Extinções em massa ocorreram durante mudanças do clima e carbono, revela estudo de 539 milhões de anos

Extinções em massa ocorreram durante mudanças do clima e carbono, revela estudo de 539 milhões de anos
Foto: acervo

Pesquisa identifica cinco estados duradouros do planeta e aponta maior fragilidade da vida nas transições entre eles.

Antes de cada grande crise biológica, a Terra parece ter atravessado uma fase de instabilidade prolongada. Uma análise publicada em 29 de agosto de 2026 na revista Nature Communications indica que as extinções em massa dos últimos 539 milhões de anos se concentraram nas transições entre cinco estados duradouros do clima e do ciclo global do carbono.

O resultado não transforma toda mudança climática em causa direta de extinção. Ele sugere que o estado de fundo do planeta ajudava a definir quanto a biosfera conseguiria suportar quando recebesse um choque adicional, como uma sequência de erupções vulcânicas ou o impacto de um asteroide.

A vida ficava mais exposta quando o planeta mudava de estado

A pesquisa foi conduzida por matemáticos, paleontólogos e especialistas em modelagem climática reunidos em um grupo de estudos do International Centre for Mathematical Sciences, em Edimburgo. Ivan Sudakow, da Open University, liderou o trabalho. Andrej Spiridonov, da Universidade de Vilnius, desenvolveu a avaliação sobre a condição da biosfera.

Para reconstruir a trajetória do planeta, a equipe combinou dois indicadores preservados em rochas carbonáticas formadas no fundo de antigos oceanos. Um deles funciona como aproximação da temperatura marinha. O outro ajuda a acompanhar a movimentação do carbono pelo sistema terrestre.

Os pesquisadores organizaram 1.140 pontos distribuídos por um intervalo de 538,5 milhões de anos, com uma distância média de 472 mil anos entre cada registro. A comparação revelou blocos de condições recorrentes, em vez de uma mudança contínua e uniforme.

Cinco mundos climáticos aparecem no registro geológico

As principais fronteiras identificadas ocorreram perto de 447, 358, 239 e 57 milhões de anos atrás. Elas separam períodos conhecidos por características climáticas distintas: o Paleozoico inicial, a glaciação do Paleozoico tardio, o mundo quente dos dinossauros e o cenário mais frio do Cenozoico.

O primeiro estado analisado começa há 539 milhões de anos e inclui a explosão Cambriana, quando muitos grandes grupos de animais aparecem no registro fóssil. O último se estende pelos 57 milhões de anos mais recentes, intervalo que inclui a evolução dos mamíferos e a formação das condições atuais.

Quando os cientistas relacionaram temperatura e concentração de dióxido de carbono, cada estado ocupou uma região própria do gráfico. Isso indica que a resposta do clima a uma determinada elevação do CO2 pode variar conforme o contexto planetário, e não seguir sempre a mesma curva.

O sinal de alerta veio da recuperação mais lenta

Em sistemas próximos de uma mudança brusca, pequenas perturbações costumam desaparecer mais devagar. Essa perda de capacidade de recuperação é observada por pesquisadores que estudam pontos de inflexão climáticos atuais. No passado profundo, a equipe procurou o mesmo padrão em janelas de 20 milhões de anos.

Os sinais de maior instabilidade apareceram próximos ao fim do Ordoviciano, ao final do Paleozoico, no encerramento do Triássico e no aquecimento que marcou a transição entre o Paleoceno e o Eoceno. Em escala geológica, as trocas foram rápidas, ocorrendo em alguns milhões de anos. Para um animal individual, porém, seriam mudanças lentas demais para serem percebidas diretamente.

“Há previsibilidade na dinâmica evolutiva de longo prazo, e ela surge do acoplamento com os estados de longo prazo do ciclo do carbono e do clima”, afirmou Spiridonov.

O índice aponta os momentos de maior vulnerabilidade

Em vez de contar apenas espécies desaparecidas, os pesquisadores avaliaram a relação entre extinção, surgimento de novos gêneros e diversidade existente. Gêneros são grupos de espécies próximas, uma unidade mais confiável para o registro fóssil do que a contagem de cada espécie individual.

Os dados vieram de invertebrados marinhos reunidos na Paleobiology Database. A análise não inclui organismos terrestres. Mesmo com dois métodos diferentes para lidar com as falhas e lacunas dos fósseis, os resultados seguiram a mesma direção.

A vulnerabilidade foi alta no Paleozoico inicial e médio e voltou a crescer na transição Permiano-Triássico. Nesse episódio, considerado o maior colapso biológico conhecido, até 95% das espécies podem ter desaparecido. Também houve sinais associados ao fim do Ordoviciano, crise que eliminou ao menos 85% das espécies estimadas.

Segundo o estudo publicado na Nature Communications, a biosfera apresentou maior vulnerabilidade durante transições entre estados climáticos e do ciclo do carbono ao longo dos últimos 539 milhões de anos.

O Cenozoico tem a menor vulnerabilidade registrada

O contraste aparece nos 57 milhões de anos mais recentes. Nesse intervalo, o índice permaneceu abaixo de zero e continuou em queda na parte final da série. Nenhum outro estado analisado apresentou valores tão baixos.

Os autores associam esse resultado ao aumento persistente da diversidade, à redução das taxas de extinção e à presença de gêneros mais longevos. A conclusão, contudo, não significa que a biosfera moderna esteja protegida de qualquer crise. A resolução dos dados é ampla demais para prever o destino da vida em uma única geração ou em um século específico.

O estudo também não afirma que uma transição climática tenha provocado sozinha cada extinção. A mudança de estado teria funcionado como uma condição de fragilidade, enquanto o gatilho imediato poderia ser uma província vulcânica, uma alteração oceânica ou um impacto extraterrestre.

Por que a descoberta interessa à Amazônia

Para os estados da Amazônia, o valor do estudo está em mostrar que clima, carbono e biodiversidade precisam ser observados como partes do mesmo sistema. A floresta amazônica, seus rios, solos e áreas costeiras estão inseridos em processos de troca de carbono e circulação de água que ultrapassam fronteiras estaduais.

Isso não permite transportar diretamente uma crise do Ordoviciano para a realidade atual do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins. Permite, porém, compreender por que alterações persistentes no clima podem mudar a capacidade de recuperação dos ecossistemas e por que a diversidade disponível importa quando ocorre um choque.

Os próprios autores reconhecem limites importantes. Os registros químicos precisaram ser suavizados e preenchidos, e as datas dos eventos têm margens de incerteza. Além disso, ainda não está claro quais mecanismos mantêm um estado climático estável por dezenas de milhões de anos nem qual combinação de pressões consegue deslocá-lo.

A próxima etapa prevista pela equipe é testar diferentes condições de fundo diante de um mesmo distúrbio e medir como o tamanho da extinção muda. O estudo foi publicado em 29 de agosto de 2026, e novas comparações deverão avaliar se o padrão se mantém em outras bases fósseis e registros geológicos.

Com informações de Nature Communications.

Respostas rápidas sobre a pesquisa

O estudo prevê uma nova extinção em massa?

Não. A pesquisa identifica padrões em registros de centenas de milhões de anos e não faz uma previsão para o século atual.

Os dados incluem animais terrestres?

Não. O índice de biodiversidade foi calculado com registros de invertebrados marinhos disponíveis na Paleobiology Database.

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