
Estudo da Embrapa encontrou 53 espécies associadas às lavouras e relacionou biodiversidade à produtividade.
O que pode estar escondido entre as flores de uma lavoura de soja? Um estudo liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia registrou 27 novas espécies de abelhas nativas associadas à cultura no Brasil. A pesquisa foi realizada em propriedades rurais de Rio Verde e Montividiu, no sudoeste de Goiás, e mostrou que áreas de soja e fragmentos de Cerrado próximos reuniam 53 espécies, além de indicar que a presença desses polinizadores pode elevar, em média, 7% o peso dos grãos.
Um mapa mais completo dos polinizadores
Antes do levantamento, revisões científicas citavam apenas 12 espécies de abelhas nativas relacionadas, de alguma forma, às flores da soja no território brasileiro. A nova pesquisa amplia esse inventário e revela que a paisagem agrícola pode ser mais diversa do que sugerem levantamentos baseados em observações rápidas.
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Do total, 89% dos exemplares pertenciam a espécies nativas brasileiras. Os outros 11% eram da espécie exótica Apis mellifera, conhecida por formar colmeias e produzir mel. O resultado reforça que a polinização em áreas agrícolas não depende apenas das abelhas criadas comercialmente.
O papel do Cerrado perto das lavouras
Os fragmentos de vegetação nativa funcionam como abrigo, área de alimentação e local de reprodução para os polinizadores. Segundo a Embrapa, quanto maior a distância entre a lavoura e essas áreas preservadas, menor tende a ser a riqueza e a abundância de abelhas observadas nas flores da soja.
Segundo a Embrapa, a pesquisa foi realizada em propriedades de Rio Verde e Montividiu, em Goiás, e registrou 53 espécies de abelhas em lavouras de soja e fragmentos de Cerrado no entorno.
Essa conclusão também ajuda a compreender um desafio comum a diferentes regiões brasileiras. Na Amazônia, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, a manutenção de áreas nativas próximas às zonas produtivas pode ser decisiva para conservar polinizadores e outros organismos úteis. Os dados do estudo, porém, são específicos do Cerrado goiano e não devem ser extrapolados automaticamente para todos os ambientes amazônicos.
Entenda o caso
A pesquisa integra o projeto Regenera Cerrado, desenvolvido pela Embrapa em parceria com produtores rurais e a empresa Cargill. O objetivo é avaliar como práticas de agricultura regenerativa influenciam a saúde do solo, o controle biológico de pragas e a biodiversidade nas áreas de produção de soja.
Participaram também pesquisadores da Universidade de Brasília, da Universidade Federal da Bahia e do Instituto Federal Goiano, Campus Rio Verde. O material divulgado não informa o título completo do artigo científico nem a revista em que o estudo foi publicado. [CHECAR]
Manejo pode mudar a diversidade
Além da distância dos fragmentos nativos, o tipo de manejo apareceu como um fator importante. Áreas com uso mais intenso de inseticidas e fungicidas químicos apresentaram comunidades menos equilibradas, concentradas em poucas espécies aparentemente mais resistentes às condições de estresse.
“Uma área altamente pulverizada com químicos pode apresentar um número elevado de insetos na contagem rápida, mas quase todos pertencem a uma única espécie resistente. Funcionalmente, a lavoura torna-se um ‘deserto de biodiversidade’, vulnerável e dependente de intervenções artificiais constantes”, explica Carmen Pires, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.
Por isso, contar simplesmente quantas abelhas aparecem em uma propriedade não é suficiente para avaliar a saúde ambiental do local. A variedade de espécies, a presença de abrigos e a capacidade de os insetos permanecerem na paisagem entre uma safra e outra também entram nessa análise.
Bioinsumos e solo protegido
O estudo identificou comunidades mais diversificadas em propriedades que utilizavam bioinsumos para fertilização do solo e controle biológico de pragas. A agricultura regenerativa também foi associada à redução do revolvimento da terra e à preservação da cobertura vegetal.
Esse cuidado é especialmente relevante porque cerca de 60% das espécies identificadas constroem os ninhos diretamente no solo. Quando o terreno é revolvido com frequência ou recebe produtos que afetam esses abrigos, a sobrevivência das abelhas pode ser prejudicada antes mesmo do início da próxima floração.
“Sem tratores desfazendo seus abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra, prontas para polinizar a próxima floração”, afirma Carmen Pires.
Outro dado chama atenção: 44,7% das espécies registradas tinham hábito solitário. Diferentemente das abelhas manejadas em colmeias, esses insetos dependem diretamente das condições ambientais existentes na propriedade, como disponibilidade de alimento, abrigo e locais adequados para fazer o ninho.
Armadilhas coloridas encontraram mais espécies
A forma de coleta também influenciou o resultado. As chamadas pan traps, armadilhas coloridas instaladas nas áreas de pesquisa, responderam por 95% das capturas e registraram 33 espécies. Já as redes entomológicas identificaram sete espécies.
A diferença indica que métodos tradicionais podem subestimar a biodiversidade presente nas lavouras. Para a pesquisadora Carmen Pires, os resultados mostram que conservar polinizadores não é apenas uma medida ambiental, mas também uma estratégia relacionada à produção e à segurança alimentar.
Os próximos passos envolvem ampliar o conhecimento sobre a relação entre manejo, vegetação nativa, presença de abelhas e rendimento agrícola em diferentes paisagens produtoras do país.
Perguntas frequentes
Quantas espécies de abelhas foram encontradas?
Ao todo, foram identificadas 53 espécies em áreas de soja e fragmentos de vegetação nativa no entorno. Dessas, 27 representam novos registros associados às flores da soja no Brasil.
As abelhas aumentam a produtividade da soja?
O estudo apontou que a presença desses polinizadores pode aumentar, em média, 7% o peso dos grãos. O resultado está relacionado às áreas analisadas e não significa que o mesmo percentual se aplique a toda lavoura brasileira.
Como proteger as abelhas nativas?
Preservar fragmentos de vegetação nativa, reduzir o revolvimento do solo, manter cobertura vegetal e adotar manejo cuidadoso de defensivos são medidas apontadas como favoráveis à conservação desses insetos.
Com informações de Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.
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