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Sururu some dos rios do Recife, aumenta o tempo de pesca e ameaça renda de marisqueiras sem defeso

Sururu some dos rios do Recife, aumenta o tempo de pesca e ameaça renda de marisqueiras sem defeso
Foto: Arnaldo Sete/Marco Zero

Poluição, assoreamento, mudanças climáticas e pesca sem pausa reduzem o marisco e pressionam comunidades tradicionais.

Encontrar sururu nos estuários do Recife já exige horas de procura, deslocamentos para áreas mais distantes e mergulhos em pontos onde antes bastava uma curta caminhada. A redução do marisco atinge diretamente pescadoras da Ilha de Deus, do Bode, de Brasília Teimosa e de outras comunidades, que perderam parte da renda e passaram a recolher mais lixo do que alimento.

Na Ilha de Deus, Cíntia Alves, de 49 anos, lembra que criou sozinha os dois filhos com o dinheiro obtido na maré. Ela pescava até durante a gravidez do segundo filho. Hoje, afirma que a atividade deixou de garantir o sustento da família e que o sururu praticamente desapareceu da comunidade.

Da coleta na Ilha de Deus à busca depois das pontes

Para encontrar o marisco, os pescadores precisam seguir para áreas depois da Ponte do Pina, nos arredores da escultura de Francisco Brennand, na Ponte do Limoeiro ou mesmo em direção a Olinda. A mudança no mapa da pesca alterou também o tempo e o custo do trabalho.

Juliana Maria dos Santos, de 45 anos, começou a pescar aos sete anos, acompanhando os pais. No fim de julho, contou ter conseguido apenas dois quilos de sururu depois de uma jornada na maré. “Está um bolinho aqui, um bolinho ali. Não é mais como antigamente”, relatou.

A pescadora diz que passa duas ou três horas procurando os pontos onde ainda há concentração do marisco. O produto tem saída rápida, mas o retorno é baixo. Quando o sururu está magro, uma galé cheia rende aproximadamente três quilos de massa limpa. Desse volume, cerca de R$ 30 ficam com quem fez a coleta, enquanto o quilo chega ao consumidor por valores entre R$ 25 e R$ 30.

O estuário mudou, mas as causas se acumulam

Segundo a oceanógrafa Mônica Costa, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco, a variação na quantidade de sururu não depende de um único fator. Na bacia do Pina, pelo menos 12 causas atuam ao mesmo tempo, entre elas a falta de saneamento, o lixo, o assoreamento, a retirada de exemplares pequenos, o aquecimento da água e a alteração no regime de chuvas.

Segundo pesquisadores da UFPE, a escassez relatada pelas comunidades pesqueiras do Recife resulta da combinação de alterações ambientais e pressão econômica sobre a pesca artesanal, problema observado de forma recorrente nos estuários locais ao longo dos anos.

Sururu some dos rios do Recife, aumenta o tempo de pesca e ameaça renda de marisqueiras sem defeso
Foto: Arnaldo Sete/Marco Zero

Para Gilberto Rodrigues, biólogo e professor de ecologia da UFPE, o sururu depende de um equilíbrio entre os períodos dentro e fora da água. Submerso, alimenta-se e cresce. Quando fica exposto, realiza processos metabólicos necessários à sua sobrevivência. Mudanças no ciclo das chuvas e no assoreamento podem prolongar qualquer uma dessas fases e prejudicar o desenvolvimento do animal.

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que as marisqueiras encontram cada vez menos exemplares grandes. “Não se pega mais sururu gordo”, resume o pesquisador.

O que o assoreamento revela sobre o Capibaribe

O acúmulo de sedimentos não começa apenas na parte baixa do rio. A erosão das margens e a ausência de mata ciliar transportam terra para a bacia do Capibaribe, alterando gradualmente a profundidade e as condições do estuário.

