O primeiro anfíbio do mar viveu há 237 milhões de anos na China, tinha 74 cm, guelras e uma armadura que barrava o sal

O primeiro anfíbio do mar viveu há 237 milhões de anos na China, tinha 74 cm, guelras e uma armadura que barrava o sal
Fóssil de Gerrothorax pulcherrimus, parente de água doce da nova espécie marinha, no Museu am Löwentor, em Stuttgart. Foto: Ghedoghedo, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Sapos, rãs, salamandras e cobras-cegas têm uma coisa em comum: quase nenhum deles aguenta água salgada. A pele fina e permeável, que ajuda esses animais a respirar e a beber, vira um problema no mar, porque o sal puxa a água do corpo para fora. Por isso chama a atenção a descrição de um anfíbio que passou a vida inteira no oceano, há cerca de 237 milhões de anos, no fim do período Triássico. A espécie foi batizada de Gerrothorax maritimus e é considerada o primeiro anfíbio marinho conhecido.

Um fóssil achado por agricultores

O esqueleto foi encontrado por agricultores no geoparque de Guanling, na província de Guizhou, no sul da China, uma região famosa por fósseis de répteis marinhos do Triássico. O animal media 74 centímetros e tinha o corpo achatado, com a cabeça larga, parecida com uma pá. Ele foi recuperado ao lado de restos de um ictiossauro, o Guizhouichthyosaurus, réptil marinho com forma de golfinho que chegava a 7 metros de comprimento.

O G. maritimus pertence aos temnospôndilos, um grupo antigo de anfíbios que dominou rios e lagos muito antes dos dinossauros se espalharem. Seu parente mais próximo, o Gerrothorax pulcherrimus, foi descrito há quase um século a partir de fósseis da Alemanha e vivia em água doce.

Caçador de emboscada no fundo do mar

Pelo formato do corpo, os pesquisadores concluíram que o animal vivia deitado no fundo, à espera de presas. Quando um peixe passava por perto, ele abria a boca de repente e sugava a vítima, uma estratégia parecida com a dos tubarões-tapete, que também ficam camuflados no leito marinho. O fóssil mostra ainda que o anfíbio manteve guelras na vida adulta, uma característica que permitia respirar debaixo d’água sem subir à superfície.

A prova química de que ele cresceu no mar

Encontrar um fóssil em rochas marinhas não basta para dizer que o animal vivia no oceano, porque carcaças de rio podem ser arrastadas para o mar. Para resolver essa dúvida, os cientistas analisaram isótopos de estrôncio, uma espécie de assinatura química que fica gravada nos ossos e reflete a água onde o animal cresceu. O resultado indicou água do mar. Além disso, o local da descoberta ficava a pelo menos 30 quilômetros da costa na época, longe demais para um anfíbio de rio ter chegado por acaso.

A armadura que virou passaporte

O segredo do G. maritimus estaria na pele. Os animais do gênero Gerrothorax tinham o corpo coberto por placas ósseas, uma armadura que, nos rios, protegia contra predadores. Essa blindagem também formava uma barreira impermeável, capaz de reduzir a perda de água e a entrada de sal.

Para o paleontólogo Ryosuke Motani, da Universidade da Califórnia em Davis, a conquista do mar foi quase um acidente da evolução. Na avaliação dele, existia um anfíbio de água doce que por acaso tinha o equipamento necessário para colonizar o oceano: a armadura. Ou seja, a proteção não surgiu para a vida marinha, mas acabou servindo para ela.

Anfíbio não quer dizer terra e água

Motani também chama a atenção para um equívoco comum. Muita gente acredita que anfíbio significa um animal que vive tanto na terra quanto na água. Mas há salamandras e tritões atuais que nunca saem da água e continuam sendo anfíbios. Na comparação do pesquisador, dizer que todo anfíbio precisa andar em terra seria como estranhar que a cobra seja um tetrápode, o grupo dos animais de quatro membros, mesmo sem ter pernas. O que define o grupo é a história evolutiva, não o hábito.

Por que quase não existem anfíbios no mar hoje

Entre as mais de 8 mil espécies de anfíbios conhecidas atualmente, pouquíssimas toleram água salobra, como a rã-comedora-de-caranguejo do Sudeste Asiático, que vive em manguezais. Nenhuma passa a vida em mar aberto. A pele permeável, essencial para a respiração cutânea, impõe esse limite.

O G. maritimus mostra que, no passado, o grupo foi mais versátil. No Triássico, os oceanos estavam sendo reocupados depois da maior extinção em massa da história da Terra, ocorrida há cerca de 252 milhões de anos, e vários grupos de répteis voltaram ao mar nesse período. O novo fóssil indica que pelo menos um anfíbio fez o mesmo caminho.

O que a descoberta muda

Para a paleontologia, o achado amplia o mapa de onde os anfíbios conseguiram viver e reforça a ideia de que características que surgem para uma função podem abrir portas inesperadas. A armadura do Gerrothorax, pensada pela evolução como defesa, acabou funcionando como uma roupa contra o sal. Os pesquisadores pretendem procurar outros fósseis na mesma região para saber se o anfíbio marinho era um caso isolado ou parte de uma linhagem que explorou o oceano por mais tempo.

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