
Iniciativa brasileira lançada na COP30 precisa de US$ 10 bilhões até o fim de 2026 para desbloquear recursos da Noruega.
O Tropical Forest Forever Facility (TFFF), fundo global de proteção às florestas tropicais lançado pelo Brasil durante a COP30 em novembro de 2025, enfrenta dificuldades para alcançar sua meta inicial de captação. Segundo dados divulgados em julho de 2026, a iniciativa arrecadou até agora US$ 6,8 bilhões, mas precisa mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões até o fim deste ano para desbloquear um compromisso da Noruega de até US$ 3 bilhões em empréstimos ao longo de dez anos. Caso a meta não seja atingida, os recursos noruegueses não serão liberados, comprometendo o financiamento de longo prazo para a preservação de até 1 bilhão de hectares de floresta tropical.
O mecanismo funciona de forma inovadora: em vez de depender apenas de doações, o TFFF capta recursos públicos e privados, investe no mercado financeiro e paga aos países com florestas tropicais uma parte dos retornos obtidos. O modelo busca dar valor econômico às florestas em pé, desestimulando o desmatamento.
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Águia-pescadora realiza migração transcontinental de milhares de quilômetros para pescar nos rios da AmazôniaDurante a Semana de Ação Climática de Londres, realizada na última semana de junho de 2026, o Reino Unido não anunciou o aporte financeiro que era esperado por líderes florestais e organizações ambientais. A ministra do clima britânica Katie White elogiou a iniciativa em um evento nos Jardins Botânicos de Kew, em Londres, mas não formalizou compromisso financeiro. Segundo ela, o governo britânico teve “conversas robustas” nas últimas semanas sobre a importância das florestas para a segurança e prosperidade do país, classificando a preservação florestal como “absolutamente vital”.
Divergências políticas emperram compromisso britânico
Segundo o jornal britânico The Times, o ministro de energia e clima do Reino Unido, Ed Miliband, estava pronto para anunciar um investimento de £400 milhões (US$ 528 milhões) no TFFF, mas enfrentou resistência da ministra das finanças Rachel Reeves. Ela temia que o anúncio fosse impopular em meio a críticas sobre insuficiência de gastos militares. O governo britânico vem cortando orçamentos de ajuda externa, incluindo programas de proteção florestal, para aumentar despesas de defesa.
Fontes ouvidas pela Climate Home News indicam que o Tesouro britânico havia aprovado internamente o investimento no fundo, mas os procedimentos administrativos não foram concluídos a tempo do evento em Londres. A situação política no país também se complicou: o primeiro-ministro Keir Starmer anunciou sua renúncia no primeiro dia da Semana de Ação Climática, após resultados eleitorais locais desfavoráveis. Andy Burnham, também do Partido Trabalhista, é o favorito para substituí-lo até o fim de julho. Reeves pode deixar o comando das finanças, com Miliband cotado como possível sucessor.
Ed Davey, representante do World Resources Institute no Reino Unido, afirmou que o investimento britânico é “incrivelmente importante” e precisa acontecer “o mais rápido possível”. “O TFFF está em um estágio muito importante de sua gestação, e se alguns governos soberanos criticamente importantes não embarcarem em breve, há o risco de a ideia perder impulso”, declarou.
Brasil busca apoio de China e outros países
Com os Estados Unidos fora do jogo sob a administração de Donald Trump, o Brasil tem buscado outros doadores. Na última sexta-feira (28 de junho), o ministro da fazenda brasileiro Dario Durigan se reuniu com o ministro das finanças chinês Lan Fo’an. Segundo Durigan, foi a primeira vez que a China deu “uma indicação mais forte e firme” de que compreende e se sente confortável com o modelo do TFFF. “Houve um sinal positivo. Agora vamos trabalhar com sua equipe para transformar isso em compromissos concretos”, disse Durigan ao jornal Valor Econômico.
Além da China, o fundo tem buscado investimentos do Japão, Coreia do Sul e países do Oriente Médio. Os Emirados Árabes Unidos demonstraram interesse e forneceram assistência técnica para o desenvolvimento do mecanismo. Até agora, além do Brasil, comprometeram-se com o TFFF a Noruega, Alemanha, França, Indonésia e Luxemburgo.
