
Chamado de joule thief, o circuito usa indução eletromagnética para transformar a carga restante em luz.
Uma pilha que já fez a lanterna apagar ainda pode guardar energia suficiente para produzir luz por vários dias. A demonstração foi feita pelo professor de física Rhett Allain, da Southeastern Louisiana University, que usou uma única bateria de 1,5 volt para acender um LED projetado para funcionar com cerca de 3 volts. O resultado depende de um circuito simples, chamado joule thief, capaz de elevar a tensão e aproveitar a carga que normalmente seria descartada.
A experiência, publicada pela WIRED em 18 de agosto de 2026, mostra por que uma bateria “morta” não está realmente vazia. Ela ainda contém energia química e mantém alguma tensão, mas esse nível já não é suficiente para fazer a corrente atravessar determinados componentes, como uma lâmpada ou um LED. O circuito cria uma espécie de atalho físico para extrair parte desse restante.
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Em uma lanterna tradicional, a bateria fornece corrente para a lâmpada. No modelo com filamento de tungstênio, a eletricidade aquece um fio extremamente fino até ele brilhar. O filamento pode atingir aproximadamente 4.500 graus Fahrenheit, ou cerca de 2.480 graus Celsius, antes de emitir a luz visível.
Conforme a bateria perde carga, sua tensão diminui. A corrente também cai e chega um momento em que o filamento não aquece o suficiente para continuar brilhando. Mesmo depois de a luz apagar, porém, ainda há energia armazenada na pilha. Se o circuito permanecer fechado, essa energia pode continuar sendo consumida sem produzir um resultado visível.
Os LEDs funcionam de outra maneira. Eles não precisam aquecer um filamento, mas dependem de uma diferença mínima de energia para emitir luz. Um LED branco costuma exigir aproximadamente 3 volts, enquanto uma pilha AA oferece 1,5 volt. Por isso, lanternas simples geralmente usam duas pilhas ou deixam de funcionar quando a tensão combinada cai abaixo desse limite.

O transformador faz a tensão subir
O primeiro segredo do joule thief é o transformador. Esse componente tem duas bobinas de fio enroladas em torno de um núcleo comum, normalmente feito de material capaz de intensificar o campo magnético. As bobinas não ficam em contato elétrico direto, mas conseguem trocar energia por meio do magnetismo.
Esse fenômeno é explicado pela lei da indução de Faraday. Quando o campo magnético que atravessa uma bobina muda, uma tensão é induzida na outra. O ponto importante é a mudança. Um campo magnético parado não produz continuamente uma nova tensão, mas ligar ou desligar rapidamente a corrente provoca pulsos elétricos.
O número de voltas em cada bobina também interfere no resultado. Com mais voltas no enrolamento secundário, é possível obter uma tensão maior do que a fornecida inicialmente pela bateria. Essa transformação não cria energia do nada. Ela troca intensidade de corrente por tensão e sempre envolve perdas, mas permite que um componente de baixa tensão alcance temporariamente o nível necessário para acender o LED.
O transistor transforma a corrente em pulsos
Para que o transformador funcione, a corrente na bobina principal precisa ser interrompida e retomada muitas vezes por segundo. É aí que entra o transistor, um componente que pode ser entendido como uma válvula eletrônica. Um pequeno sinal elétrico controla a passagem de uma corrente maior, ligando e desligando o circuito em sequência.
No joule thief, essa comutação cria uma corrente oscilante. A bateria começa a alimentar a bobina primária, que produz um campo magnético. A mudança desse campo gera um pulso na bobina secundária. Esse pulso influencia o transistor e interrompe a corrente principal. Quando o campo magnético colapsa, outro pulso é produzido, e o ciclo recomeça.

Segundo a WIRED, o transistor alterna a corrente milhares de vezes por segundo no circuito apresentado por Allain, fazendo o transformador produzir picos de tensão capazes de alcançar cerca de 3 volts na saída. É essa sucessão de pulsos que permite acender um LED com uma única pilha de 1,5 volt.
Uma luz pequena que continua por dias
Na demonstração, o circuito montado pelo professor usava uma única bateria AA e um LED. Quando a fotografia foi registrada, a luz já permanecia acesa continuamente havia vários dias. Ela continuaria funcionando até que a pilha perdesse praticamente toda a capacidade de fornecer energia.
O nome joule thief, ou “ladrão de joules”, é uma brincadeira com a ideia de roubar a energia que sobrou. Joule é a unidade usada para medir energia. Na prática, o circuito não rouba nada: ele reorganiza a forma como a energia da bateria é entregue, elevando a tensão em troca de uma corrente menor e do consumo gradual da carga restante.
O efeito é especialmente interessante porque revela uma diferença entre tensão e energia. Uma pilha pode não alcançar a tensão necessária para alimentar diretamente um dispositivo, mas ainda conservar energia química suficiente para uma aplicação de menor potência. O circuito elevador permite que essa energia seja utilizada de maneira mais eficiente.
Da experiência caseira aos equipamentos reais
Embora a montagem experimental tenha aparência de laboratório improvisado, a mesma lógica aparece em produtos comerciais. Lanternas de bolso mais sofisticadas podem usar um conversor elevador, conhecido em inglês como boost converter, instalado em uma pequena placa eletrônica. Assim, o equipamento consegue alimentar um LED com uma única bateria.

Conversores desse tipo também são usados em sistemas de energia solar. Em um dia nublado, os painéis podem produzir uma tensão inferior à exigida por uma bateria. Um sistema pode receber, por exemplo, cerca de 10 volts dos painéis e precisar carregar uma bateria de 12 volts. O conversor aumenta a tensão para permitir o armazenamento da eletricidade.
Essa aplicação ajuda a aproximar a experiência do cotidiano amazônico. Em comunidades isoladas do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia e Tocantins, sistemas solares com baterias dependem de componentes que aproveitem ao máximo a energia produzida. A física do joule thief não resolve sozinha os desafios de geração, armazenamento e manutenção, mas o princípio dos conversores elevadores está presente em soluções que mantêm luzes e equipamentos funcionando quando a produção solar varia.
O que a experiência ensina sobre desperdício
O circuito também funciona como uma aula prática sobre eficiência. Uma bateria não deixa de ter utilidade no instante em que um aparelho desliga. O que muda é a compatibilidade entre a tensão disponível e a exigência do equipamento. Ao alterar a corrente rapidamente e usar a indução magnética, o joule thief encontra uma forma de utilizar uma parcela dessa energia residual.
A demonstração não transforma uma pilha usada em uma fonte de energia poderosa. A luz produzida é pequena, o circuito tem perdas e a bateria continua sendo consumida. Ainda assim, o experimento mostra por que tecnologias aparentemente simples podem fazer diferença em dispositivos de baixo consumo e em sistemas que precisam extrair o máximo de cada unidade de energia.
O princípio também pode ser explorado em tutoriais de eletrônica, sempre com atenção à polaridade, ao aquecimento dos componentes e ao descarte correto das pilhas. A partir dessa mesma ideia, estudantes conseguem visualizar conceitos que costumam parecer abstratos, como campo magnético variável, indução e controle eletrônico.
Os próximos passos para quem quiser repetir a experiência são estudar o esquema básico do circuito e comparar o tempo de funcionamento com diferentes pilhas, LEDs e componentes, sem tratar o resultado como uma forma de recarregar baterias ou gerar energia adicional.
Com informações de WIRED.
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