluto dos ingredientes. Enquanto o turista descansa na praia, o pescador limpa o peixe diretamente na água do rio, realizando cortes longitudinais precisos ao longo do dorso para abrir o animal em formato de manta. O tempero do tucunaré é elementar e rústico, projetado para realçar e não mascarar o sabor adocicado e a textura firme da carne gorda do peixe: utiliza-se apenas sal grosso, limão-galego colhido no quintal da comunidade e, eventualmente, pimenta-de-cheiro picada.

A mecânica do cozimento apoia-se no uso de uma grelha improvisada feita na hora com galhos verdes e flexíveis de árvores nativas que resistem ao calor (técnica conhecida como moquém) ou no braseiro direto montado com lenha seca coletada na própria praia. O tucunaré é depositado sobre a brasa forte, sem labaredas, iniciando um processo de assamento rápido e defumação sutil que confere à carne um aroma amadeirado inconfundível. Em menos de trinta minutos, o peixe está pronto, exibindo uma pele tostada e crocante por fora e uma carne branca, suculenta e fumegante por dentro. O tucunaré na brasa é servido de forma tradicional sobre folhas de bananeira ou de caeté, acompanhado obrigatoriamente por uma porção generosa de farinha de mandioca de canastra ou farinha d’água crocante produzida nas casas de farinha comunitárias, criando uma refeição de alta densidade calórica e cultural.

Essa simbiose entre o turismo esportivo e a culinária de raiz gera impactos socioeconômicos de grande magnitude positiva para as populações do Tapajós. O dinheiro injetado diretamente pelos turistas nas comunidades — seja através do pagamento diário dos guias, do aluguel das embarcações, da compra de artesanatos de palha de tucumã ou da hospedagem em pousadas comunitárias — circula internamente no território, fortalecendo a economia verde e fornecendo uma alternativa financeira real que desestimula a adesão de jovens a atividades predatórias, como o garimpo ilegal de ouro ou a extração clandestina de madeira.

No entanto, a perenidade deste modelo sustentável de Turismo de Base Comunitária enfrenta sérias ameaças decorrentes das pressões ambientais modernas na Amazônia. A poluição química por mercúrio proveniente do garimpo ilegal em rios tributários (como o Rio Crepori) ameaça a sanidade e a segurança alimentar do consumo de peixes na bacia do Tapajós. Além disso, o avanço do desmatamento de cabeceiras para a abertura de grandes monoculturas de grãos provoca o assoreamento dos lagos de reprodução do tucunaré, ameaçando silenciar a fartura que alimenta o rio.

Garantir o futuro da pesca comunitária no Tapajós exige o fortalecimento rigoroso das fiscalizações federais contra crimes ambientais e o apoio financeiro estatal para a capacitação das cooperativas tradicionais em gestão de negócios sustentáveis e ecoturismo. O tucunaré na brasa preparado pelos pescadores artesanais é a prova factual de que a conservação da biodiversidade e o bem-estar social das populações humanas caminham de mãos dadas. Ao valorizarmos e participarmos do turismo de base comunitária no Pará, honramos o patrimônio ecológico e cultural do Brasil, assegurando que as águas do Tapajós continuem a pulsar com fartura, sabor e vida selvagem para todas as eras futuras do planeta.

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