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Fungo zumbi é achado em musgos da Amazônia e intriga ciência

Fungo zumbi é achado em musgos da Amazônia e intriga ciência
Foto: metropoles.com

Pesquisa do Inpa encontrou Ophiocordyceps em plantas da Reserva Ducke, sem sinais de que o fungo altere o comportamento dos musgos.

[IMAGEM DE CAPA: musgo amazônico associado ao estudo]
Musgos da Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, abrigaram material genético de Ophiocordyceps. Crédito: Tales Alves-Júnior et al., 2026.

O que um fungo conhecido por transformar formigas em “zumbis” estaria fazendo escondido em musgos da floresta? Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) encontraram exemplares de Ophiocordyceps sp. em musgos coletados na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, e identificaram o material por meio de técnicas de DNA. O estudo, publicado em julho de 2026 na revista IMA Fungus, sugere que o fungo pode usar as plantas como abrigo, sem alterar o comportamento delas ou provocar danos aparentes.

Fungo conhecido por controlar formigas

Os fungos do gênero Ophiocordyceps ganharam fama por infectar insetos e modificar o comportamento dos hospedeiros. Em algumas espécies de formigas, o parasita atua sobre o sistema nervoso e faz o animal abandonar a colônia.

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Depois, a formiga procura um ponto adequado, como um galho, uma folha ou um musgo, e prende as mandíbulas no local. Esse comportamento é chamado de “mordida mortal”. Com o inseto imóvel, o fungo cresce e libera esporos, que ajudam na reprodução e na colonização de novos hospedeiros.

O processo parece saído de um filme de ficção científica, mas é uma relação natural já observada em diferentes regiões tropicais. A novidade do estudo amazônico está em mostrar que o fungo pode estar presente também em plantas, mesmo quando não há uma formiga infectada por perto.

O que os pesquisadores encontraram

Durante a análise de musgos da Reserva Ducke, os cientistas detectaram a presença de Ophiocordyceps sp. em amostras vegetais. Segundo o estudo, alguns desses musgos estavam a mais de 10 metros de distância de formigas infectadas, o que chamou a atenção da equipe.

Segundo o Inpa, o fungo foi identificado em comunidades de musgos por meio de técnicas de DNA, em uma descoberta publicada em julho de 2026 na revista IMA Fungus. A análise genética permitiu detectar a presença do organismo mesmo sem sinais visíveis de uma infecção semelhante à observada em formigas.

“Sempre consideramos esse fungo um parasita exclusivo de insetos, especialmente daqueles que ele manipula. O que nossos dados sugerem é que a história é muito mais ampla: o mesmo fungo parece ser onipresente nas comunidades de musgos ao redor”, afirmou Tales Alves Jr., autor principal do estudo, em comunicado divulgado pelo Inpa.

Entenda o caso

Ophiocordyceps é um gênero de fungos que inclui espécies capazes de parasitar insetos. Em formigas, algumas delas alteram o comportamento do animal para favorecer a dispersão dos esporos.

Nos musgos analisados em Manaus, porém, não foi observado um mecanismo de controle comportamental. A interpretação mais provável é que a planta funcione como um ambiente de proteção ou manutenção temporária do fungo.

A hipótese ainda precisa de novas pesquisas. Os cientistas não demonstraram que o fungo complete todo o ciclo de vida nos musgos nem que consiga se reproduzir neles da mesma forma que ocorre nos insetos.

Uma possível estratégia para atravessar períodos difíceis

Uma das principais suspeitas é que os musgos ajudem o fungo a sobreviver em épocas com menor disponibilidade de formigas para infectar. Em uma floresta úmida e diversa como a Amazônia, ocupar diferentes ambientes pode ser uma vantagem para organismos que dependem de hospedeiros específicos.

Isso não significa que o fungo tenha mudado de comportamento ou que as plantas estejam sendo transformadas em “zumbis”. A expressão é usada para descrever o efeito observado em certos insetos. Nos musgos, o cenário identificado até agora é diferente: há presença do fungo, mas não evidência de manipulação ou de prejuízo visível à planta.

O resultado também reforça a ideia de que fungos, plantas e animais formam redes ecológicas mais conectadas do que se imaginava. Um musgo usado por uma formiga infectada como ponto de fixação pode, ao mesmo tempo, abrigar o próprio fungo em outra região da comunidade vegetal.

Por que a descoberta importa para a Amazônia

A Reserva Ducke é uma das áreas de pesquisa mais importantes da Amazônia brasileira e fica próxima a Manaus. Estudos realizados no local ajudam a revelar relações microscópicas que podem passar despercebidas em levantamentos baseados apenas na observação de animais e plantas.

Para os estados amazônicos, incluindo Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, esse tipo de investigação destaca a importância de manter áreas de floresta protegidas e acessíveis à ciência. Muitos fungos ainda não foram descritos ou tiveram suas funções ecológicas completamente compreendidas.

A pesquisa pode abrir novas perguntas: o Ophiocordyceps encontrado nos musgos é o mesmo que infecta formigas? O fungo usa a planta apenas como abrigo ou também obtém algum recurso dela? E esse comportamento ocorre em outras espécies de musgo e em diferentes áreas da floresta?

As próximas etapas deverão comparar amostras de musgos, fungos e formigas para esclarecer como essa relação funciona e se ela se repete em outras partes da Amazônia.

Perguntas frequentes

O fungo encontrado nos musgos transforma plantas em zumbis?

Não. Até o momento, não há evidências de que o Ophiocordyceps altere o comportamento dos musgos ou cause neles o mesmo efeito observado em algumas formigas.

Como o fungo foi identificado?

A presença do fungo foi detectada por técnicas de análise de DNA em amostras de musgos coletadas na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus.

O que é a “mordida mortal”?

É o comportamento em que uma formiga infectada prende as mandíbulas em uma folha, galho ou musgo. O local ajuda o fungo a crescer e espalhar seus esporos.

Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

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