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Copa do Mundo 2026: Calor Extremo e o Contraste Climático de Espanha e Bélgica

Copa do Mundo 2026: Calor Extremo e o Contraste Climático de Espanha e Bélgica
Foto: open.substack.com

Enquanto jogadores enfrentam temperaturas desafiadoras, as nações disputam partidas importantes em suas próprias políticas ambientais.

Imagine o cenário: jogadores de elite, acostumados a desafios extremos, enfrentando temperaturas que podem comprometer seu desempenho em plena Copa do Mundo. Pois é exatamente isso que acontece no Mundial de Fútbol 2026. Nesta sexta-feira, 10 de julho, a partida entre Espanha e Bélgica, válida pelas quartas de final no Estádio de Los Angeles, nos Estados Unidos, traz à tona não apenas a disputa em campo, mas também um contraste alarmante nas políticas climáticas de ambos os países.

De acordo com a Climate Central, uma organização que reúne cientistas e jornalistas focados nos impactos das mudanças climáticas, há uma probabilidade de 62% de calor prejudicial ao desempenho dos atletas. Esse número é nove pontos percentuais maior do que seria sem a influência das alterações climáticas, um dado que acende um alerta sobre o futuro do esporte em um planeta mais quente.

Calor Intenso: Um Desafio Crescente no Futebol

O impacto do calor nos atletas não é trivial. A Climate Central utiliza o limiar de 28°C para definir “calor que prejudica o desempenho”, uma temperatura a partir da qual estudos demonstram que jogadores de futebol de elite correm mais devagar, cobrem menos distância e com menor frequência. A alta probabilidade de atingir esse nível em Los Angeles sugere que a exposição ao calor extremo não é um evento isolado deste Mundial, mas uma condição que tende a se repetir com intensidade variável nos próximos jogos.

No Brasil e na Amazônia, esse tipo de desafio climático já é uma realidade em diversas competições regionais, onde o clima úmido e as altas temperaturas afetam diretamente a performance e a saúde dos atletas. A discussão no âmbito da Copa do Mundo serve como um espelho para os eventos esportivos realizados em regiões tropicais, exigindo cada vez mais adaptações e protocolos de segurança.

Espanha: Rumo às Renováveis, com Desafios

No palco das políticas públicas, a Espanha chega a este confronto exibindo avanços significativos. O país ocupa o 14º lugar no Climate Change Performance Index (CCPI) 2026, cinco posições acima do ano anterior. O índice avalia o desempenho dos países em seus compromissos climáticos, considerando emissões, uso de energia limpa e políticas climáticas reais. A Espanha recebeu uma classificação “média” em todas as categorias avaliadas.

O dado mais robusto para a Espanha é no setor energético: as energias renováveis já representam 56% de sua eletricidade, impulsionadas por taxas de crescimento recordes nas energias solar e eólica. A extração nacional de combustíveis fósseis caiu para cobrir apenas 0,2% da demanda, e a expectativa é que a contribuição do carvão para a geração de eletricidade desapareça ainda este ano. Segundo o CCPI 2026, a Espanha tem demonstrado um compromisso notável com a descarbonização de sua matriz energética.

O governo espanhol também impulsiona o Pacto Estatal pela Emergência Climática, um esforço que integra diversas esferas da sociedade para fortalecer a resiliência do país frente a incêndios, inundações e outros eventos extremos. Esta prioridade ganhou urgência após o apagão massivo de 2025, que deixou milhões de pessoas sem eletricidade na Espanha e em Portugal, reabrindo o debate sobre a solidez da rede elétrica em meio à transição energética. No entanto, especialistas do CCPI alertam que esse episódio foi, ironicamente, usado como argumento para defender o retorno a usinas a gás e nucleares, enquanto a eletrificação de setores como o transporte ainda está atrasada em relação ao ritmo das renováveis.

Bélgica: Meta Aquém das Exigências da União Europeia

Já a Bélgica apresenta um cenário contrastante. Ocupando a 37ª posição no CCPI 2026, duas posições abaixo do ano anterior, seu desempenho geral é classificado como “baixo”. Embora obtenha uma qualificação média em emissões de gases de efeito estufa, o país está classificado como “baixo” em energias renováveis, uso de energia e política climática.

