
Tecnologia da Embrapa e da UFC transforma resíduo agroindustrial em partículas capazes de estimular raízes e fotossíntese.
Um resíduo que costuma se acumular nas cidades produtoras de açaí ganhou uma nova possibilidade de uso na agricultura. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, e da Universidade Federal do Ceará, UFC, produziram um nanofertilizante a partir do caroço do fruto e observaram aumento de 24% no crescimento do milho e de 164% no do sorgo em testes de laboratório. O produto foi aplicado em baixa concentração, de 10 miligramas por litro, e também ampliou o volume das raízes das duas culturas.
O estudo foi divulgado pela Embrapa em 4 de agosto de 2026. A pesquisa transforma o caroço do açaí, normalmente descartado ou queimado em caldeiras, em uma matéria-prima para a produção de nanopartículas com potencial de uso agrícola. O próximo passo é retirar a tecnologia da escala laboratorial, reduzir os custos e avaliar a segurança do produto em condições mais próximas da realidade do campo.
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Para cada tonelada de frutos processados na extração da polpa, são gerados cerca de 700 quilos de caroços. Em muitos municípios da Amazônia, esse volume se acumula em centros urbanos, feiras, agroindústrias e áreas de descarte. Parte do material é usada como combustível, mas ainda existe pouco aproveitamento de maior valor agregado.
Segundo a Embrapa, o caroço concentra carbono e minerais que podem ser aproveitados na fabricação do nanofertilizante. A biomassa é transformada em pó e submetida a altas temperaturas, durante várias horas, dentro de reatores de alta pressão. Esse processo é chamado de síntese hidrotermal.
Durante a reação, as moléculas orgânicas da semente se quebram e se reorganizam. O resultado são nanopartículas fluorescentes conhecidas como pontos quânticos de carbono, ou carbon quantum dots, com aproximadamente quatro nanômetros. Para comparação, são partículas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo humano.
Como as partículas atuam nas plantas
Os pontos quânticos de carbono têm a capacidade de absorver e emitir luz. Quando aplicados às plantas, eles penetram nos tecidos das folhas e podem transportar nutrientes minerais diretamente para o nível celular. As partículas também funcionam como pequenas antenas, captando radiação ultravioleta e emitindo luz azul.
De acordo com os pesquisadores, essa emissão pode estimular o sistema fotoquímico das plantas e aumentar a eficiência da fotossíntese. O material também fornece compostos bioativos que podem influenciar a atividade de enzimas relacionadas à resposta contra estresses oxidativos.
“Devido ao tamanho reduzido das partículas, os nanofertilizantes penetram com eficiência nos tecidos vegetais e entregam nutrientes diretamente no nível celular, aumentando a absorção em relação aos fertilizantes foliares convencionais”, explica Cláudio Carvalho, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical.
Entenda o caso
O nanofertilizante foi produzido com pó de caroço de açaí por síntese hidrotermal. O processo gerou pontos quânticos de carbono, partículas fluorescentes com cerca de quatro nanômetros. Em laboratório, a aplicação de 10 miligramas por litro aumentou o crescimento do milho em 24% e do sorgo em 164%, além de ampliar o volume das raízes.
Resultados em milho e sorgo
Nos experimentos, foram utilizadas as variedades de milho BRS-Gorutuba e de sorgo 2502. As duas têm ciclo curto e são recomendadas para o plantio no semiárido. O objetivo foi observar os efeitos do material sobre o desenvolvimento inicial das plantas, especialmente a formação da parte aérea e das raízes.
No milho, o crescimento relativo aumentou 24% em comparação com as plantas que não receberam o tratamento. O volume das raízes cresceu 23%. No sorgo, o efeito foi mais expressivo: o crescimento relativo subiu 164% e o volume radicular avançou 59%.
O desenvolvimento das raízes pode ajudar as plantas a explorar uma área maior do solo em busca de água e nutrientes. Essa característica é especialmente importante em regiões sujeitas à irregularidade das chuvas, como o semiárido nordestino, e também pode ser relevante para sistemas agrícolas que enfrentam períodos de estiagem na Amazônia.
