
O sapo-pingo-de-ouro Brachycephalus rotenbergae mede menos de 2 centímetros, tem cor laranja e brilha quando recebe luz ultravioleta. Foi descrito em 2021 por uma equipe liderada pelo herpetólogo Ivan Nunes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em artigo publicado na revista PLoS ONE. Os animais foram encontrados no sul da Serra da Mantiqueira, em São Paulo, em levantamentos de campo feitos em 2018 e 2019, a cerca de 1.900 metros de altitude.
Um anfíbio de menos de dois centímetros
Segundo a descrição da espécie, os machos adultos medem de 1,35 a 1,6 centímetro e as fêmeas, de 1,6 a 1,8 centímetro. O corpo é robusto, a cabeça é larga e o focinho é curto. Os adultos são laranja, com padrões escuros esmaecidos na pele, e os jovens são um pouco mais escuros. Os autores sugerem que a cor viva se confunde, no chão da floresta, com folhas amarelas e alaranjadas, cogumelos e sementes.
O nome popular pingo-de-ouro é usado para os sapos do gênero Brachycephalus, que é restrito à Mata Atlântica do Sudeste e do Sul do Brasil. A maioria das espécies do grupo foi descrita recentemente, e muitas só são conhecidas em um ou em poucos topos de montanha.
Onde vive e como se comporta
O sapo vive no chão da floresta, entre a serapilheira, e é ativo principalmente durante o dia. Segundo os autores da descrição, às vezes ele sobe em poleiros de até 50 centímetros de altura. Os machos defendem territórios com sinais sonoros e visuais. Em três exemplares manuseados, os pesquisadores registraram o comportamento de abrir a boca de forma ampla, uma das reações de defesa observadas, além da fuga.
A espécie foi diferenciada de seus parentes por um conjunto de evidências: morfologia externa, coloração, anatomia óssea, vocalização e dados genéticos. Antes disso, os animais eram confundidos com Brachycephalus ephippium. A separação não é consenso. A pesquisadora Rute Clemente-Carvalho, do Hakai Institute, no Canadá, argumenta que as diferenças genéticas são muito pequenas e que são necessárias mais comparações com B. ephippium.
De onde vem o brilho
A fluorescência dos sapos desse gênero foi investigada em detalhe por Sandra Goutte e colegas, em artigo de 2019 na revista Scientific Reports, com Brachycephalus ephippium e B. pitanga. O brilho não vem de estruturas da pele que refletem a luz, e sim dos ossos. Placas ósseas formadas na derme da cabeça e do dorso ficam logo abaixo de uma pele muito fina, com cerca de 7 micrômetros nos pontos em que a luz aparece, e fluorescem sob radiação ultravioleta. A pele desses sapos não tem melanóforos, as células de pigmento escuro que bloqueariam a radiação.
Nos experimentos, a luz de cerca de 365 nanômetros, na faixa do ultravioleta A, produziu a maior fluorescência. A emissão ficou em torno de 450 a 470 nanômetros, na faixa do azul, e os adultos com as placas completamente formadas brilharam em tom amarelado. A equipe que descreveu o B. rotenbergae relatou que ele também fluoresce, como as demais espécies do gênero.
Para que serve o brilho? Goutte e colegas levantam duas hipóteses, ambas sem confirmação: a sinalização entre indivíduos da mesma espécie e o reforço da coloração de alerta contra predadores. Os próprios autores ressalvam que, sob luz natural, a fluorescência representa uma fração mínima da luz emitida pelo animal, cerca de 2,3%, e que provavelmente não é visível na floresta sem uma fonte intensa de ultravioleta. A substância química responsável pela fluorescência também segue sem identificação.
Sapo colorido é sapo tóxico?
A cor viva costuma ser interpretada como coloração de alerta, o aposematismo, e em outras espécies do gênero há toxina. Em artigo de 2005 na revista Toxicon, Pires Júnior e colaboradores encontraram tetrodotoxina e análogos em B. ephippium, B. nodoterga e B. pernix, com as maiores concentrações na pele. A toxicidade variou entre as espécies testadas. Até onde se sabe, não há teste de toxina publicado para o B. rotenbergae, e afirmar que ele é perigoso seria estender para ele dados de parentes.
Um sapo que não ouve o próprio canto
Outra característica estudada no grupo é a audição. Em testes com B. ephippium e B. pitanga, a equipe de Goutte observou que os animais não reagiam à reprodução do próprio canto, e reconstruções em 3D do ouvido interno indicaram que a estrutura usada para as altas frequências é pouco desenvolvida. Os pesquisadores sugerem que esses sapos podem depender mais de sinais visuais, o que conversa com a hipótese de que a fluorescência tenha função de comunicação. Esses estudos não foram feitos com o B. rotenbergae, e valem como contexto do gênero.
Sem girino
Os sapos do gênero têm desenvolvimento direto, sem fase de girino aquática. O estudo de José Pombal Júnior, publicado em 1999 na Revista Brasileira de Zoologia, acompanhou o B. ephippium nos arredores de Campinas, em São Paulo. A fêmea cobriu os ovos com partículas de solo e rolou cada um no chão com as patas traseiras até que se confundissem com a serapilheira. A eclosão ocorreu após 64 dias, e os filhotes nasceram com coloração marrom-avermelhada e uma cauda vestigial. Não há descrição equivalente para o B. rotenbergae.
Ameaças e conservação
Entre as ameaças apontadas para a espécie estão o desmatamento, a agricultura, as mudanças climáticas e as alterações no uso do solo. Um estudo de 2015, que descreveu sete espécies de Brachycephalus nas montanhas do Paraná e de Santa Catarina, sugere que a restrição de muitas espécies do gênero a topos de montanha pode refletir a tolerância a um conjunto estreito de condições climáticas, que só existe nas áreas altas. Se isso vale para o sapo da Mantiqueira, o aquecimento do clima é um risco, mas ainda faltam dados populacionais para a espécie.
O sapo-pingo-de-ouro da Mantiqueira ainda tem perguntas em aberto: o status taxonômico, a função do brilho e a toxicidade. Respondê-las depende de pesquisa de campo em florestas de altitude, que são justamente o tipo de ambiente mais exposto às mudanças em curso.
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