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“Estamos vendo animais em hiperventilação”: associação pede pontos de água…

Quatro hipopótamos foram abandonados em um zoológico e seus descendentes já passam de 200 enquanto alteram lagoas inteiras

Quatro hipopótamos levados ilegalmente para a fazenda de Pablo Escobar, na Colômbia, deram origem à maior população selvagem da espécie fora da África. Mais de quatro décadas depois, as estimativas oficiais se aproximam de 200 animais distribuídos no vale do rio Magdalena. O que começou como uma coleção privada tornou-se um dos conflitos de conservação mais difíceis do continente.

Os primeiros animais chegaram à Hacienda Nápoles na década de 1980. Depois da morte de Escobar, em 1993, a propriedade perdeu o controle sobre parte da fauna exótica. Os hipopótamos encontraram rios, lagos, alimento e um clima favorável. Sem grandes predadores e com reprodução contínua, expandiram-se muito além da antiga fazenda.

A população cresceu porque o ambiente ofereceu poucas barreiras

Hipopótamos vivem por décadas e as fêmeas podem produzir vários filhotes ao longo da vida. Na África, secas, competição, predadores e dinâmica dos rios ajudam a limitar grupos. Na Colômbia, muitos desses freios não atuam da mesma maneira.

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Os animais passaram a ocupar canais ligados ao Magdalena Médio. Como se movimentam entre terra e água, conseguem avançar por uma paisagem extensa. A população não forma um único rebanho concentrado: há indivíduos e grupos em diferentes municípios, o que torna captura e monitoramento mais caros.

Contagens também carregam incerteza. Águas turvas, vegetação e atividade noturna dificultam localizar todos os indivíduos. Por isso, estimativas divulgadas em anos diferentes podem variar entre cerca de 160 e 200 sem representar necessariamente uma queda ou explosão súbita. O dado mais consistente é a tendência de expansão.

Em 2026, o Ministério do Meio Ambiente colombiano anunciou um plano com investimento inicial de 7,2 bilhões de pesos colombianos. A estratégia combina contenção, translocação quando viável e eutanásia. A primeira fase prevê retirar animais identificados em áreas de maior complexidade.

O problema aparece dentro e fora da água

Um hipopótamo passa grande parte do dia em rios e lagoas, mas se alimenta principalmente em terra. Ao retornar à água, transporta nutrientes presentes nas fezes. Em quantidade elevada, esse fluxo pode mudar a composição química dos ambientes aquáticos e favorecer processos de eutrofização.

Eutrofização ocorre quando o excesso de nutrientes estimula crescimento de algas e microrganismos. A decomposição consome oxigênio dissolvido, afetando peixes e invertebrados. Dizer que os hipopótamos “esvaziam lagoas” simplifica o processo: eles não comem todos os habitantes, mas podem alterar condições das quais outras espécies dependem.

A competição por espaço também preocupa. Peixes-bois, tartarugas e lontras pertencem ao ecossistema nativo e podem sofrer com mudanças de habitat. Em terra, hipopótamos atravessam plantações e estradas. O risco para pessoas é real porque são animais grandes, territoriais e capazes de correr rapidamente.

Esterilizar 200 gigantes não é uma solução rápida

A castração cirúrgica exige localizar, conter, sedar e operar um animal que pode pesar toneladas. A anatomia reprodutiva dificulta o procedimento, e a anestesia traz riscos para equipes e indivíduos. Contraceptivos químicos também precisam ser aplicados e acompanhados.

Mesmo uma redução da natalidade não remove imediatamente o impacto dos adultos já presentes. Como vivem muitos anos, a população continuaria ocupando a bacia por décadas. A translocação para outros países enfrenta custos, autorizações sanitárias, logística aérea e disponibilidade de instalações.

O governo colombiano tentou negociar transferências, mas a escala ultrapassa a capacidade de poucos zoológicos. Além disso, mover animais geneticamente aparentados e potencialmente portadores de doenças exige avaliações rigorosas. Um santuário não elimina automaticamente os riscos ecológicos e veterinários.

Captura e transporte ainda geram bem-estar animal. Caixas precisam suportar peso, ventilação e longos deslocamentos; sedação inadequada pode comprometer respiração. Assim, uma alternativa que parece mais compassiva no discurso pode impor riscos elevados durante a execução e atender apenas uma fração do grupo.

A eutanásia abriu um conflito entre indivíduos e ecossistemas

Para moradores de Doradal, os hipopótamos também se tornaram atração turística e parte da identidade local. Filhotes despertam empatia, e a ideia de matar animais introduzidos por decisões humanas provoca rejeição. Ambientalistas lembram, porém, que proteger indivíduos de uma espécie invasora pode transferir sofrimento e perda para muitas espécies nativas menos visíveis.

A decisão não deve ser reduzida a “amar ou odiar” hipopótamos. Eles não escolheram ser transportados. A responsabilidade está na introdução ilegal e na demora em controlar a expansão. Agora, qualquer alternativa envolve custo, risco e consequência ética.

Projeções citadas pelo governo indicam que, sem intervenção, a população pode chegar perto de mil animais em 2035. Projeções não são profecias: dependem de sobrevivência, reprodução e eficiência do manejo. Ainda assim, mostram por que esperar tende a tornar cada opção mais difícil.

O caso colombiano é uma advertência sobre zoológicos privados, comércio de fauna e espécies invasoras. Quatro animais bastaram para iniciar uma transformação que atravessou gerações humanas. O desafio atual não é apagar essa história, mas impedir que a expansão continue comprometendo rios, comunidades e a fauna que evoluiu ali.

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