
No extremo oeste do Amazonas, ao longo do Alto Rio Içá, uma equipe mista de cientistas de cinco países e especialistas indígenas dos povos Kukama, Tikuna e Kambeba passou 25 dias em campo. O objetivo era realizar um inventário rápido biológico e social de 350,8 mil hectares de florestas públicas ainda não destinadas. O resultado foi um relatório e um vídeo lançados em 2026 pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo Field Museum, com o propósito explícito de apoiar a proteção formal do território, ameaçado por garimpo, extração ilegal de madeira e tráfico de animais.
A região abriga comunidades indígenas e paisagens pouco documentadas da Amazônia ocidental. O inventário caracterizou a geologia, a flora, a vegetação e quatro grupos de animais (peixes, anfíbios e répteis, aves e mamíferos), além de aspectos culturais e sociais.
A ciência intercultural em ação
O trabalho foi desenhado desde o início como ciência intercultural. Especialistas indígenas participaram ativamente da coleta, da identificação e da interpretação dos dados. O relatório final foi apresentado tanto em Manaus quanto nas próprias comunidades (Mamuriá I e II, Nova Esperança, Nova Floresta Urutaí, São José e Três Corações de Jesus).
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Antas engoliram sementes em uma área degradada da Amazônia e devolveram ao solo plantas que germinaram mais rápido do que as preparadas à mãoEssa abordagem produz conhecimento mais completo e legítimo. Os indígenas conhecem os ciclos sazonais, os usos das plantas e as relações entre espécies de uma forma que a ciência acadêmica isolada raramente alcança. Os cientistas, por sua vez, trazem métodos padronizados de inventário e ferramentas de documentação que permitem comparar a área com outras regiões da Amazônia.
Ameaças e a urgência da proteção
O Alto Rio Içá sofre pressão de garimpo ilegal, extração de madeira e tráfico de animais silvestres. A ausência de destinação formal das florestas públicas facilita a invasão. O inventário rápido fornece dados concretos sobre a biodiversidade e a presença indígena que podem embasar decisões de criação de unidades de conservação ou de reconhecimento territorial.
No contexto brasileiro, o caso se alinha a outras iniciativas de inventários colaborativos (como o Panará) e reforça a importância de proteger as últimas áreas remotas da Amazônia ocidental antes que o desmatamento e a degradação avancem.
Resultados e próximos passos
O relatório documenta a riqueza biológica e cultural da região e destaca a necessidade de proteção urgente. O lançamento em 2026, tanto nas comunidades quanto no Inpa, marca um modelo de devolução de resultados e de co-autoria. A expectativa é que os dados alimentem processos de ordenamento territorial e de fiscalização.
Conclusão
Em 25 dias de trabalho conjunto, cientistas e especialistas Kukama, Tikuna e Kambeba transformaram uma área pouco conhecida em território documentado e reivindicado para proteção. O inventário do Alto Rio Içá mostra que a ciência feita com os povos indígenas não só acelera o conhecimento da biodiversidade amazônica como fortalece a defesa dos territórios. Proteger 350 mil hectares no extremo oeste do Amazonas é proteger parte do futuro da floresta e dos povos que a habitam.
Fonte: Inpa / Field Museum, 2026. Relatório do Inventário Rápido Biológico e Social do Alto Rio Içá #33. Expedição de maio de 2025, lançamento 2026.
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