O cerne do problema belga, segundo os avaliadores do índice, reside em sua meta de redução de emissões. O país planeja combinar três planos climáticos regionais, de Flandres, Valônia e da Região de Bruxelas-Capital, para alcançar uma redução de 42% nas emissões até 2030. Esse número, no entanto, não apenas fica aquém dos 47% exigidos pela União Europeia, mas também não se alinha com as exigências do Acordo de Paris. Além disso, especialistas apontam a falta de estratégias climáticas de longo prazo e deficiências significativas na implementação como os pontos mais fracos do arcabouço climático belga.

Embora a Bélgica tenha demonstrado certo compromisso internacional, como a adesão à Coalizão de Alta Ambição pela Natureza e Pessoas e o aporte de 390,2 milhões de dólares ao Fundo Verde para o Clima, os avaliadores do CCPI também registraram ações contraditórias. O país não apoiou o Fundo Social para o Clima da nova Lei Europeia do Clima, a tributação de carbono sobre combustíveis fósseis e o Mecanismo de Ajuste em Fronteira do Carbono (CBAM), instrumentos cruciais da arquitetura climática da União Europeia.

Empate no Índice de Adaptação, Realidades Distintas

Um outro índice, o ND-GAIN Country Index da Universidade de Notre Dame, que mede a vulnerabilidade de um país aos impactos físicos das mudanças climáticas e sua capacidade de adaptação, conta uma história ligeiramente diferente. Nele, Espanha e Bélgica aparecem praticamente empatadas: a Bélgica ocupa o 28º lugar global, com 62,0 pontos, enquanto a Espanha está em 29º, com 61,7.

No entanto, esse empate geral esconde composições internas heterogêneas. A Espanha é o país menos vulnerável dos dois, posicionando-se em 173º entre os mais vulneráveis do mundo, contra o 151º da Bélgica, indicando maior proteção contra os impactos físicos do clima. Em contrapartida, na preparação institucional, a ordem se inverte: a Espanha cai para o 40º lugar, enquanto a Bélgica se destaca no 29º.

Dois fatores explicam essa diferença na preparação: o PIB per capita belga, de 73.514 dólares, supera amplamente o espanhol, de 57.965 dólares. Além disso, o subíndice de governança do ND-GAIN, que avalia estabilidade política, controle da corrupção e qualidade regulatória, favorece a Bélgica (0,715 contra 0,620 da Espanha). Isso significa que, embora a Espanha demonstre maior ambição climática de acordo com o CCPI, a Bélgica detém maior capacidade institucional para se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas, mesmo com uma política climática menos ambiciosa.

Trajetórias Climáticas Divergentes na União Europeia

Espanha e Bélgica, embora membros da União Europeia e, portanto, regidas por grande parte do mesmo quadro regulatório climático, traçam trajetórias distintas. Enquanto a Espanha aprofunda sua transição energética, com as complexidades e contradições inerentes, e fortalece sua participação na diplomacia climática internacional, a Bélgica luta para alinhar suas metas climáticas com as exigências dos próprios parceiros europeus.

Os resultados desses esforços políticos não serão decididos no gramado do Estádio de Los Angeles. No entanto, o calor que as seleções sentirão é um lembrete contundente de que a urgência climática não aguarda que as políticas públicas alcancem o ritmo necessário. A atuação de cada nação nesse campo definirá o legado ambiental para as futuras gerações, e os próximos anos serão cruciais para observarmos os desenvolvimentos na região amazônica.

Perguntas Frequentes

Qual a temperatura considerada prejudicial ao desempenho no futebol?
A Climate Central define o limiar para “calor que prejudica o desempenho” em 28°C, a partir do qual atletas de elite sofrem declínio na performance.

Quais os principais avanços da Espanha em relação às energias limpas?
A Espanha gera 56% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, com crescimento recorde em energia solar e eólica, e pretende eliminar o carvão da geração elétrica em breve.

Por que a meta climática da Bélgica é considerada insuficiente?
A Bélgica planeja uma redução de 42% nas emissões até 2030, o que fica abaixo dos 47% exigidos pela União Europeia e não se alinha com o Acordo de Paris.

Com informações de Climate Central, Climate Change Performance Index (CCPI) 2026 e ND-GAIN Country Index.

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