
Pesquisadores da UFRA mostram como a conservação do animal depende da saúde dos rios e da participação das comunidades.
Por trás da antiga história do homem vestido de branco que seduz jovens ribeirinhas existe um animal capaz de revelar o estado de saúde de um rio inteiro. O boto-cor-de-rosa, símbolo do imaginário amazônico e personagem de lendas sobre paternidade e encantamento, enfrenta pelo menos seis ameaças ambientais e passou a ser tratado por pesquisadores como uma sentinela dos rios da região.
A avaliação é apresentada pela bióloga Angélica Rodrigues, uma das diretoras do Instituto de Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia, o BioMA, da Universidade Federal Rural da Amazônia, a UFRA. O grupo atua com pesquisa, educação ambiental, resgate de animais encalhados e acompanhamento de espécies aquáticas no Pará.
🌿 Receba nossas notícias no Google
⭐ Adicionar Revista AmazôniaLeia também
Extinções em massa surgem quando o ambiente muda rápido demais, mostra modelo do MIT após 450 milhões de anos
Ticuna formam o maior povo indígena da Amazônia brasileira e se chamam Magüta, os pescados do igapó, numa origem que ainda organiza aldeias no Solimões
Wajãpi do Amapá têm os gráficos kusiwa reconhecidos pela Unesco e pintam no corpo uma escrita que a escola brasileira ainda trata como enfeiteO trabalho busca aproximar o conhecimento científico das comunidades que vivem às margens dos rios. A estratégia é importante porque a relação com os botos não é igual em todos os municípios. No Pará, a presença das lendas é especialmente forte no arquipélago do Marajó, no baixo Amazonas e no Baixo Tocantins, áreas onde esses animais são encontrados com frequência.
Da lenda do “filho do boto” à conservação
Nas narrativas populares, o boto aparece como um homem que participa de festas, conquista uma mulher e depois retorna para a água, deixando como consequência uma gravidez atribuída ao animal. Essa cosmologia ainda influencia comportamentos, explica Angélica Rodrigues. Em algumas comunidades, mulheres evitam o contato com os botos por medo de serem “mundiadas”, termo usado para descrever uma espécie de encantamento ou perda de controle.
Ao mesmo tempo, o imaginário também alimenta o comércio clandestino de partes dos animais. Segundo a pesquisadora, ainda há procura por amuletos, unguentos e outros subprodutos associados a supostos efeitos medicinais ou místicos. Esses produtos podem ser vendidos de maneira discreta, justamente para escapar da fiscalização.
“Quando pensamos em um programa de educação ambiental e de conservação das espécies, a primeira providência foi entender as relações das comunidades com essas espécies, para que junto com elas construíssemos um programa de conservação”, afirma Angélica Rodrigues.
A proposta, portanto, não é simplesmente combater costumes locais, mas compreender como eles se relacionam com a sobrevivência dos animais. Para a equipe, a conservação tende a ser mais eficiente quando construída com moradores, pescadores, monitores ambientais e instituições públicas.
Seis pressões sobre os botos amazônicos
O boto-cor-de-rosa, cujo nome científico é Inia geoffrensis, está classificado como “Em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza desde 2018. A espécie também aparece nessa categoria nas listas oficiais brasileiras de espécies ameaçadas, elaboradas com participação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos do ICMBio.
O boto-tucuxi, Sotalia fluviatilis, também é considerado “Em perigo de extinção” no Brasil. Já o boto-do-Araguaia, Inia araguaiaensis, descrito cientificamente em 2014, é classificado como vulnerável.
Entre os principais fatores de risco estão a perda de habitat, a dragagem dos rios, a captura acidental em redes de pesca, a captura intencional para uso como isca, a poluição e as mudanças climáticas. Esses impactos podem se somar e reduzir as possibilidades de alimentação, reprodução e deslocamento dos animais.
Entenda o caso
Os botos vivem em rios e ambientes de várzea, onde ocupam uma posição elevada na cadeia alimentar. Por acumularem sinais de diferentes níveis de contaminação e alterações ecológicas, são chamados de sentinelas ambientais.
Segundo a UFRA, os encalhes de botos vivos ou mortos podem fornecer informações científicas sobre a qualidade da água, a presença de resíduos, doenças e outros impactos provocados pela atividade humana.
“Ele está no topo da cadeia alimentar. É um animal que acumula as informações e funciona como um grande farol ambiental para nos dar pistas de como o ambiente está respondendo às emergências e aos impactos antrópicos”, explica a pesquisadora.
O boto encontrado em um canal de Belém
Um episódio registrado no início de 2026 tornou visível a relação entre a saúde dos rios e a rotina urbana da capital paraense. Um boto-cor-de-rosa adulto apareceu em um canal no centro de Belém, depois de entrar pela rede de drenagem de águas pluviais.
