
O veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus) é um cervídeo de ambientes abertos que, no passado, ocupava campos e savanas da América do Sul entre as latitudes de 5 e 41 graus sul, no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, no Uruguai e na Argentina. Hoje suas populações estão restritas a áreas limitadas e isoladas. Segundo a avaliação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), publicada em 2012 na revista Biodiversidade Brasileira por José Maurício Barbanti Duarte, Alexandre Vogliotti e colegas, citando trabalho de Weber e Gonzalez (2003), a área de distribuição da espécie diminuiu 98%.
Um cervídeo de campo aberto, mas com defesas discretas
A espécie é considerada pouco gregária. Mesmo quando abundante, vive em pequenos grupos que raramente passam de cinco ou seis indivíduos, que se formam e se desfazem o tempo todo, com animais circulando livremente entre um grupo e outro, de acordo com o ICMBio. Em estudo numa população relictual em Lapa, no Paraná, publicado em 2000 na Revista Brasileira de Zoologia por Fernanda Góss Braga e colegas, o grupo médio tinha 1,5 animal. O Animal Diversity Web, da Universidade de Michigan, registra que agregações de 50 ou mais podem se formar em locais de alimentação, mas são exceção.
Quando percebe algo perigoso, o veado-campeiro fica com a cabeça erguida, as orelhas em pé e imóvel, pronto para disparar numa grande corrida, descreve o ICMBio. A vida em campo aberto favorece a vigilância, porque o animal enxerga longe, mas o mesmo ambiente o expõe. O Animal Diversity Web acrescenta uma característica pouco comentada: as glândulas entre os dedos das patas traseiras produzem um cheiro forte e persistente, semelhante ao de cebola, que pode ser detectado a até 1,5 quilômetro de distância e talvez funcione como sinal de alerta.
Corpo e chifres
Segundo o Animal Diversity Web, o adulto mede de 110 a 140 centímetros de cabeça e corpo, tem de 70 a 75 centímetros de altura na cernelha e pesa de 30 a 40 quilos. Só os machos têm chifres, que são de três pontas e, conforme o ICMBio, chegam a cerca de 30 centímetros. Os chifres caem todo ano: no Parque Nacional das Emas, em Goiás, a queda ocorre de abril a maio, e no Pantanal, de julho a setembro. Um chifre novo leva em média 30 dias para crescer, coberto por uma pele aveludada que o alimenta e protege até o osso ficar exposto.
Predadores e a estratégia do filhote
Os principais predadores naturais são a onça-pintada e o puma. O graxaim-do-campo, a jaguatirica e o javali podem matar recém-nascidos e animais debilitados, e houve registros de predação por lobo-guará e sucuri no Parque Nacional das Emas, segundo o ICMBio. É no cuidado com o filhote que a espécie tem sua defesa mais bem descrita. A fêmea grávida tende a se isolar do grupo, prepara o local do parto em lugar discreto e permanece afastada por vários dias depois do nascimento, período em que fica mais vulnerável. O filhote é mantido escondido e mama em intervalos frequentes.
A proteção contra predadores é feita por despistamento. Quando um possível perigo se aproxima, o filhote permanece deitado e oculto na vegetação, enquanto a fêmea se desloca para o lado oposto, olhando só de vez em quando na direção onde ele está. O desmame ocorre por volta dos quatro meses. A gestação dura cerca de sete meses, o Animal Diversity Web fala em aproximadamente 213 dias, e a espécie geralmente tem um filhote por vez. Na região central do Brasil, a maioria dos nascimentos ocorre de agosto a novembro, e no Pantanal de agosto a outubro, época que coincide com maior oferta de alimento.
Caça: um animal fácil de se aproximar
Diante da caça, o veado-campeiro leva desvantagem. Segundo o ICMBio, a espécie é particularmente suscetível à caça por ter atividade basicamente diurna, viver em ambientes abertos e permitir aproximação com facilidade. Somente algumas populações muito perseguidas se tornam arredias, e na maioria delas um movimento cauteloso em direção aos animais permite chegar a 10 ou 30 metros. A pressão vem da caça esportiva, da caça de subsistência e do abate motivado por crenças que associam partes do corpo do animal a propriedades curativas.
O que mais ameaça a espécie
A perda de habitat é apontada como um dos principais fatores de declínio. Segundo o ICMBio, a fragmentação das populações está ligada ao uso extensivo de áreas para pecuária e agricultura, principalmente soja e cana-de-açúcar, e a projetos florestais com pinus e eucalipto. Há ainda doenças transmitidas por animais domésticos. As orbiviroses, como a língua-azul e a doença epizoótica hemorrágica, podem causar até 90% de mortalidade em cervídeos de cativeiro que entram em contato com o vírus. A criação de ovelhas é citada como fator negativo por competição alimentar e por transmissão de doenças, enquanto o gado bovino parece limitar menos a presença do veado.
No sul do Brasil a situação é crítica. A maior população estudada no Paraná tinha cerca de 70 indivíduos, com 34 mortes registradas ao longo do estudo, e os autores da avaliação apontam como fatores a conversão de campos em pecuária, agricultura e pinus, o atropelamento e a caça. Nos campos de Santa Catarina, os registros são relictuais.
Quantos são e em que categoria estão
A estimativa para a subespécie do Pantanal (O. b. leucogaster) é de cerca de 40.000 animais, segundo a avaliação do ICMBio, que considerou a subespécie vulnerável pelo risco de queda futura superior a 30% em 15 anos. A subespécie do Cerrado (O. b. bezoarticus) também foi classificada como vulnerável. Os dados mais sólidos vêm do Parque Nacional das Emas, onde foram estimados 800 animais, ou 0,6 por quilômetro quadrado, em 1996, e entre 1.000 e 1.300 em 2000. A espécie esteve na lista oficial de ameaçadas de 1989, saiu dela em 2003 por causa da descoberta de novas populações e voltou a ser considerada vulnerável na avaliação de 2012.
Em escala mundial, a IUCN classifica o veado-campeiro como quase ameaçado, avaliação de Gonzalez e Merino (2008), com tendência de declínio. A espécie está no Apêndice I da CITES e é considerada criticamente em perigo nos estados do Rio Grande do Sul, do Paraná e de São Paulo. Em resumo, o veado-campeiro não se destaca por enfrentar caçadores com astúcia, mas por depender de campos abertos que estão sendo convertidos, e a conservação passa por proteger esses campos, controlar a caça e reduzir o contato com doenças do gado.
Leia mais artigos aqui Conheça também – Revista Para+
Câmera na floresta de Rondônia registra dois tatus-canastra machos brigando por 34 minutos, cena raríssima do maior tatu do mundo
Lobo-guará, bicho típico do Cerrado, é flagrado pela primeira vez na mata fechada da parte baixa do Parque Nacional do Itatiaia
Quati morde? O que ele come, por que anda em bando e por que nunca se deve dar comida aos quatis de parques e cidadesGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














