
Por mais de um século, cientistas tentaram reconstruir a biologia do Tyrannosaurus rex a partir de ossos, dentes e pegadas. Uma pergunta antiga era se ele tinha sangue quente, como as aves, ou dependia do sol para se aquecer, como a maioria dos répteis. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) fizeram algo que parecia impossível: mediram a temperatura do dinossauro.
O resultado, publicado em setembro na revista científica Science Advances, indica que o T. rex mantinha uma temperatura corporal de cerca de 36 °C, muito perto da humana.
Termômetro no esmalte
O segredo está em ligações químicas microscópicas preservadas no esmalte dos dentes. Isótopos raros de carbono e oxigênio podem se ligar dentro do esmalte, e a frequência dessas ligações depende da temperatura em que o dente se formou: em temperaturas mais baixas se formam mais ligações, em temperaturas mais altas, menos. Medindo essa proporção, dá para estimar a temperatura do corpo.
A equipe criou o método há cerca de uma década, mas a primeira versão exigia mais material do que um museu aceitaria sacrificar de um fóssil tão valioso. Ao longo dos anos, os pesquisadores reduziram em cerca de 90% a quantidade necessária. Isso convenceu o Museu de História Natural do Condado de Los Angeles a ceder pequenas porções de dois dentes de Thomas, o tiranossauro mais completo exposto no salão de dinossauros do museu.
Entre o réptil e a ave
Segundo o geobiólogo Robert Eagle, coautor do estudo, ninguém tinha conseguido fazer uma medição assim antes. Os 36 °C são mais altos que os de um réptil ou de um mamífero lento como a preguiça, e mais baixos que os de uma ave.
Répteis de sangue frio atuais costumam ficar entre 28 °C e 30 °C. As aves, descendentes dos dinossauros, chegam a 40 °C a 43 °C. O T. rex continuava sendo um réptil com escamas que botava ovos, mas sua temperatura estava muito mais próxima da de um mamífero de sangue quente.
Um predador ativo
O achado reforça a imagem do T. rex como um predador ou necrófago ativo, de metabolismo relativamente rápido, e não um animal lento que passava horas tomando sol. A capacidade de gerar e controlar o próprio calor também ajuda a explicar como tiranossauros viveram em regiões frias, como o Alasca, onde há fósseis do grupo, inóspitas para muitos répteis.
Dinossauros brasileiros
O mesmo tipo de análise pode, no futuro, ser aplicado a dinossauros de outras partes do mundo, inclusive do Brasil, onde dentes de carnívoros são fósseis relativamente comuns em sítios do Maranhão, de Minas Gerais e de São Paulo. Saber a temperatura de diferentes grupos ajuda a entender como o sangue quente evoluiu ao longo da linhagem que levou às aves.
Perguntas frequentes
O T. rex tinha sangue quente?
O estudo indica temperatura corporal de 36 °C, compatível com um metabolismo ativo, mais próximo do de mamíferos do que do de répteis atuais.
Como se mede a temperatura de um fóssil?
Pela proporção de ligações entre isótopos raros de carbono e oxigênio no esmalte dos dentes, que depende da temperatura do corpo.
Com informações da Universidade da Califórnia em Los Angeles e do estudo publicado na Science Advances.
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