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Estudo com 119 pessoas revela por que três espécies de mosquito escolhem vítimas diferentes

Estudo com 119 pessoas revela por que três espécies de mosquito escolhem vítimas diferentes
Ilustração: Revista Amazônia

Pesquisa da Florida International University relaciona preferência dos insetos a odores e bactérias da pele.

Se duas pessoas estão no mesmo ambiente, por que uma parece virar alvo dos mosquitos enquanto a outra quase não é incomodada? Um estudo realizado na Flórida indica que a resposta está menos em uma característica isolada do corpo e mais na combinação de cheiros e microrganismos que vivem sobre a pele. A pesquisa avaliou 119 voluntários e três espécies de mosquitos no sul do estado norte-americano, sem permitir que nenhum participante fosse picado.

O resultado mais curioso foi também o que contrariou a expectativa dos pesquisadores: nenhuma pessoa atraiu igualmente as três espécies analisadas. Em outras palavras, alguém muito procurado por um tipo de mosquito não necessariamente será a primeira escolha de outro.

O teste que manteve os voluntários protegidos

A equipe da Florida International University usou um equipamento chamado olfatômetro uniport, uma caixa de acrílico dividida em compartimentos. O participante colocava o braço em uma parte protegida por uma tela, enquanto os insetos eram soltos em um tubo conectado à chamada câmara de atração.

Os mosquitos podiam se aproximar do braço, mas não tinham contato com a pele. Para cada rodada, 30 insetos eram liberados. Cada espécie foi testada três vezes, totalizando 90 mosquitos por espécie e 270 avaliações para cada voluntário.

Antes do experimento, os participantes não podiam usar perfume ou desodorante e precisavam ficar pelo menos 12 horas sem tomar banho. A medida tinha um objetivo específico: preservar os odores naturais do corpo. Depois dos testes, os pesquisadores coletaram o cheiro da pele e fizeram swabs para identificar as bactérias presentes.

Três espécies, três padrões de escolha

O grupo estudou Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus. Elas não têm exatamente o mesmo comportamento nem estão associadas aos mesmos riscos à saúde, por isso comparar as três ajudou a separar preferências particulares de sinais comuns.

O Aedes aegypti, conhecido por preferir seres humanos e ambientes urbanos quentes, demonstrou uma leve preferência por homens. A pesquisa não conseguiu apontar a causa dessa diferença, porque os odores e as comunidades de bactérias dos participantes variavam demais para permitir uma explicação isolada.

Esse mosquito foi mais atraído por pessoas com maior presença de bactérias do gênero Staphylococcus e menor quantidade de determinados odores, entre eles alguns álcoois cíclicos encontrados em fragrâncias e cosméticos. Já compostos associados a certas bactérias Pseudomonas apareceram ligados a menor atração.

O Aedes albopictus, conhecido como mosquito-tigre-asiático, apresentou outro perfil. Ele procurou voluntários com maior quantidade geral de odores, sobretudo cetonas, compostos orgânicos que incluem a mesitil óxida, substância com aroma doce semelhante ao mel. A abundância de microrganismos também pesou, com destaque para Streptococcus intermedius e Anaerococcus octavius.

Estudo com 119 pessoas revela por que três espécies de mosquito escolhem vítimas diferentes
Foto: Contributing Author

Nem toda bactéria, porém, funcionou como convite. O gênero Mogibacterium apareceu associado à rejeição desse mosquito, possivelmente porque produz cheiros pouco atraentes para a espécie.

O mosquito doméstico prefere sinais diferentes

O Culex quinquefasciatus, chamado de mosquito doméstico do sul dos Estados Unidos, costuma preferir aves, mas também se alimenta de sangue humano. No experimento, mostrou maior interesse por pessoas com menos odores no conjunto e por compostos como o alfa-pineno, um monoterpeno presente em diversos óleos essenciais.

Entre os participantes menos procurados por esse mosquito, os pesquisadores encontraram maior abundância de bactérias do gênero Actinomyces. Diferentemente do que ocorreu com as duas espécies de Aedes, nenhuma bactéria específica foi relacionada a uma atração elevada pelo Culex.

Houve, ainda, alguns sinais compartilhados. As três espécies foram atraídas pelo etil 2-metilbutanoato, composto de odor frutado usado em fragrâncias. Em sentido oposto, tenderam a evitar pessoas com grande quantidade de 1-penten-3-ol, associado a produtos com cheiro fresco ou “crocante”. A bactéria Corynebacterium kefirresidentii apareceu relacionada a maior atração pelas três espécies.

O que isso muda para quem vive na Amazônia

Segundo a Florida International University, o estudo foi realizado no sul da Flórida e publicado em 4 de setembro de 2026. A pesquisa não mediu a atração de mosquitos em cidades amazônicas, mas ajuda a explicar por que uma mesma estratégia de controle pode não funcionar da mesma maneira para todas as espécies.

Essa diferença é relevante para moradores dos estados da Amazônia Legal, onde o calor, a umidade e a presença de recipientes com água favorecem a preocupação cotidiana com mosquitos. O ponto principal não é tentar descobrir uma bactéria “culpada” na pele de cada pessoa, mas entender que os insetos localizam seus hospedeiros por um conjunto de sinais químicos.

A distinção entre espécies também importa porque Aedes aegypti e Aedes albopictus estão associados à transmissão de dengue, enquanto o Aedes aegypti também pode transmitir zika. O Culex quinquefasciatus participa do ciclo de doenças entre aves e humanos, incluindo o vírus do Nilo Ocidental, que pode afetar o sistema nervoso em casos graves.

Por que a descoberta interessa aos repelentes

Os pesquisadores avaliam que mapear a relação entre microbioma da pele e odores pode contribuir para novos repelentes. Uma das possibilidades citadas é o desenvolvimento de produtos probióticos capazes de alterar os sinais químicos que tornam uma pessoa mais atraente para determinada espécie.

Isso ainda não significa que tomar banho, usar um perfume específico ou modificar a alimentação vá impedir picadas. O trabalho identificou associações em condições controladas, mas não transformou esses resultados em uma receita doméstica de proteção. Também não encontrou um marcador único capaz de explicar o comportamento de todos os mosquitos.

A próxima etapa é entender como os microrganismos produzem ou modificam os compostos percebidos pelos insetos. Esse caminho pode levar a estratégias mais direcionadas, que afastem mosquitos sem depender apenas de produtos de ação ampla. O estudo completo está disponível em publicação científica sobre a atração de mosquitos.

Com informações de Florida International University.

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