
O corpo desenhado há centenas de milhões de anos ajuda a explicar por que esses animais atravessaram todos os desastres globais conhecidos.
Se um tubarão pudesse contar a própria história, ele falaria de um mundo sem árvores, sem dinossauros e sem flores. Os tubarões surgiram há cerca de 450 milhões de anos, e isso os torna mais antigos do que boa parte do que conhecemos, da vegetação das florestas ao Sol que a ilumina como parte de uma volta galáctica ainda em curso.
Segundo a revista Popular Mechanics, em reportagem atualizada em agosto de 2025, os tubarões apareceram no fim do período Ordoviciano e atravessaram cinco extinções em massa com um plano corporal que mudou pouco.
Um planeta quase alienígena
O Ordoviciano era um mundo muito estranho. Os mares estavam repletos de trilobitas, crinoides, briozoários parecidos com musgo e cefalópodes com concha. As plantas terrestres tinham acabado de sair da água, e os continentes que formariam o supercontinente Gondwana começavam a se mover.
As primeiras árvores só surgiriam entre 30 e 100 milhões de anos depois dos tubarões. As plantas com flores demorariam mais uns 230 milhões de anos para florescer.
Os dinossauros também chegaram tarde: só começaram a andar pela Terra no Triassico, há cerca de 243 milhões de anos. Já nossa espécie caminha por aqui há uns 300 mil anos, ou seja, os tubarões são mais de mil vezes mais velhos que nós.
Mais velhos que os anéis de Saturno
A comparação ultrapassa o planeta. Os tubarões evoluíram antes dos anéis de Saturno, do aglomerado das Plêiades, de incontáveis exoplanetas e da Estrela do Norte.
Nesse período, o Sistema Solar completou duas voltas inteiras ao redor do centro da Via Láctea.
Como passaram por cinco extinções
A pior delas, a extinção do fim do Permiano, conhecida como a Grande Mortandade, eliminou 96% da vida marinha. Gases vulcânicos sulfurosos acidificaram os oceanos, e o oxigênio da água despencou. Ainda assim, os tubarões seguiram firmes.
A explicação está na adaptabilidade. Eles vivem em águas rasas, em profundezas escuras e em tudo o que há entre uma coisa e outra. Quando faltava oxigênio em um lugar, migravam para áreas mais oxigenadas e ocupavam outros nichos. Se uma presa desaparecia, caçavam outra. O mesmo jeito flexível ajudou a enfrentar o asteroide de Chicxulub, que encerrou a era dos dinossauros não avianos.
Um projeto corporal que deu certo
Os tubarões mudaram ao longo do tempo, mas o protótipo que lhes deu vantagem veio cedo. O esqueleto é feito só de cartilagem, bem mais leve que osso. Isso dá mais flutuabilidade e exige menos energia para nadar do que a de peixes ósseos, que tendem a afundar.
A pele é coberta por dentículos dérmicos, placas duras e sobrepostas que reduzem o atrito com a água. Já as mandíbulas e os dentes permitem devorar presas maiores que o próprio animal, o que diminui a frequência das refeições.
Não são os únicos veteranos
Outros bichos também mudaram pouco. Os crocodilianos quase não se alteraram em mais de 200 milhões de anos, e fósseis antigos lembram muito as espécies atuais. O tuatara, réptil da Nova Zelândia muitas vezes confundido com lagarto, é parecido com o de 190 milhões de anos atrás. Celacantos e náutilos também são remanescentes de mares pré-históricos.
A lógica é simples: se um plano corporal continua funcionando, ele pode até evoluir, mas permanece quase igual.
Indivíduos que quase tocam 400 anos
Há ainda a longevidade de cada animal. O tubarão-da-groenlândia mais velho estudado, em 2016, já tinha quase 400 anos. Se andasse em terra firme, lembraria de Shakespeare. É o vertebrado mais velho conhecido, e provavelmente já passou dos 400.
E na Amazônia?
A região não é vizinha dos tubarões-da-groenlândia, que habitam águas geladas do Atlântico Norte. Mas o litoral amazônico, do Pará ao Amapá, abriga tubarões marinhos, e alguns deles entram em águas salobras de estuários. Eles compartilham o mesmo corpo de cartilagem e a mesma herança de centenas de milhões de anos. Preservar mangues e a costa amazônica é, na prática, proteger a continuidade de uma linhagem que sobreviveu a todos os desastres globais conhecidos, mas que hoje enfrenta pressões bem diferentes, como a pesca e a perda de habitat.
Novos estudos de fósseis e de datação de animais longevos devem seguir refinando essa linha do tempo nos próximos anos.
Com informações de Popular Mechanics.
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