
Amostras de solos, águas e espécies vegetais da Reserva Natural Vale serão analisadas em busca de funções biológicas ainda pouco conhecidas.
Uma bromélia, uma área de várzea ou uma pequena amostra de solo podem guardar organismos que a ciência ainda não conhece. Foi nesses ambientes, sem depender do que é visível na paisagem, que uma expedição realizada em agosto na Reserva Natural Vale, em Linhares, no Espírito Santo, procurou sinais de novas possibilidades para a biotecnologia e informações úteis à conservação da Mata Atlântica.
A iniciativa foi conduzida pela Apoena Biotech em parceria com a Vale. O trabalho reuniu amostras de diferentes nichos ecológicos do bioma, incluindo solos, ambientes aquáticos e microrganismos associados a plantas. O objetivo não é apresentar imediatamente um produto, mas formar uma base científica que possa ser consultada e ampliada ao longo dos anos.
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A biodiversidade da Mata Atlântica costuma ser associada a árvores, aves, mamíferos e outras espécies que podem ser observadas diretamente. Abaixo dessa camada, porém, vivem comunidades de microrganismos que participam da decomposição, da ciclagem de nutrientes e das relações entre o solo, a água e as plantas.
Esses organismos podem produzir enzimas, metabólitos e outras moléculas de interesse científico. A identificação de uma cepa, entretanto, é apenas o começo. Depois, os pesquisadores precisam investigar como ela se comporta, quais funções desempenha e se apresenta características que possam ser aproveitadas em processos de agricultura, cosméticos, alimentos, saúde animal ou outros segmentos da bioeconomia.
“Quando falamos em biodiversidade, normalmente pensamos no que conseguimos enxergar. Mas existe uma biodiversidade microscópica enorme e ainda pouco conhecida. Nosso objetivo é transformar esse conhecimento em uma plataforma de inovação que possa ser revisitada ao longo dos anos e acessada por diferentes setores”, afirma Patrícia Mendes, diretora de Novos Negócios e Estratégia Comercial da Apoena Biotech.
22 espécies, cinco solos e dois ambientes aquáticos
O plano científico da expedição contemplou 22 espécies vegetais representativas da Mata Atlântica, cinco tipos de solo e dois ambientes aquáticos. A equipe também considerou áreas de floresta, várzeas, brejos, muçunungas, campos nativos e matas ciliares, além de locais associados a bromélias e outras plantas.
A escolha desses pontos está relacionada às diferentes condições ecológicas encontradas na reserva. Um solo sujeito a alagamentos, por exemplo, oferece condições distintas das observadas em uma área de floresta ou em uma mata ciliar. Essas diferenças podem favorecer comunidades microbianas especializadas e aumentar a variedade de organismos encontrados.
Segundo a Apoena Biotech, a expedição na Reserva Natural Vale ocorreu em agosto de 2026, em Linhares, no Espírito Santo, para coletar e preservar microrganismos associados a diferentes ambientes da Mata Atlântica e ampliar uma plataforma de pesquisas em bioeconomia.
O caminho entre a coleta e uma possível aplicação
Depois da coleta, as amostras passam por etapas de isolamento e preservação dos microrganismos cultiváveis. Em seguida, os pesquisadores fazem a identificação molecular. As informações genéticas são analisadas com ferramentas de bioinformática e comparadas com bancos de dados globais.
Essa etapa permite procurar genes, vias metabólicas, funções biológicas e registros científicos relacionados às cepas. A análise computacional ajuda a selecionar os organismos mais promissores antes dos testes experimentais, chamados de screenings. Neles, os pesquisadores verificam o comportamento e a expressão de genes em diferentes condições.
A coleção da Apoena reúne atualmente 1.191 microrganismos preservados. Desse total, 381 foram identificados molecularmente e 109 passaram por screening de expressão gênica. Entre os organismos avaliados nessa última etapa, 55 estão voltados a aplicações cosméticas e 54 a aplicações agrícolas.
O acervo funciona, portanto, como uma plataforma de pesquisa, e não como um catálogo de produtos prontos. A mesma cepa pode gerar perguntas diferentes conforme novas técnicas sejam desenvolvidas ou conforme surjam demandas em setores como alimentos, suplementação humana, nutrição e saúde animal, indústria farmacêutica, biotecnologia industrial e química verde.
Uma área protegida em um bioma fragmentado
A Reserva Natural Vale tem aproximadamente 23 mil hectares nos municípios de Linhares, Sooretama e Jaguaré. Além da proteção ambiental, a área reúne ações de restauração florestal, silvicultura com espécies nativas, sistemas agroflorestais e pesquisa científica.
A estrutura da reserva é especialmente relevante em um bioma que originalmente ocupava cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados em 17 estados brasileiros. Atualmente, cerca de 24% da cobertura original da Mata Atlântica permanece, distribuída em diferentes estágios de regeneração e com alto grau de fragmentação.
Esse cenário aumenta a importância de registrar a diversidade microbiana antes que ambientes sejam alterados ou desapareçam. Conhecer quais organismos vivem em determinado solo, água ou planta pode ajudar a compreender o funcionamento ecológico desses locais, embora a coleta de material, por si só, não represente uma garantia de aplicação tecnológica ou de resultado imediato para a conservação.
“A Reserva Natural Vale é um espaço dedicado à conservação da Mata Atlântica e também à geração de conhecimento científico sobre esse bioma tão rico e ainda cheio de descobertas possíveis. Esta iniciativa amplia o olhar para uma dimensão menos visível, mas fundamental da biodiversidade: os microrganismos”, diz Márcio Santos, gerente de Recursos Naturais e Áreas Protegidas da Vale.
Da Mata Atlântica à agenda amazônica
O programa de bioprospecção da Apoena já realizou duas expedições na Amazônia, além de trabalhos em Fernando de Noronha e na Caatinga. A comparação entre biomas é uma das formas de ampliar o repertório de microrganismos e observar como diferentes condições ambientais influenciam essas comunidades.
Para os estados amazônicos, onde a biodiversidade também é central para a pesquisa e para o debate sobre bioeconomia, a experiência reforça uma questão prática: conservar florestas, rios, solos e áreas de transição significa preservar também organismos que ainda não foram descritos ou estudados. O aproveitamento econômico, porém, depende de pesquisa, autorização, rastreabilidade e respeito às regras brasileiras de acesso ao patrimônio genético.
A expedição na Mata Atlântica foi autorizada pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, o SISBio, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Os acessos serão cadastrados no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado, o SisGen.
“Cada microrganismo preservado representa uma nova possibilidade de investigação. Hoje temos aplicações e pesquisas principalmente em agro e cosméticos, mas a plataforma não está limitada a esses mercados”, afirma Patrícia Mendes.
As próximas etapas envolvem o processamento das amostras, a identificação molecular, as análises computacionais e a priorização das cepas para testes funcionais, mantendo o material da expedição disponível para pesquisas futuras.
Com informações de Apoena Biotech.
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