
Estudo com dados de satélite mostra que o ganho da vegetação em terra não compensa totalmente a perda de produtividade dos oceanos.
À primeira vista, a notícia parece positiva: a vida na Terra está retirando mais carbono da atmosfera. O detalhe é que esse aumento não está acontecendo de maneira equilibrada. Um estudo publicado em 1º de agosto de 2025 na revista Nature Climate Change identificou que plantas terrestres elevaram a produção primária líquida global em cerca de 0,2 bilhão de toneladas de carbono por ano entre 2003 e 2021, enquanto algas e outros organismos fotossintéticos dos oceanos perderam aproximadamente 0,1 bilhão de toneladas anuais. O saldo mundial ficou positivo em cerca de 0,1 bilhão de toneladas, mas a diferença entre terra e mar acende um alerta sobre o futuro do clima e das cadeias alimentares.
O que os satélites revelaram
A pesquisa foi liderada por Yulong Zhang e colegas da Duke University, nos Estados Unidos. Para avaliar o comportamento da biosfera, a equipe reuniu seis conjuntos de dados obtidos por satélites, com informações equivalentes sobre ambientes terrestres e marinhos.
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Cinquenta anos depois de Tubarão, pesquisa global reúne mil respostas e encontra sinais de que o medo dos predadores está cedendoOs pesquisadores analisaram a concentração de clorofila, pigmento essencial para a fotossíntese, além de temperatura, intensidade da luz, disponibilidade de nutrientes e profundidade da mistura das águas oceânicas. Esses dados foram combinados com modelos computacionais para estimar a produção primária líquida, medida que indica quanto carbono os organismos fotossintéticos acumulam depois de descontar o que gastam na respiração.
Entenda o caso
A produção primária líquida funciona como um termômetro da capacidade dos ecossistemas de transformar gás carbônico em matéria orgânica. Ela sustenta praticamente todas as cadeias alimentares, da vegetação que alimenta animais terrestres ao fitoplâncton que mantém peixes, crustáceos e grandes mamíferos marinhos.
Até agora, muitos estudos avaliavam a produtividade da terra e do oceano separadamente. A análise de Zhang e sua equipe procurou observar os dois sistemas ao mesmo tempo, oferecendo uma visão mais integrada do ciclo global do carbono.
Por que a vegetação terrestre cresceu
O aumento da produtividade em terra foi mais expressivo em regiões temperadas e boreais. Em áreas do hemisfério Norte, o aquecimento ampliou a duração de algumas estações de crescimento, permitindo que plantas permanecessem ativas por mais tempo.
A expansão de florestas, a intensificação de áreas agrícolas e o aumento localizado das chuvas também contribuíram para o resultado. Isso não significa, porém, que todas as regiões estejam ficando mais verdes. As áreas tropicais, especialmente na América do Sul, não apresentaram a mesma tendência de crescimento observada em latitudes temperadas e boreais.

Esse contraste é especialmente relevante para a Amazônia. A floresta se estende por Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, e exerce papel importante na circulação de água e no armazenamento de carbono. No entanto, o estudo indica que a resposta das zonas tropicais é diferente e mais heterogênea, o que impede tratar o ganho global de produtividade como sinal de melhora uniforme da vegetação amazônica.
Oceanos perdem produtividade em áreas tropicais
No mar, a tendência foi oposta. A queda de aproximadamente 0,1 bilhão de toneladas de carbono por ano concentrou-se principalmente em águas tropicais e subtropicais, com destaque para o oceano Pacífico.
Uma das explicações apontadas é o aquecimento da superfície do oceano. Quando a camada superficial fica mais quente, ela tende a permanecer separada das águas profundas. Essa estratificação dificulta a subida de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, que são essenciais para o crescimento do fitoplâncton.
Com menos nutrientes disponíveis, as algas microscópicas produzem menos matéria orgânica. O efeito pode alcançar toda a cadeia alimentar marinha, ameaçando a biodiversidade, a atividade pesqueira e a estabilidade de ecossistemas tropicais que sustentam milhões de pessoas.
Segundo a Duke University, a produção primária líquida terrestre aumentou cerca de 0,2 bilhão de toneladas de carbono por ano entre 2003 e 2021, enquanto a produção oceânica caiu aproximadamente 0,1 bilhão de toneladas no mesmo período.
O saldo positivo esconde um desequilíbrio
A compensação entre os dois ambientes ajuda a explicar por que a produção primária líquida global ainda apresentou crescimento. O ganho em terra foi maior que a perda no oceano, resultando em alta aproximada de 0,1 bilhão de toneladas de carbono por ano.
O número, contudo, não deve ser interpretado como uma vitória definitiva contra o aquecimento global. O aumento da produtividade vegetal pode depender de condições que não vão durar para sempre, como maior disponibilidade de água em algumas regiões e temporadas de crescimento mais longas.

Alterações no regime de chuvas, pressão por novas áreas agrícolas, degradação florestal e falta de nutrientes podem limitar esse crescimento. No oceano, o aquecimento e a acidificação tendem a ampliar a pressão sobre organismos que formam a base das redes alimentares.
El Niño e La Niña mudam o cenário rapidamente
A equipe também observou que a produtividade marinha reage com força às variações climáticas de um ano para outro. Fenômenos como El Niño e La Niña podem reduzir ou estimular o crescimento do fitoplâncton em intensidade maior do que a observada em muitos ecossistemas terrestres.
A sequência de episódios de La Niña registrada depois de 2015 contribuiu para uma recuperação temporária da produtividade oceânica. Esse comportamento mostra que a tendência de longo prazo é formada por oscilações naturais e por mudanças persistentes associadas ao aquecimento do planeta.
Para os autores, acompanhar apenas florestas ou apenas oceanos oferece uma fotografia incompleta da saúde da biosfera. A combinação de satélites, modelos e observações em campo será necessária para entender se o crescimento em terra pode continuar e como a perda de produtividade marinha afetará o clima e a segurança alimentar.
O estudo foi publicado com o título Contrasting biological production trends over land and ocean e está identificado pelo DOI 10.1038/s41558-025-02375-1. Novas medições e análises deverão indicar se as tendências observadas até 2021 permanecem nos anos seguintes.
Perguntas frequentes
O que é produção primária líquida?
É a quantidade de carbono acumulada por plantas, algas e outros organismos fotossintéticos depois de descontado o carbono usado na respiração.
A fotossíntese global está aumentando?
O saldo global analisado pelo estudo aumentou, mas por causa do ganho em áreas terrestres. Nos oceanos, a produtividade caiu, especialmente em regiões tropicais e subtropicais.
O resultado vale para toda a Amazônia?
Não. O estudo aponta diferenças regionais e mostra que as zonas tropicais da América do Sul não acompanharam o aumento registrado em regiões temperadas e boreais.
Com informações de Duke University.
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