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Tovaca-de-baturité: nova ave do Ceará mais anda que voa

Tovaca-de-baturité: nova ave do Ceará mais anda que voa
Foto: diariodonordeste.verdesmares.com.br

Espécie endêmica da Serra de Baturité pode ter menos de 100 indivíduos e já exige ações urgentes de proteção.

Pesquisadores reconheceram uma nova espécie de ave exclusiva do Ceará, a tovaca-de-baturité, encontrada em áreas de floresta na Serra de Baturité, entre Guaramiranga e Pacoti. O animal vive principalmente no solo, caminha mais do que voa, canta no início das manhãs e pode ter uma população inferior a 100 indivíduos, segundo estimativas preliminares dos cientistas. A descoberta coloca a espécie entre as mais raras do Brasil e aumenta a urgência pela proteção do habitat onde ela ocorre.

Uma ave exclusiva do Ceará

A tovaca-de-baturité é considerada a segunda espécie de ave endêmica do Ceará. Isso significa que, em condições naturais, ela não é encontrada em nenhum outro estado ou país. A primeira é o soldadinho-do-araripe, conhecido por ocorrer na região da Chapada do Araripe.

A nova espécie pertence a um grupo de aves que, até pouco tempo, era identificado como tovaca-campainha. Essa espécie ocorre em áreas da Mata Atlântica ao sul do rio São Francisco, passando pelo sul da Bahia, Sudeste e Sul do Brasil, além de regiões da Argentina e do Paraguai.

Os pesquisadores perceberam que as aves da Serra de Baturité apresentavam diferenças na coloração da testa e, principalmente, no canto. Análises tradicionais e ferramentas de aprendizagem de máquina mostraram que a vocalização da população cearense se distancia de forma significativa daquela registrada em outras regiões.

Entenda o caso

A presença da tovaca na Serra de Baturité era conhecida há décadas. Exemplares coletados no início dos anos 1940 estão preservados no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, mas eram considerados iguais às populações da Mata Atlântica.

Em 1992, o ornitólogo Edwin O. Willis chamou atenção para diferenças morfológicas nos exemplares cearenses. A investigação ganhou força em 2024, quando pesquisadores começaram a comparar as vocalizações da tovaca-campainha em diferentes pontos de sua distribuição.

O estudo taxonômico, responsável por avaliar as diferenças entre populações e definir a classificação dos animais, foi conduzido de maneira detalhada a partir de janeiro de 2025. O processo exigiu observação de campo, comparação de espécimes e análise dos cantos.

Canto raro e vida no chão da floresta

A tovaca-de-baturité é uma ave cursorial. Na prática, isso significa que ela se desloca com frequência pelo chão da mata e não depende do voo para suas atividades cotidianas. A característica ajuda a explicar as pernas compridas e o comportamento discreto.

A espécie tem plumagem marrom no dorso, ventre esbranquiçado com estrias longitudinais, sobrancelha clara e cauda curta. Ela busca insetos e outros alimentos entre as folhas acumuladas no solo, conhecidas como serrapilheira.

O canto é uma das marcas mais importantes do animal. A vocalização reúne centenas de notas ascendentes, que terminam em uma sequência acelerada semelhante a um coaxo. O som costuma ser ouvido no começo da manhã, quando a floresta ainda está escura, mas a ave é difícil de observar porque permanece em áreas fechadas e de pouca luz.

Segundo a Universidade Estadual do Ceará, a tovaca-de-baturité foi identificada em apenas duas áreas da Serra de Baturité, em uma faixa de floresta entre Guaramiranga e Pacoti, no Ceará, em 2026. A estimativa de menos de 100 indivíduos ainda é preliminar e precisa ser confirmada por levantamentos específicos.

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População pode estar entre as menores do país

Os pesquisadores ainda não sabem quantas aves existem na natureza, há quanto tempo a população está isolada ou qual é o grau de parentesco entre os exemplares cearenses e as tovacas do Sul e do Sudeste. Para responder a essas perguntas, será necessário realizar análises genéticas.

O biólogo Marco Aurélio Crozariol, curador da coleção de Aves do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, afirma que ainda há poucas informações sobre os hábitos da espécie. A área de ocorrência muito restrita, porém, já é motivo de preocupação.

“É provável que, por ocorrer em área extremamente restrita, possa ser considerada ameaçada de extinção”, afirmou Vagner Cavarzere, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista.

A classificação oficial do risco de extinção depende de estudos que estimem a população, avaliem a qualidade do habitat e identifiquem ameaças como caça, desmatamento e abertura de estradas. Até que essas informações sejam produzidas, os pesquisadores defendem a preservação integral das áreas onde a ave foi registrada.

Desmatamento e especulação imobiliária preocupam

A tovaca-de-baturité evita ambientes muito iluminados. Por isso, a retirada de árvores pode alterar rapidamente as condições da floresta e fazer com que a espécie abandone o local. A abertura de estradas e a construção de imóveis na Serra de Baturité são apontadas como riscos para a continuidade do habitat.

Parte da área de ocorrência está inserida no Parque Estadual do Pico Alto. Segundo os pesquisadores, ainda não existe um plano de manejo para orientar de forma detalhada a proteção do território. O documento poderia estabelecer zonas prioritárias, regras de uso e medidas para reduzir impactos sobre a fauna e a vegetação.

O Museu de História Natural do Ceará e a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos, a Aquasis, mantêm bases de pesquisa na Serra de Baturité. As instituições já possuem observações sobre a ave, mas apontam a falta de recursos como uma barreira para ampliar o trabalho de campo.

Descoberta pode fortalecer o turismo de natureza

O reconhecimento da nova espécie também pode trazer oportunidades para a economia local, desde que o turismo seja planejado. Observadores de aves costumam viajar para encontrar animais raros e endêmicos, o que pode movimentar serviços de hospedagem, alimentação, guias e transporte em municípios da serra.

Para os cientistas, a divulgação deve ocorrer junto com regras de visitação. A procura desordenada por uma ave tão restrita pode causar ruído, abertura de trilhas e aproximação excessiva dos ninhos. A prioridade, portanto, é proteger a floresta antes de transformar a tovaca em atração turística.

A existência da espécie também reforça a importância das florestas úmidas do Nordeste. O isolamento da ave na Serra de Baturité indica que, em períodos passados, houve conexões entre áreas florestais hoje separadas por regiões mais secas, inclusive na Amazônia e em outros remanescentes de vegetação do Nordeste.

Os próximos passos são estimar o tamanho da população, realizar análises genéticas, mapear novas áreas de ocorrência e criar medidas de proteção para o habitat no Parque Estadual do Pico Alto.

Perguntas frequentes

Onde vive a tovaca-de-baturité?
A espécie foi registrada em áreas de floresta da Serra de Baturité, entre os municípios de Guaramiranga e Pacoti, no Ceará.

Por que ela “mais anda do que voa”?
A ave é cursorial, ou seja, passa boa parte do tempo caminhando pelo solo da floresta em busca de alimento.

Quantos indivíduos existem?
Os pesquisadores estimam, de forma preliminar, que haja menos de 100 indivíduos na natureza. O número ainda precisa ser confirmado por estudos de campo.

Com informações da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Estadual Paulista.

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