Segundo a Embrapa, os testes de laboratório com o nanofertilizante produzido a partir do caroço de açaí foram realizados com milho e sorgo, usando concentração de 10 miligramas por litro e comparação com plantas não tratadas. Os resultados não significam, neste momento, que o produto já esteja liberado para uso comercial em larga escala.
Potencial para a Amazônia
O professor Pierre Fechine, coordenador do Laboratório do Grupo de Química de Materiais Avançados da UFC, afirma que a região amazônica reúne grande disponibilidade de resíduos agroindustriais. O aproveitamento do caroço poderia reduzir o descarte e criar uma nova rota de valorização para um coproduto da cadeia do açaí.
“No Brasil são geradas grandes quantidades de resíduos agroindustriais, especialmente na região amazônica, o que representa uma matéria-prima abundante e de baixo custo”, observa Fechine.
A possibilidade interessa aos estados amazônicos onde o açaí tem forte presença econômica e cultural, como Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. A transformação do resíduo em insumo agrícola, porém, dependerá de uma cadeia organizada para coleta, transporte, processamento e controle de qualidade.
Carvalho avalia que, em comparação com fertilizantes convencionais, os nanofertilizantes podem apresentar menor escoamento superficial e reduzir a contaminação do solo e dos corpos d’água. A afirmação indica um potencial de sustentabilidade, mas ainda precisa ser confirmada por estudos de campo, avaliações ambientais e análises de segurança em diferentes condições de cultivo.
Escala industrial ainda é desafio
O trabalho foi publicado no artigo científico “Carbon-based nanopigments derived from açaí seed residues with tunable optical properties and biofunctional performance”, na revista internacional Dyes and Pigments. O artigo científico completo sobre os nanopigmentos produzidos com resíduos de açaí apresenta as propriedades ópticas e o desempenho biofuncional do material.
Entre os principais obstáculos está a reprodução do material em grandes quantidades. No laboratório, os cientistas controlam rigorosamente temperatura, pressão, tempo de reação e composição da biomassa. Na indústria, cada lote precisará manter as mesmas propriedades químicas, ópticas e biológicas.
Também será necessário reduzir o consumo de energia, aperfeiçoar a etapa de purificação e resolver a logística de coleta dos caroços. Além disso, a equipe pretende avançar nos estudos regulatórios e de segurança para verificar os efeitos do produto no solo, na água, nas plantas, nos animais e nos trabalhadores.
Próximas culturas estudadas
Os pesquisadores planejam testar o nanofertilizante em feijão, batata-doce, abóbora, hortaliças e mudas de açaizeiro. A aplicação em viveiros pode ser uma das possibilidades, assim como o uso em cultivo protegido e na própria produção de açaí.
“Esse é um destino nobre, que agrega valor à biomassa e, ao mesmo tempo, devolve pelo menos parte dos nutrientes minerais, principalmente micronutrientes, às áreas de produção, economizando em fertilizantes”, afirma Cláudio Carvalho.
A Embrapa e a UFC ainda precisam concluir o escalonamento, ampliar os ensaios e cumprir as etapas regulatórias antes que a tecnologia possa chegar aos produtores. Os próximos testes deverão indicar se os ganhos observados em laboratório se repetem em diferentes solos, climas e sistemas de cultivo.
Perguntas frequentes
O que é o nanofertilizante de caroço de açaí?
É um produto experimental feito com pó da semente do açaí. A biomassa passa por síntese hidrotermal e dá origem a pontos quânticos de carbono, nanopartículas que podem estimular o crescimento vegetal.
Quanto o produto aumentou o crescimento das plantas?
Nos testes de laboratório, o crescimento relativo aumentou 24% no milho e 164% no sorgo. O volume das raízes cresceu 23% no milho e 59% no sorgo.
O nanofertilizante já pode ser usado pelos agricultores?
Não. A tecnologia ainda está em fase de pesquisa e precisa passar por testes de campo, redução de custos, estudos de segurança e avaliações regulatórias.
Com informações de Embrapa.
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