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IA localiza milhares de castanheiras em Lábrea no Amazonas, reduz trilhas e revela árvores antes invisíveis

IA localiza milhares de castanheiras em Lábrea no Amazonas, reduz trilhas e revela árvores antes invisíveis
Ilustração: IA

Mapa criado com drones e inteligência artificial ajuda 18 grupos a planejar a coleta sem substituir o saber da floresta.

Na floresta, uma castanheira pode estar a poucos metros da trilha e ainda assim permanecer desconhecida por anos. Em Lábrea, no sul do Amazonas, drones e inteligência artificial começaram a mudar essa conta: um mapa digital passou a mostrar milhares de árvores para 18 grupos de extrativistas, inclusive aquelas escondidas além do campo de visão durante a caminhada.

A ferramenta foi desenvolvida a partir do Netflora, tecnologia da Embrapa Acre que identifica espécies florestais em imagens aéreas e transforma os registros em endereços geográficos. O mapa fica disponível em um aplicativo de celular que pode ser consultado mesmo sem conexão com a internet, uma característica decisiva para quem trabalha em áreas remotas da Amazônia.

O celular virou um guia dentro do castanhal

Na Fazenda Nova Fronteira, próxima da divisa do Amazonas com o Acre, o recurso ajuda os coletores a reorganizar percursos e localizar árvores que não faziam parte das rotas tradicionais. Cada castanheira registrada recebe uma posição própria no mapa, permitindo conferir quais pontos já foram visitados e quais ainda podem entrar no planejamento da safra.

O ganho não está apenas em encontrar mais árvores. A visualização das divisas das trilhas também esclarece onde termina a área de um grupo e começa a de outro. Maria Maia, extrativista de 53 anos, aprendeu a usar o aplicativo ao lado da irmã, Eliane Santos, e afirma que a marcação reduziu dúvidas que poderiam gerar conflitos entre vizinhos.

“Antes, muita gente tinha dúvida sobre onde terminava a sua área e começava a do vizinho. Agora ficou tudo marcado no mapa e evita conflitos. Cada um sabe até onde pode ir”, explica Maria Maia.

O mapa também revelou uma floresta mais ampla do que aquela percebida no deslocamento cotidiano. O levantamento considera uma faixa de 200 metros para cada lado das trilhas, enquanto os coletores costumam enxergar, dentro da mata, árvores localizadas a cerca de 70 metros do caminho. A diferença abre a possibilidade de incluir novos pontos, desde que a equipe consiga adaptar a rota e transportar os frutos.

Mais árvores no mapa não significam colheita automática

É justamente nesse ponto que a inteligência artificial encontra um limite prático. A tecnologia identifica a localização das castanheiras, mas não determina sozinha se uma árvore será produtiva em cada temporada. A quantidade de frutos varia, e o trabalho continua dependendo do tamanho da equipe, da distância, das condições do terreno e da capacidade de retirar os ouriços da floresta.

Eduardo Nascimento, de 73 anos, percorre até sete quilômetros por dia e calcula que existam entre 400 e 600 castanheiras em sua área. Ainda assim, costuma coletar em aproximadamente 250, porque nem todas apresentam a mesma produtividade. Com o mapa, ele pretende verificar as árvores uma a uma e decidir quais trajetos compensam.

Raimundo Medeiros Sobral, que coleta castanha há uma década, resume a dificuldade de conhecer completamente o território: “A mata é ‘invisível’: a gente acha que conhece tudo, mas sempre tem uma árvore escondida”. Para ele, a ferramenta facilita a leitura da área e a organização do trabalho durante o período de coleta.

Segundo a Embrapa, os primeiros mapas reúnem milhares de castanheiras percorridas por 18 grupos em Lábrea, no Amazonas, e foram produzidos com imagens aéreas, drones e algoritmos de inteligência artificial. A metodologia também já é usada por outras duas comunidades extrativistas.

A tecnologia começa antes da safra e termina no armazenamento

O mapeamento integra um projeto de adoção de práticas sustentáveis de produção de castanha, executado ao longo de dois anos pela Embrapa Acre, Future Climate e Fazenda Nova Fronteira. A iniciativa não se limitou à localização das árvores. Os participantes receberam orientações sobre planejamento de rotas, manejo, prevenção de contaminação durante a quebra e armazenamento da produção.

Também houve capacitação para o uso de equipamentos de proteção individual. Como parte do trabalho considerou as dificuldades de leitura e de visão de alguns participantes, os conteúdos foram adaptados para vídeos, incluindo materiais com animações sobre boas práticas de produção e orientações sobre o uso de EPIs.

Essa adaptação é importante porque uma inovação só chega de fato ao território quando cabe na rotina de quem vai utilizá-la. No caso dos extrativistas, o conhecimento sobre os caminhos, os períodos de frutificação e a logística de transporte continua indispensável. A IA organiza informações, mas são os moradores que confirmam quais percursos podem ser feitos.

Castanha, floresta em pé e crédito de carbono

As trilhas mapeadas estão dentro de uma área de conservação florestal de 52 mil hectares ligada ao Projeto Rio Madeira REDD+. A iniciativa prevê evitar a emissão de mais de 15 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 30 anos, associando a proteção da mata à geração de créditos de carbono.

O caso de Lábrea mostra como o extrativismo pode funcionar como atividade econômica ligada à conservação. A castanha oferece renda sem exigir a derrubada das árvores e, com o mapa, o território ganha um inventário que pode apoiar decisões comunitárias sobre circulação, produção e proteção do castanhal.

A experiência interessa a outras áreas da Amazônia Legal, onde a castanha-da-amazônia sustenta famílias e cadeias de comercialização no Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Maranhão, além do Mato Grosso. Isso não significa que o aplicativo já esteja implantado em todos esses estados, mas indica uma possibilidade de adaptação para comunidades com trilhas extensas e pouca conectividade.

O próximo passo é transformar localização em decisão

Com o mapa em mãos, os grupos poderão comparar a posição das árvores com a produtividade de cada safra, ajustar os percursos e acompanhar mudanças no castanhal. O resultado dependerá da atualização dos registros e da capacidade coletiva de transformar os dados em escolhas de campo.

O projeto também mantém a valorização do papel das mulheres na coleta e na organização comunitária, tema apresentado em documentário sobre as mulheres coletoras. A expectativa é que a combinação entre conhecimento tradicional, capacitação e ferramentas digitais ajude a manter a castanha como fonte de renda e a floresta como patrimônio produtivo no longo prazo.

Com informações de Embrapa.

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