Como levar a biomanufatura do laboratório ao mercado

Como levar a biomanufatura do laboratório ao mercado
Ilustração: IA

Fórum Econômico Mundial aponta caminhos para expandir a produção industrial baseada em biotecnologia.

A biomanufatura tem o potencial de substituir a química tradicional na produção de materiais, medicamentos e combustíveis, mas poucas tecnologias desenvolvidas em laboratório conseguem chegar ao mercado. Segundo análise do Fórum Econômico Mundial, essa lacuna entre pesquisa e aplicação comercial é um dos maiores desafios da bioeconomia global, e exige ações coordenadas de governos, empresas e instituições de pesquisa.

O termo biomanufatura se refere ao uso de organismos vivos (como bactérias, leveduras ou algas) para produzir substâncias de interesse industrial. Em vez de depender de processos químicos que consomem muita energia e matérias-primas fósseis, a biomanufatura pode partir de biomassa renovável e gerar menos resíduos. Essa promessa de sustentabilidade atrai investimentos crescentes, mas ainda esbarra em custos de escala, regulamentação complexa e falta de infraestrutura industrial dedicada.

Financiamento é gargalo, mas não o único

De acordo com o relatório, o acesso a capital continua sendo um obstáculo importante. Projetos de biomanufatura exigem investimentos pesados em biorreatores, sistemas de purificação e testes de segurança antes de alcançar escala comercial. Mesmo startups promissoras enfrentam dificuldade para conseguir financiamento de risco quando os prazos de retorno superam cinco anos.

Mas dinheiro sozinho não resolve. O documento destaca que muitos projetos fracassam porque não há clareza regulatória. Produtos baseados em biologia sintética, por exemplo, podem ser classificados como alimentos, medicamentos ou substâncias químicas, dependendo do uso final. Essa indefinição atrasa aprovações e aumenta custos de adequação.

Parcerias entre pesquisa e indústria aceleram escala

Uma das recomendações centrais é estreitar a colaboração entre universidades e empresas desde o início do desenvolvimento. Quando pesquisadores acadêmicos trabalham lado a lado com engenheiros industriais, é mais fácil antecipar desafios de manufatura que só aparecem fora do tubo de ensaio, como estabilidade do processo em grandes volumes ou custo de matéria-prima.

Países que criaram hubs de biomanufatura (centros que reúnem laboratórios, plantas-piloto e serviços de consultoria técnica) registram maior taxa de sucesso na transição de protótipos para produtos comerciais. Esses ambientes permitem que startups testem suas tecnologias em escala intermediária sem precisar construir fábricas próprias desde o começo.

O papel da Amazônia na bioeconomia

A região amazônica, presente em nove países da América do Sul, é vista como um dos maiores reservatórios de biodiversidade do planeta, o que a coloca em posição estratégica na corrida pela biomanufatura. Compostos extraídos de plantas, fungos e microrganismos da floresta já inspiram desenvolvimentos em cosméticos, fármacos e bioplásticos.

No Brasil, instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e a Embrapa Amazônia Oriental desenvolvem pesquisas em bioprospecção que, se conectadas a cadeias industriais organizadas, podem gerar produtos de alto valor agregado. A criação de infraestrutura de biomanufatura na Amazônia, respeitando critérios ambientais e sociais, poderia transformar conhecimento local em vantagem competitiva global.

Regulação harmonizada reduz tempo de chegada ao mercado

Outro ponto enfatizado pelo Fórum Econômico Mundial é a necessidade de harmonizar regulações entre países. Hoje, uma empresa que desenvolve um ingrediente de origem biológica precisa adequar documentação e testes para cada mercado de destino, o que pode levar anos e consumir milhões de dólares.

Segundo o relatório, blocos econômicos que adotaram padrões compartilhados de avaliação de risco conseguiram reduzir em até 40% o tempo médio de aprovação de novos produtos biotecnológicos. A medida também diminui redundâncias em testes toxicológicos e ambientais, tornando o caminho menos custoso para pequenas e médias empresas.

Entenda o conceito de biologia sintética

Biologia sintética é a área que projeta e constrói circuitos biológicos novos ou redesenha sistemas existentes para fins úteis. Imagine programar uma bactéria para produzir insulina, ou uma levedura para fabricar vanilina (aroma de baunilha) sem precisar extrair a substância da planta. Essa abordagem acelera a inovação, mas exige governança cuidadosa para evitar riscos biológicos e garantir uso ético.

Infraestrutura compartilhada reduz barreira de entrada

Plantas-piloto compartilhadas, laboratórios abertos e serviços de manufatura por contrato (contract manufacturing) são apontados como instrumentos eficazes para democratizar o acesso à biomanufatura. Em vez de exigir que cada startup construa sua própria fábrica, essas estruturas permitem produção em lotes pequenos e testes de viabilidade econômica antes de escalar.

O relatório cita exemplos de centros na Europa e na Ásia que oferecem desde fermentadores de 10 litros até linhas de produção de milhares de litros, com suporte técnico incluso. Esse modelo reduz riscos financeiros e acelera a curva de aprendizado das empresas iniciantes.

Mercado global pode atingir US$ 1 trilhão até 2030

Projeções citadas pelo Fórum Econômico Mundial indicam que o mercado de biomanufatura pode movimentar até US$ 1 trilhão anuais até o final da década, impulsionado por demanda crescente por alternativas sustentáveis em setores como materiais de construção, têxteis, embalagens e nutrição animal.

Para alcançar esse potencial, o documento sugere que governos incluam biomanufatura em políticas industriais, oferecendo incentivos fiscais, linhas de crédito específicas e apoio à formação de mão de obra qualificada. Engenheiros de bioprocessos, técnicos de fermentação e especialistas em análise de ciclo de vida são profissões em alta demanda e ainda escassas no mercado.

Nos próximos meses, o Fórum Econômico Mundial deve lançar um conjunto de diretrizes para auxiliar formuladores de política pública na criação de ecossistemas de biomanufatura. O objetivo é reduzir o tempo médio de chegada ao mercado de dez para cinco anos e facilitar o acesso de países em desenvolvimento a essa tecnologia.

Perguntas frequentes

O que é biomanufatura?

Biomanufatura é o uso de organismos vivos (como bactérias ou leveduras) para produzir substâncias industriais, substituindo processos químicos tradicionais por rotas biológicas mais limpas e eficientes.

Por que a biomanufatura tem dificuldade de sair do laboratório?

Os principais obstáculos são altos custos de escala, falta de infraestrutura industrial dedicada, regulação complexa e prazos longos até retorno financeiro, o que afasta investidores.

Como a Amazônia pode se beneficiar da biomanufatura?

A biodiversidade amazônica oferece compostos únicos que podem ser base de produtos de alto valor. Investir em infraestrutura de biomanufatura na região, respeitando critérios socioambientais, pode transformar conhecimento tradicional em vantagem econômica sustentável.

Com informações do Fórum Econômico Mundial.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA