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Em Afuá, carros não circulam e moradores pedalam sobre passarelas de madeira numa cidade amazônica construída acima das águas

Representação editorial da mobilidade cotidiana em Afuá, cidade marajoara onde bicicletas substituem carros nas vias elevadas.

Na hora de maior movimento, o som predominante não é de buzina ou motor. Pneus de bicicleta passam sobre madeira, campainhas avisam ultrapassagens e triciclos levam passageiros e compras. Em Afuá, no arquipélago do Marajó, o cotidiano urbano funciona sem automóveis nas vias centrais.

A cidade cresceu numa área baixa e alagável. Ruas assumiram a forma de passarelas elevadas, inicialmente de madeira e, em trechos, substituídas por estruturas mais duráveis. O veículo compatível com esse espaço é leve, estreito e fácil de reparar: a bicicleta.

O resultado é conhecido como a “cidade das bicicletas”. Mas o apelido não descreve apenas lazer ou política ambiental. Pedalar é ir ao trabalho, levar criança, carregar compras e prestar serviço. A mobilidade está encaixada na arquitetura.

A bicicleta ocupa o papel que o carro exerce em outras cidades

Moradores adaptam modelos com bagageiros, cadeiras e estruturas para passageiros. Bicicletas-táxi transportam quem não pode ou não quer pedalar. Mercadorias pequenas seguem em cestos e carretas; cargas maiores chegam pelo rio e são distribuídas conforme as condições locais.

Sem carros particulares, distâncias urbanas parecem diferentes. O comércio precisa estar acessível e a velocidade das ruas diminui. Crianças crescem aprendendo a compartilhar passarelas com pedestres e ciclistas.

Isso não significa ausência completa de motores na vida municipal. Barcos são indispensáveis para conectar Afuá a outras localidades, transportar carga e acessar serviços. A cidade troca o automóvel pela bicicleta em terra, mas continua profundamente dependente da navegação.

As passarelas funcionam como ruas e precisam suportar cheia, chuva e movimento

Construir acima da água exige manutenção constante. Tábuas sofrem com umidade, sol e tráfego; uma peça solta pode causar queda. A substituição por concreto em partes da cidade aumenta durabilidade, embora altere a paisagem e exija investimento.

A largura define como pessoas se cruzam e onde uma bicicleta pode parar sem bloquear passagem. Corrimãos, iluminação e acessibilidade são questões urbanas tão importantes quanto asfalto e semáforo seriam em outro lugar.

Casas e comércios se voltam para essas vias elevadas. A porta da frente abre para um corredor suspenso, e pequenos barcos permanecem abaixo ou próximos, prontos para trajetos que ultrapassam a malha urbana.

Sem automóveis, a cidade ganha silêncio, mas enfrenta desafios próprios

Menos motores significa menos ruído e emissão direta nas ruas. O espaço necessário para estacionamento é menor, e o deslocamento cotidiano incorpora atividade física. Esses benefícios aproximam Afuá de debates globais sobre cidades caminháveis.

Mas copiar o modelo em qualquer lugar seria simplificação. Afuá é compacta e sua forma urbana nasceu das águas. Serviços de emergência, transporte de pessoas com deficiência e movimentação de cargas precisam de soluções específicas. Uma passarela mal conservada pode excluir justamente quem tem mobilidade reduzida.

Bicicleta também exige organização. Em períodos de festa e grande fluxo, o número de veículos leves aumenta. Regras locais e convivência substituem parte da sinalização pesada de uma cidade automobilística.

A cidade marajoara oferece uma resposta prática a uma pergunta mundial

Metrópoles investem bilhões para reduzir dependência do carro e devolver ruas a pedestres e ciclistas. Afuá chegou a outra configuração por necessidade geográfica e a transformou em identidade. Não é uma utopia pronta, mas um exemplo real de cidade onde a vida diária não gira em torno do automóvel.

Para moradores, pedalar sobre a passarela é normal. Para quem chega de fora, a ausência de congestionamento motorizado produz estranhamento imediato. A bicicleta deixa de ser equipamento esportivo e vira extensão da casa.

Ao amanhecer, trabalhadores, estudantes e comerciantes ocupam as vias elevadas. Sob as rodas, a água lembra por que a cidade foi construída assim. Afuá não proibiu apenas um veículo; ela organizou uma forma inteira de morar e circular em que o rio fica embaixo, a rua ganha altura e o pedal marca o ritmo da vida.

O modelo também altera a economia doméstica. Uma família não precisa reservar renda para combustível, seguro e manutenção de automóvel, embora bicicletas e triciclos também exijam peças e reparos. Oficinas especializadas se tornam serviços essenciais, e um pneu furado ocupa o lugar da pane que, em outra cidade, chamaria guincho.

Para visitantes, a experiência convida a pensar quanto espaço urbano é normalmente entregue aos carros. Em Afuá, a ausência deles não deixa um vazio; o espaço é preenchido por conversa, comércio, pedestres e veículos movidos pelo próprio corpo. A solução nasceu de uma geografia específica, mas a pergunta que ela provoca vale para qualquer cidade brasileira.

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