Ferramenta gratuita da Embrapa cria um passaporte digital para soja, café e carne bovina e prepara exportadores para a regra europeia de 2026

Ferramenta gratuita da Embrapa cria um passaporte digital para soja, café e carne bovina e prepara exportadores para a regra europeia de 2026
Foto: acervo

A Embrapa Trace reúne certificações e dados do produtor em um parecer único, e o prazo do EUDR para grandes e médios exportadores começa em 30 de dezembro de 2026.

Um lote de café, de soja ou de carne bovina que sai de uma propriedade rural e segue para a Europa passa a precisar de algo além da nota fiscal: uma prova verificável de que a origem não está ligada a desmatamento. Para organizar essa prova, a Embrapa disponibiliza a Embrapa Trace, tecnologia digital em formato de API que acompanha o produto da lavoura ou do pasto até o mercado e consolida tudo em um parecer único de conformidade.

A ferramenta conecta as cadeias de soja, café e carne bovina e foi desenvolvida para comprovar a conformidade agroambiental e sanitária do agronegócio. O objetivo é garantir o acesso dos produtos brasileiros a mercados estratégicos e preservar a competitividade das exportações.

Um passaporte digital para cada produto

Segundo a Embrapa Agricultura Digital, a Embrapa Trace padroniza informações autodeclaradas, valida certificações já existentes e reúne as evidências de sustentabilidade e rastreabilidade em um único documento. Para o pesquisador Anderson Alves, da unidade, a lógica é a de um documento de viagem.

“Trata-se de um conjunto de critérios de rastreabilidade por cadeia produtiva, que se conecta ao ElegiAgro e ao TerraClass, outras soluções da Embrapa, para garantir a conformidade agroambiental e a integridade das informações de uso e de cobertura da terra. A Embrapa Trace padroniza informações autodeclaradas, valida e integra certificações existentes, consolidando evidências de sustentabilidade e rastreabilidade em um parecer único de conformidade, como um passaporte digital do produto”, explica Anderson Alves, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP).

Cada etapa da produção pode ser rastreada isoladamente. Com isso, atividades ainda não certificadas podem ser incorporadas ao sistema, e novos protocolos e modelos de controle podem ser construídos para cumprir os requisitos exigidos.

Como o dado percorre a cadeia

Os dados primários de produção são fornecidos pelos agricultores aos operadores, como indústrias, frigoríficos, esmagadoras e cooperativas, que usam a Embrapa Trace para validar o processo. As empresas comercializadoras, os traders, registram origem e destino, para que certificadoras e verificadoras independentes atestem a conformidade.

O fluxo começa com o cadastro da propriedade, dos produtores e das áreas de produção. Em seguida vem o monitoramento das práticas agrícolas e da conformidade agroambiental durante o ciclo produtivo, com registro de origem, volume e data da produção, de modo a assegurar que não haja contaminação por áreas não conformes.

Na pós-produção e na logística, o controle de transporte e armazenamento mantém a segregação e a identidade do produto. Na transformação, o rastreio chega às unidades de processamento, com controle de balanço de massa na produção vegetal e de lotes consolidados na produção animal.

Os relatórios gerados por etapa são acessíveis por QR Code, via tokenização. A Embrapa informa que a tecnologia cria trilhas de auditoria imutáveis por meio de tokens digitais, o que garante segurança da informação e certificação digital, e mantém sob controle nacional os dados da produção agropecuária.

Satélite e elegibilidade no mesmo sistema

A ferramenta usa informações do TerraClass, projeto da Embrapa e do Inpe que traz dados atualizados sobre a dinâmica da cobertura e do uso da terra na Amazônia e no Cerrado. Também se conecta ao ElegiAgro, sistema da Embrapa que automatiza a análise de elegibilidade agroambiental ao cruzar bases cadastrais, fundiárias e geoespaciais.

Para o chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, Stanley Oliveira, a integração evita que cada exigência seja tratada isoladamente.

“Em vez de responder individualmente às exigências de cada comprador ou regulamentação, essa abordagem permite estruturar uma base nacional de informações confiáveis sobre a produção sustentável, o que reduz custos de conformidade, evita duplicidade de esforços e proporciona mais segurança aos produtores, às empresas, ao governo e aos mercados consumidores”, afirma Stanley Oliveira.

O que está em jogo com o EUDR

Segundo a Embrapa, o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR) exige que exportadores comprovem que seus produtos não estão vinculados a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. A regra afeta bovinos, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de derivados. A partir de 30 de dezembro de 2026, grandes e médios exportadores devem comprovar a conformidade com rastreabilidade por geolocalização de cada área.

Para o Pará, que integra a Amazônia e tem a pecuária e a soja entre as cadeias com peso na pauta exportadora, a discussão é direta: o TerraClass, base da ferramenta, cobre justamente o bioma amazônico. Produtores e cooperativas da região tendem a sentir primeiro a exigência de comprovar origem por área.

Integração com a plataforma do governo

A Embrapa Trace estará disponível dentro da Plataforma AgroBrasil Mais Sustentável (AB+S), do Ministério da Agricultura e Pecuária, apresentada como a plataforma oficial do governo brasileiro para a Europa e outros mercados. Também poderá ser acessada pela plataforma AgroAPI, no catálogo de APIs da Embrapa.

Segundo Lara Line de Souza, coordenadora da AB+S, a complementaridade é clara: a AB+S avalia a qualificação socioambiental dos estabelecimentos rurais frente aos requisitos legais e de mercado, enquanto a Embrapa Trace fornece informações sobre a rastreabilidade da produção.

Eduardo Chikusa, chefe da Divisão de Comércio Internacional do Itamaraty, define a rastreabilidade como “a ponte que conecta a sustentabilidade praticada no campo à confiança exigida pelos mercados globais”. Segundo ele, a AB+S reúne informações de bases oficiais, e a rastreabilidade as liga aos fluxos produtivos e logísticos.

Os relatórios também podem fundamentar tecnicamente negociações de abertura de mercados e contestações de barreiras comerciais.

Custo menor para cooperativas

Na cadeia do café, a assessora técnica do Conselho Nacional do Café, Luiza Kreimeier, destaca que a ferramenta facilita a integração de informações, reduz retrabalho e apoia a demonstração de origem e condições de produção. Ela afirma que o conselho incentiva cooperativas a testar soluções e avaliar sua adequação às rotinas.

“A oferta de tecnologias gratuitas e validadas por instituições oficiais faz diferença, pois pode reduzir custos que hoje pesam sobre as cooperativas e acabam sendo repassados ao produtor”, avalia Luiza Kreimeier.

Em breve, a Embrapa Trace incorporará novas cadeias: cacau, madeira, borracha, frango de corte, suínos e pescados da pesca industrial (atum) e da aquicultura (tilápia). A ferramenta também atende ao controle de antimicrobianos na produção animal. Com o prazo europeu de dezembro de 2026 se aproximando, a expansão para cacau, cultura relevante no Pará, e para as demais cadeias deve ser o próximo passo acompanhado pelo setor. Detalhes de cada cadeia estão nas páginas de soja, café e carne bovina.

Com informações de Embrapa.

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