Anders Haug Larsen, diretor de advocacy da Rainforest Foundation Norway, afirmou que o dinheiro do Reino Unido e seu poder de mobilizar o setor privado são cruciais para o sucesso do fundo. “Salvar a floresta tropical é um componente-chave para resolver a mudança climática e preservar a vida neste planeta”, declarou.
Setor financeiro manifesta apoio
Após um encontro de investidores em Roterdã, nos Países Baixos, 12 instituições financeiras, incluindo o grupo britânico Ashmore e a holandesa Robeco, endossaram o TFFF como “uma oportunidade de apoiar a proteção de até 1 bilhão de hectares de florestas tropicais”. Em comunicado, as instituições afirmaram que o capital-semente dos governos está “construindo impulso” e que o fundo estabeleceu uma “governança institucional robusta” capaz de entregar resultados no longo prazo.
No início de julho de 2026, foi anunciado que o braço de investimento do fundo, o Tropical Forest Investment Fund (TFIF), terá sede em Luxemburgo. O país comprometeu-se a fornecer €50 milhões (US$ 57 milhões) ao TFIF entre 2026 e 2030, através de seu Fundo de Clima e Energia, com promessa de manter uma contribuição anual de longo prazo depois desse período.
O governo norueguês encarregou Knut N. Kjaer, veterano de seu fundo soberano de riqueza, de revisar o modelo financeiro do TFFF antes de liberar seus recursos.
Entenda o caso
O TFFF foi lançado à margem da COP30, realizada em Belém (PA) em novembro de 2025, como um mecanismo inovador para financiar a proteção de florestas tropicais. Diferente de fundos tradicionais baseados em doações, ele busca atrair capital público e privado, investir em mercados financeiros de baixo risco e distribuir os retornos aos países que mantiverem suas florestas em pé. O objetivo é criar um incentivo econômico permanente para a conservação florestal, em vez de depender exclusivamente de ajuda humanitária ou climática de curto prazo.
Valor econômico para florestas em pé
Garo Batmanian, diretor do serviço florestal brasileiro, explicou durante o evento em Kew Gardens que o TFFF e outras medidas são necessários para que as florestas em pé sejam economicamente valorizadas e, portanto, protegidas. “Não há nenhum maníaco com motosserra cortando árvores por prazer. Ele está cortando porque acha que pode ganhar mais dinheiro usando a terra para outra coisa. Então não se trata apenas de parar o desmatamento, mas também de promover que a floresta em pé tem valor”, afirmou.
A ministra francesa de parcerias internacionais Eleonore Caroit informou que a França, que já comprometeu US$ 600 milhões, não tem previsão de aumentar sua contribuição. Ela destacou que o país apoia o TFFF, mas também está “focando em outros projetos similares para alcançar os mesmos resultados”.
A Alemanha, que também já anunciou sua contribuição, não sinalizou novos aportes. Com isso, o Reino Unido torna-se ainda mais central para o sucesso da iniciativa. Caso Londres e outros doadores não preencham a lacuna de aproximadamente US$ 3,2 bilhões até dezembro, o fundo pode perder força política e financeira logo em seu primeiro ano de operação.
Próximos passos e desdobramentos
O Brasil pretende intensificar negociações com China, Japão, Coreia do Sul e países do Oriente Médio nos próximos meses. A expectativa é que o novo governo britânico, sob Andy Burnham, reavalie a decisão de investir no TFFF ainda em 2026. A revisão do modelo financeiro pela equipe norueguesa deve ser concluída até o fim do terceiro trimestre, o que pode ajudar a atrair novos investidores institucionais.
Perguntas frequentes
O que é o Tropical Forest Forever Facility?
É um fundo global lançado pelo Brasil na COP30 para financiar a proteção de florestas tropicais. Em vez de doações, o mecanismo capta recursos públicos e privados, investe no mercado financeiro e paga retornos aos países que mantêm suas florestas em pé.
Por que o Reino Unido não anunciou sua contribuição?
Fontes indicam que houve resistência interna no governo britânico, possivelmente ligada a pressões para aumentar gastos militares. Procedimentos administrativos para formalizar o aporte também não foram concluídos a tempo da Semana de Ação Climática de Londres.
O que acontece se o fundo não atingir US$ 10 bilhões até o fim de 2026?
A Noruega não liberará sua promessa de até US$ 3 bilhões em empréstimos ao longo de dez anos, comprometendo seriamente a viabilidade financeira do fundo e sua capacidade de proteger até 1 bilhão de hectares de floresta tropical.
Com informações de Climate Home News.
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