
Pesquisa da Dublin City University mostra como resíduos e equipamentos comuns podem reduzir a barreira de entrada na nanociência.
Um liquidificador de cozinha, um celular descartado, água da torneira e um pedaço de jornal podem parecer mais próximos de uma experiência escolar do que de uma pesquisa sobre materiais avançados. Ainda assim, esse conjunto foi usado para testar a produção de grafeno a partir de resíduos eletrônicos em um estudo da Dublin City University, na Irlanda, divulgado em 24 de agosto de 2026.
O resultado não pretende transformar cozinhas em fábricas nem eliminar a necessidade de laboratórios. A proposta é outra: descobrir quanto da estrutura cara e especializada normalmente associada ao grafeno pode ser retirada sem impedir que o material continue útil para novas pesquisas.
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Celulares, notebooks e outros equipamentos eletrônicos usam folhas finas de grafite para espalhar o calor produzido pelos componentes. Quando o aparelho é descartado, esse material costuma seguir o caminho do restante do lixo eletrônico, embora ainda mantenha sua composição à base de carbono.
O grafeno é formado por folhas de carbono com apenas um átomo de espessura. O grafite, por sua vez, pode ser entendido como várias dessas folhas empilhadas. O desafio está em separá-las sem destruir suas propriedades.
Segundo a Dublin City University, a pesquisa produziu grafeno a partir de grafite processado em uma mistura com água da torneira e fibras obtidas de jornal, usando um liquidificador comum, em experimentos realizados na instituição em 2026.
Como o jornal impede que as folhas voltem a grudar
Para separar as camadas, os pesquisadores aplicaram uma técnica conhecida como esfoliação em fase líquida. O grafite é colocado em um líquido e recebe energia suficiente para romper a ligação entre as folhas empilhadas.
Em processos convencionais, solventes específicos ou aditivos químicos ajudam a manter as folhas separadas. Sem essa proteção, o material tende a se juntar novamente e se depositar no fundo do recipiente poucos minutos depois.
A equipe triturou jornal usado previamente lavado e amolecido em água. A celulose, fibra estrutural presente no papel, funcionou como uma barreira temporária entre as folhas de grafeno recém-separadas. O efeito não foi permanente, mas manteve a mistura utilizável por várias horas. Bastava agitá-la novamente para redistribuir o material.
Depois do processamento, uma peneira doméstica foi usada para retirar os pedaços maiores que não haviam sido quebrados de maneira adequada. A aparência escura do líquido, sozinha, não era suficiente para provar a formação do grafeno. Por isso, a confirmação exigiu equipamentos sofisticados no laboratório da universidade.
Do lixo eletrônico para tintas, revestimentos e compósitos
O grafeno combina baixo peso, alta resistência mecânica e boa capacidade de conduzir eletricidade. Essas características já despertaram aplicações em baterias, bancos de energia, sensores médicos e materiais de construção mais resistentes.

Na forma líquida, o material pode ser transformado em revestimentos, tintas, membranas e compósitos. A pesquisa, porém, não afirma que o método doméstico seja o mais eficiente ou econômico para produção em larga escala. O ganho apresentado está na acessibilidade do primeiro passo e no reaproveitamento de matérias-primas que normalmente seriam descartadas.
Na maior parte dos testes, os cientistas usaram uma versão comercial do grafite empregado em sistemas de dissipação de calor, porque um único telefone contém uma quantidade pequena demais para sustentar todo o estudo. Mesmo assim, a equipe desmontou um smartphone descartado e recuperou parte do grafite. O volume foi limitado, mas suficiente para mostrar que o material real de um aparelho também podia ser transformado em folhas de carbono mais finas.
Uma resposta possível para dois fluxos de resíduos
O experimento conecta dois problemas diferentes. O primeiro é o crescimento do lixo eletrônico. Em 2022, o mundo gerou cerca de 62 milhões de toneladas desses resíduos, mas apenas 22,3% tiveram coleta e reciclagem documentadas de forma adequada, segundo dados do Global E-waste Monitor 2024, citado na pesquisa.
O segundo é a dificuldade de acesso à infraestrutura científica. Universidades de países com menos recursos, escolas e projetos de ciência cidadã podem enfrentar custos altos, cadeias de fornecimento frágeis e demora para obter reagentes, água purificada e equipamentos especializados.
Nesse cenário, o liquidificador não substitui o laboratório. Ele muda o momento em que o laboratório entra em cena. A produção inicial pode ser feita com objetos e materiais baratos, enquanto instrumentos avançados ficam concentrados na etapa de análise, necessária para confirmar a estrutura e a qualidade do material.
O que isso pode significar para a Amazônia
A ideia tem uma conexão direta com desafios de pesquisa e descarte na Amazônia, embora o estudo não apresente resultados específicos para a região. Em Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, escolas, universidades e laboratórios comunitários poderiam enxergar métodos desse tipo como ponto de partida para atividades de reaproveitamento e educação científica, sempre com acompanhamento técnico e segurança.
A distância entre muitos municípios amazônicos e centros especializados torna relevante qualquer abordagem que reduza a dependência de equipamentos complexos no início de um experimento. Ao mesmo tempo, a etapa de verificação continuaria exigindo parceria com universidades e laboratórios capazes de analisar o material em escala microscópica.
O reaproveitamento também não elimina os cuidados necessários com celulares e outros aparelhos. Componentes eletrônicos podem conter substâncias perigosas, e a desmontagem deve ser feita em condições adequadas, sem confundir uma demonstração de pesquisa com uma receita segura para uso doméstico.
O limite do experimento está justamente na escala
Em trabalhos anteriores, o grupo já havia testado a produção de grafeno com grafite de lápis, água da torneira, sabão, utensílios de cozinha e filtros de café. A nova pesquisa avançou ao perguntar se os próprios ingredientes poderiam vir de resíduos.
O método ainda não compete com instalações industriais de produção de grafeno. Também não transforma automaticamente qualquer líquido preto em um material de qualidade conhecida. O ponto central é mostrar que a etapa experimental pode se tornar menos exclusiva, enquanto o controle científico permanece indispensável.
Os próximos passos dependem de medir com mais precisão a qualidade, a estabilidade e as aplicações do grafeno obtido de diferentes tipos de resíduos eletrônicos, antes que a técnica possa ser avaliada para usos maiores.
Com informações de Dublin City University.
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