O animal mobilizou instituições, incluindo o BioMA, mas não sobreviveu. Era um macho adulto e, segundo a equipe, o trato intestinal estava cheio de lixo. O caso foi considerado atípico pelos pesquisadores e reforçou a preocupação com a poluição que chega aos canais e, posteriormente, aos rios.
O episódio também mostra que a conservação da fauna aquática não depende apenas de áreas distantes das cidades. O descarte incorreto de resíduos em Belém e em outros centros urbanos da Amazônia pode alcançar os mesmos ambientes usados por botos, tartarugas, peixes-boi e aves marinhas.
Turismo precisa de regras e monitoramento
Outro desafio é a alimentação oferecida por pessoas a botos de vida livre. Embora a prática possa parecer uma forma de aproximação com a natureza, ela altera o comportamento dos animais e aumenta o contato entre espécies diferentes.
De acordo com a pesquisadora, já existem evidências de circulação de fungos, vírus e bactérias entre botos e pessoas que os alimentam, inclusive microrganismos resistentes a antibióticos. Por isso, a interação é também uma questão de saúde pública.
Em Mocajuba, no Pará, a equipe acompanha há anos entre 10 e 12 animais. Atualmente, o monitoramento inclui sete botos em contato direto com visitantes no entorno do mercado e um filhote recém-observado. O objetivo não é acabar com o turismo, mas ajudar a criar regras para que a atividade não prejudique os animais nem as pessoas.
“O boto é um símbolo, um patrimônio natural para aquela região, mas é preciso estabelecer como pode ser essa interação de forma correta, sem prejuízo aos animais e aos visitantes”, diz Angélica Rodrigues.
Reprodução lenta aumenta a preocupação
A recuperação das populações também é dificultada pelo ritmo reprodutivo dos botos. A gestação pode durar até um ano, com o nascimento de apenas um filhote por vez. Depois do parto, a fêmea pode levar de dois a três anos para ter outro filhote, devido ao longo período de cuidado parental.
Esse ciclo torna os impactos ambientais ainda mais graves. Quando um animal adulto morre por poluição, pesca ou captura, a reposição da população não acontece rapidamente. As mudanças climáticas acrescentam outra camada de incerteza, e o BioMA mantém pesquisas para entender como o aumento de eventos extremos e as alterações nos rios afetam os mamíferos aquáticos.
Como denunciar um animal encalhado
O Instituto BioMA mantém uma rede de atendimento formada por biólogos, veterinários, sociólogos, arte-educadores, órgãos ambientais, bombeiros, policiais e monitores comunitários. O Disque-Encalhe recebe chamados sobre botos, tartarugas, baleias, peixe-boi e aves marinhas, vivos ou mortos.
Os contatos são (91) 99250-3113 e (91) 98032-4957. Ao encontrar um animal, a orientação é manter distância, não oferecer comida, evitar tocar e enviar informações que ajudem a confirmar o local. A checagem é necessária porque vídeos antigos ou gravados em outros estados podem circular como se fossem ocorrências amazônicas.
As próximas etapas incluem ampliar o monitoramento, formar agentes ambientais nas comunidades e produzir dados para planos de gestão do turismo e de conservação dos rios amazônicos.
Perguntas frequentes
Por que o boto é chamado de sentinela dos rios?
Porque está no topo da cadeia alimentar e acumula informações sobre o ambiente. Seus encalhes, doenças e mortes podem indicar alterações na qualidade da água e nos ecossistemas.
Alimentar botos de vida livre é seguro?
Não. A prática altera o comportamento dos animais e pode facilitar a transmissão de fungos, vírus e bactérias entre botos e pessoas.
O que fazer ao encontrar um boto encalhado?
Não toque nem ofereça alimento. Mantenha distância e acione o Disque-Encalhe pelos telefones (91) 99250-3113 ou (91) 98032-4957.
Com informações de UFRA.
Nunca perca uma notícia da AmazôniaControle o que você vê no Google
O Google lançou as Fontes Preferenciais: escolha os veículos que aparecem com prioridade. Adicione a Revista Amazônia e garanta cobertura exclusiva sempre em destaque.
Adicionar Revista Amazônia como Fonte Preferencial1. Pesquise qualquer assunto no Google
2. Toque no ⭐ ao lado de "Principais Notícias"
3. Busque Revista Amazônia e marque a caixa — pronto!
Ariranha sincroniza caça coletiva com vocalização subaquática e cerca cardumes em rios rasos da Amazônia
Plano no Amazonas usa sensores e ribeirinhos após 209 botos morrerem na seca extrema de 2023 e 2024
Parceria com povo Panará aponta possível nova espécie de árvore na Amazônia e revela convivência diária com antas e porcos-do-mato em território indígena