Mônica Costa afirma que dragagens pontuais não bastam para recuperar o sistema. A solução técnica é conhecida, mas exige ações integradas desde a nascente, em Poção, até a área estuarina do Recife. Como o processo ultrapassa mandatos municipais e estaduais, a pesquisadora defende uma política pública de longo prazo.

O alerta interessa também a comunidades costeiras e ribeirinhas da Amazônia. A experiência do Recife mostra como saneamento precário, lixo, erosão, perda de vegetação nas margens e mudanças no clima podem atingir simultaneamente o ambiente e a renda de quem depende da coleta de organismos aquáticos. O caso não autoriza transportar números para os rios amazônicos, mas oferece uma referência concreta sobre os riscos de ignorar sinais dados diariamente pelos pescadores.

Sem estatística regular, o tamanho da crise fica oculto

Nenhum órgão público registra quanto sururu é retirado dos estuários recifenses. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem publicação, e o painel lançado pelo Ministério da Pesca em 2025 não contabiliza adequadamente os mariscos coletados em rios urbanos.

A falta de dados dificulta a criação de políticas específicas. Sem uma série histórica sobre volume, tamanho dos animais, locais de coleta e renda das famílias, torna-se mais difícil medir a velocidade da queda e definir períodos de proteção.

Sururu some dos rios do Recife, aumenta o tempo de pesca e ameaça renda de marisqueiras sem defeso
Foto: Arnaldo Sete/Marco Zero

O projeto Rede Maris, financiado pelo CNPq e articulado por universidades do Nordeste, acompanha essa realidade. A pesquisa de campo na Ilha de Deus ocorreu entre agosto de 2025 e julho de 2026. Ana Mirtes Ferreira, pescadora e estudante de biologia que participou do trabalho, relata que a mesma quantidade antes obtida em cerca de uma hora passou a exigir três ou quatro horas.

A pesquisa também identificou uma consequência geracional. Muitos pescadores e pescadoras não querem transmitir o ofício aos filhos. O motivo não é vergonha, mas a combinação de baixa remuneração, falta de valorização, acidentes com vidro, garrafas e materiais hospitalares e dificuldade de reconhecimento desses danos pela Previdência Social. O estudo completo está previsto para o início de 2027.

Pescar menos exige uma renda para sobreviver

Outro ponto de pressão é a sobrepesca. Pescadores antigos afirmam que aumentou o número de pessoas que entram na maré sem conhecer os ciclos do animal ou o tamanho adequado para a retirada. A captura de mariscos pequenos reduz a possibilidade de reprodução e reposição dos bancos naturais.

Nas comunidades, existia a prática de deixar uma área descansar enquanto outro ponto era explorado. O conhecimento tradicional permitia alternar os locais. Hoje, pescadoras relatam que os bancos diminuíram em todos os pontos conhecidos.

A dificuldade de interromper a atividade é econômica. O sururu se reproduz durante todo o ano, com maior intensidade no período chuvoso, justamente quando a produção tende a cair. Sem uma renda substituta, a recomendação para não pescar pode significar falta de comida e de dinheiro.

As lideranças defendem a criação de um defeso específico para o sururu, com pagamento de benefício durante os meses de menor produção. A comparação é feita com a lagosta, cuja paralisação é acompanhada de seguro pago pelo governo federal.

Em Pernambuco, pescadores artesanais podem receber o Chapéu de Palha, programa estadual que paga até R$ 387,94 em até cinco parcelas. Para beneficiários do Bolsa Família, o valor informado pelo governo estadual é de R$ 150. As marisqueiras consideram a quantia insuficiente para manter uma casa durante o período de baixa.

O desaparecimento do sururu, portanto, não é apenas uma questão ambiental. É também uma crise de trabalho, alimentação, saúde e continuidade cultural. As próximas etapas dependem da publicação da pesquisa Rede Maris e da transformação dos diagnósticos em medidas permanentes de saneamento, recuperação da bacia, proteção dos bancos naturais e segurança de renda.

Com informações de Marco Zero Conteúdo.

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